A melhor parte de ser campeão pela primeira vez é poder sê-lo duas vezes
Aos 20 anos, João Afonso Vasconcelos tornou-se campeão mundial de futebol virtual na Esports World Cup, na Arábia Saudita, vencendo 270 mil euros numa final disputada contra um adversário brasileiro. A sua história é a de uma geração que cresceu entre consolas e salas de aula, aprendendo que a disciplina exigida pelo desporto profissional não conhece fronteiras entre o real e o virtual. Enquanto Portugal ainda debate a regulamentação dos Esports, um jovem estudante de Economia já colocou o país no topo do mundo.
- Com apenas 20 anos e o segundo ano de Economia por concluir, João Afonso venceu a final mundial por 6-2 e embolsou 270 mil euros numa arena na Arábia Saudita.
- Conciliar viagens intercontinentais para competições com exames e aulas tornou-se uma equação tão exigente que João perdeu a maioria das aulas no ano passado e ficou com cadeiras em atraso.
- O treino chega às seis horas diárias antes das competições, inclui análise de futebol real, dieta controlada e ginásio — uma rotina que rivaliza com a de qualquer atleta profissional convencional.
- Portugal ainda não regulamenta os Esports, uma lacuna que o próprio campeão reconhece como obstáculo à sustentabilidade e ao reconhecimento da modalidade no país.
- A ambição de João permanece intacta: 'A melhor parte de ser campeão do mundo pela primeira vez é poder sê-lo duas vezes.'
João Afonso Vasconcelos tem 20 anos, estuda Economia no Iscte e acaba de conquistar o título de campeão mundial de futebol virtual na Esports World Cup, disputada em Agosto na Arábia Saudita. Na final, derrotou o brasileiro Young por 6-2 e somou um prémio de 270 mil euros. Conhecido nos Esports como JAfonso, a sua ligação ao futebol virtual começou aos 4 anos, quando um primo o introduziu ao jogo na PlayStation — mas sempre com regras rígidas em casa: nunca mais de duas horas por sessão, só aos fins-de-semana ou após as aulas.
Aos 16 anos entrou no Boavista e, um ano depois, assinou o primeiro contrato profissional com o Luna Galaxy — equipa associada ao futebolista Diogo Jota — estreando-se também na selecção nacional de Esports. Desde então, acumulou uma taça de Portugal, títulos nacionais e um campeonato na liga norte-americana de Esports. Mas o título mundial é inédito.
A vida de João é um exercício constante de equilíbrio. As viagens para competições nos EUA, Reino Unido e Suécia colidem com as obrigações académicas: no ano passado, as ausências foram tantas que ficou apenas com duas cadeiras por concluir. Quando os torneios se aproximam, treina entre cinco e seis horas diárias sob orientação do treinador Armando Vale, analisa jogos de futebol real, estuda características individuais de jogadores e mantém uma dieta cuidada. As competições são maratonas: começam com cerca de 500 jogadores e podem estender-se de uma a oito horas seguidas, sem pausas significativas.
Financeiramente, os jogadores vivem de prémios e salários de equipa, mas Portugal ainda não regulamenta os Esports — uma proposta do PS, apresentada em Julho, pretende mudar isso dentro de um ano. João apoia a iniciativa, vendo nela uma forma de dar sustentabilidade e reconhecimento à modalidade. Quanto ao futuro, o próximo torneio internacional está marcado para Novembro. E a ambição é clara: 'A melhor parte de ser campeão do mundo pela primeira vez é poder sê-lo duas vezes.'
João Afonso Vasconcelos tem 20 anos, estuda Economia no Iscte e há poucas semanas conquistou o título que qualquer jogador de futebol virtual sonha alcançar: campeão mundial da modalidade. A vitória chegou em Agosto, na Arábia Saudita, durante a Esports World Cup, onde derrotou o brasileiro Young por 6-2 na final. Pelo caminho, embolsou 270 mil euros.
Mas a história de JAfonso — como é conhecido no mundo dos Esports — começou muito antes, aos 4 anos, quando o primo o introduziu ao futebol na PlayStation. Durante a infância e adolescência, os pais foram rigorosos com o tempo de jogo: nunca mais de duas horas por sessão, e apenas aos fins-de-semana ou depois das aulas. Só aos 13 anos ganhou a sua primeira consola. Enquanto isso, o futebol com bola nos pés ocupava muito mais do seu tempo. Tudo mudou quando percebeu que podia fazer carreira profissional em Esports, dedicando-se ao jogo de simulação que, desde 2023, se chama EA Sports FC. Aos 16 anos, começou no Boavista. Um ano depois, aos 17, assinou o primeiro contrato profissional com o Luna Galaxy, a equipa do jogador do Liverpool Diogo Jota, e estreou-se na selecção nacional portuguesa de Esports.
A vida de João é um exercício de equilíbrio. Enquanto conclui o segundo ano de Economia — em Setembro entra no terceiro e último ano — viaja para competições internacionais nos EUA, Reino Unido e Suécia. No ano passado, as ausências foram tantas que perdeu a maioria das aulas e alguns exames, deixando apenas duas cadeiras por terminar. "Tem sido difícil conciliar as duas coisas, mas até acho que tenho feito bom trabalho", diz ele. O currículo de títulos é impressionante: uma taça de Portugal, troféus de campeão e vice-campeão nacional, e campeão internacional na liga de Esports norte-americana. Mas nada se compara ao título mundial.
O treino é tão rigoroso quanto o de qualquer atleta profissional. Quando se aproximam as competições, João joga entre cinco e seis horas por dia, sempre sob orientação do treinador Armando Vale. Nos períodos sem torneios, reduz para uma a três horas diárias, ajustando conforme a disponibilidade. Além de jogar, precisa de analisar constantemente jogos de futebol real, estudar as características de cada jogador — quem tem o melhor pé esquerdo, quem faz o melhor passe longo — e manter uma dieta tão saudável quanto a de um futebolista profissional. O ginásio também faz parte do plano, embora João admita que este ano, entre viagens e estudos, ainda não conseguiu estar presente com regularidade.
As competições são maratonas físicas e mentais. Numa arena cheia de público, começam com cerca de 500 jogadores profissionais. Ao longo dos dias, vão sendo eliminados até restarem apenas dois na final. Os períodos de jogo podem estender-se de uma a oito horas, muitas vezes sem pausas significativas. João recorda um torneio em Londres, em Outubro do ano passado, onde começou a jogar às 11 da manhã e só terminou às 18 ou 19 horas da noite — se não fosse eliminado. "Era literalmente jogar de manhã à noite", conta. Noutras ocasiões, nem sequer teve tempo para descansar.
Financeiramente, os jogadores desta modalidade vivem de prémios — que podem atingir milhões de euros — e de salários das equipas a que pertencem. Mas em Portugal existe uma lacuna importante: os desportos electrónicos ainda não são regulamentados. O PS apresentou uma proposta em Julho com o objectivo de implementá-la dentro de um ano. João concorda que a regulamentação seria positiva, não apenas para os jogadores, mas para a sustentabilidade e reconhecimento geral dos Esports.
Quando lhe perguntam o que vem a seguir, João sabe que o próximo torneio internacional será em Novembro. Mas há algo que o toca: "Gosto muito daquilo que faço, mas confesso que de vez em quando sinto saudades de quando era miúdo e só jogava por diversão". Ainda assim, a ambição permanece intacta. "Digo sempre que a melhor parte de ser campeão do mundo pela primeira vez é poder sê-lo duas vezes", afirma. Para alguém que já conquistou o topo, a única direcção que faz sentido é repetir.
Notable Quotes
Tem sido difícil conciliar as duas coisas, mas até acho que tenho feito bom trabalho— João Afonso, sobre a conciliação entre Esports e estudos
Gosto muito daquilo que faço, mas confesso que de vez em quando sinto saudades de quando era miúdo e só jogava por diversão— João Afonso
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um miúdo que começou a jogar por influência do primo acaba a ser campeão mundial?
Acho que foi uma combinação de disciplina e oportunidade. Os meus pais foram muito estritos, o que me ensinou a respeitar limites. Mas quando percebi que podia fazer carreira disto, mudou tudo. Passei de jogar por diversão a treinar cinco ou seis horas por dia.
Cinco ou seis horas — é o mesmo que um atleta de futebol profissional treina?
Sim, é muito semelhante. Mas a diferença é que eu também tenho de estudar. No ano passado perdi muitas aulas porque viajei para competições. Deixei duas cadeiras por terminar, mas consegui gerir.
E quando estás numa final, a jogar oito horas seguidas, como é que o corpo aguenta?
É difícil. Não é só estar com um comando na mão. Tens de estar mentalmente focado, analisar o jogo em tempo real, conhecer cada jogador. E às vezes não tens nem tempo para uma pausa. Lembro-me de um torneio em Londres onde comecei às 11 da manhã e só acabei à noite.
Ganhaste 270 mil euros. Isso muda a vida?
Muda, claro. Mas o dinheiro não era o objectivo principal. Sempre quis ser o melhor jogador do mundo, e para isso tinha de ser campeão. Era um sonho e um objectivo que tinha.
Mas há algo que te faz falta — disseste que sentes saudades de quando jogavas só por diversão.
Sim. Quando era miúdo, era apenas diversão. Agora é pressão, é responsabilidade, é treino constante. Às vezes sinto falta dessa leveza. Mas também sei que isto é o que quero fazer.
E Portugal? Não há regulamentação dos Esports ainda.
Exacto. Isso é um problema. A regulamentação seria boa para todos nós — jogadores, equipas, a sustentabilidade da modalidade. O PS apresentou uma proposta, e espero que se concretize.