Israel está perdendo seu único apoio por causa do seu extremismo
Por décadas, o projeto da Grande Israel sustentou-se sobre uma aliança entre ideologia religiosa, argumento de segurança e respaldo americano. O economista Jeffrey Sachs, em entrevista recente, argumenta que esse projeto está em colapso: a resistência regional, o desgaste moral da guerra em Gaza e uma virada histórica na opinião pública dos Estados Unidos estão retirando os pilares que o sustentavam. Para Sachs, o que está em jogo não é apenas uma estratégia geopolítica, mas a própria sobrevivência de Israel como Estado reconhecido no mundo.
- O governo Netanyahu, classificado por Sachs como o mais extremista da história israelense, transformou uma ideologia de décadas em política de Estado — com ministros cujas posições o economista chama abertamente de fascistas.
- A guerra contra o Irã em 2026 expôs a fragilidade do projeto: a ilusão de uma vitória rápida se desfez diante de uma capacidade militar iraniana que forçou Trump a interromper o conflito.
- Em três anos, a opinião pública americana inverteu-se: de apoio a Israel para simpatia ao povo palestino, com reflexos eleitorais concretos em Nova York e crescente isolamento diplomático de Tel Aviv.
- O impasse demográfico é central — 8 milhões de árabes palestinos e 8 milhões de judeus israelenses no mesmo território tornam insustentável qualquer projeto de supremacia unilateral.
- Sachs aponta duas saídas viáveis: um Estado palestino independente nos moldes da ONU ou um Estado binacional democrático — e adverte que a continuidade do caminho atual ameaça a própria existência de Israel.
Jeffrey Sachs, economista e professor americano, declarou em entrevista recente que o projeto da Grande Israel — o controle permanente por Israel de todos os territórios conquistados em 1967, sem espaço para um Estado palestino — está entrando em colapso. Três forças convergem para isso: a resistência regional, a mudança radical na opinião pública americana e o isolamento crescente de Israel no cenário internacional.
Sachs descreve o governo Netanyahu como o mais radical da história israelense. Sob sua liderança, a ideologia da Grande Israel ganhou duas justificativas oficiais: uma de segurança, outra religiosa. Partidos religiosos passaram a exercer influência decisiva sobre as políticas nacionais, e ministros como Smotrich e Ben-Gvir — cujas posições Sachs chama de fascistas — tornaram-se figuras centrais do governo. O economista, ele próprio judeu, vê nessa lógica um supremacismo incompatível com a tradição judaica.
O projeto nunca teria avançado sem o respaldo americano. Desde 1996, Washington apoiou essa estratégia, que inspirou intervenções militares na região, incluindo a invasão do Iraque em 2003. Mas a guerra contra o Irã em 2026 revelou os limites dessa visão: a expectativa de uma vitória rápida fracassou diante da capacidade de dissuasão iraniana, levando Trump a encerrar o conflito.
Mais decisiva ainda foi a transformação da opinião pública nos Estados Unidos. Em apenas três anos, o apoio migrou de Israel para o povo palestino — mudança visível em resultados eleitorais recentes em Nova York. Sachs distingue: os americanos apoiam Israel, mas não apoiam a Grande Israel. O extremismo israelense está corroendo seu único grande suporte internacional.
O nó demográfico é insolúvel dentro da lógica atual: cerca de 8 milhões de árabes palestinos e 8 milhões de judeus israelenses habitam o mesmo território. Governar, expulsar ou eliminar metade dessa população é, para Sachs, um projeto moral e juridicamente insustentável. A saída passa pelo abandono da supremacia territorial — seja por meio de dois Estados independentes, seja por um Estado binacional democrático. O que não é possível, conclui, é a continuidade de um regime de apartheid ou dos assassinatos em Gaza e na Cisjordânia. Israel, adverte Sachs, arrisca sua própria sobrevivência não por pressão externa, mas pelo peso do seu próprio comportamento.
Jeffrey Sachs, economista e professor americano, entrou em um programa de entrevistas convencido de que um projeto que moldou três décadas de política no Oriente Médio está desmoronando. O projeto da chamada Grande Israel — a ideia de que Israel deveria manter sob seu controle todos os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias de 1967, incluindo Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, e nunca permitir um Estado palestino independente — está, na sua avaliação, entrando em colapso. A resistência regional, a mudança radical na opinião pública americana e o isolamento crescente de Israel são as forças que estão derrubando essa visão, segundo ele.
Sachs descreve o governo de Benjamin Netanyahu como o mais radical e extremista que Israel já teve. Netanyahu, diz o economista, vem defendendo esse projeto há três décadas, mas foi apenas sob sua liderança atual que a ideologia se transformou em política de Estado de verdade. A coalizão governamental incorporou duas justificativas centrais para a Grande Israel: uma baseada em argumentos de segurança — a ideia de que Israel só pode estar seguro controlando esses territórios — e outra religiosa, que vê a expansão como vontade divina. Partidos religiosos agora exercem influência enorme sobre as decisões nacionais.
O economista americano, que é judeu, faz críticas contundentes aos ministros israelenses mais radicais, como Smotrich e Ben-Gvir, chamando suas posições de fascistas e repugnantes. Ele argumenta que essa ideologia representa um supremacismo incompatível com a tradição judaica rabínica. A lógica predominante no governo israelense, na sua visão, trata vidas judaicas como superiores às vidas árabes — uma posição que ele considera moralmente inaceitável. O projeto da Grande Israel, porém, nunca teria saído do papel sem o apoio político, diplomático e militar dos Estados Unidos durante décadas. Desde 1996, diz Sachs, o governo americano basicamente apoiou essa estratégia, que inspirou diversas intervenções militares na região, incluindo a invasão do Iraque em 2003 e operações contra a Síria.
Mas algo mudou radicalmente. A guerra iniciada em 2026 contra o Irã expôs os limites do projeto. Israel e os Estados Unidos acreditavam que poderiam derrubar rapidamente o governo iraniano, mas encontraram um país com capacidade militar significativa. Essa ilusão se desfez. O Irã demonstrou capacidade de dissuasão que levou o presidente Donald Trump a interromper o conflito. Sachs concorda com a decisão de encerrar a guerra, embora discorde veementemente da decisão de iniciá-la.
Mais decisivo ainda é o que aconteceu com a opinião pública americana. Em apenas três anos, ela passou do apoio a Israel para o apoio ao povo palestino. A percepção sobre Israel deteriorou-se profundamente, especialmente após a guerra em Gaza. Eleições recentes em Nova York exemplificam essa mudança: candidatos críticos ao governo israelense obtiveram vitórias expressivas. Sachs identifica uma distinção importante nessa transformação: os americanos apoiariam Israel, mas não apoiam a Grande Israel. Israel está perdendo seu único grande apoio internacional por causa do seu extremismo, na sua avaliação.
Quanto aos números que fundamentam essa análise: há aproximadamente 8 milhões de árabes palestinos e 8 milhões de judeus israelenses no território que foi a Palestina britânica. Segundo a ideologia da Grande Israel, esses 8 milhões de judeus governariam os 8 milhões de árabes, ou os expulsariam, ou realizariam limpeza étnica, ou os matariam. Sachs vê isso como um problema demográfico, jurídico e moral insuperável.
O economista defende que o futuro da região exige abandonar definitivamente a lógica da supremacia territorial. Duas alternativas politicamente viáveis existem: a solução tradicional de dois Estados, defendida pela ONU, ou a criação de um Estado binacional democrático onde israelenses e palestinos compartilhem instituições comuns. O que não é possível, na sua visão, é um Estado de apartheid ou a continuidade dos assassinatos irresponsáveis que Israel vem cometendo em Gaza e na Cisjordânia. Ao encerrar a entrevista, Sachs advertiu que Israel corre o risco de comprometer sua própria sobrevivência se continuar seguindo a estratégia atual. Um Estado fora da lei não encontrará apoio em lugar nenhum, e Israel colocará em risco sua própria existência não por causa do resto do mundo, mas por causa do seu próprio comportamento.
Notable Quotes
Como judeu americano, acho as posições de pessoas como Smotrich e Ben-Gvir fascistas, repugnantes e completamente extremistas— Jeffrey Sachs
Os americanos apoiariam Israel, mas não apoiam a Grande Israel— Jeffrey Sachs
The Hearth Conversation Another angle on the story
Quando você diz que o projeto da Grande Israel está em colapso, você quer dizer que ele nunca vai acontecer, ou que as pessoas estão percebendo que não deveria acontecer?
As duas coisas. Politicamente, nunca foi viável manter 8 milhões de palestinos sob domínio israelense sem genocídio ou apartheid. Mas durante décadas, Israel e os Estados Unidos fingiam que era possível. Agora a realidade está batendo na porta.
O que mudou na opinião pública americana em três anos?
Gaza. Quando as pessoas viram o que estava acontecendo lá, a narrativa desabou. Os americanos descobriram que apoiar Israel não significava apoiar a Grande Israel. Eles queriam uma solução justa, não expansão territorial.
Você menciona que Netanyahu defende isso há 30 anos. Por que ele conseguiu transformar ideologia em política de Estado agora?
Porque os partidos religiosos entraram na coalizão com poder real. Antes era uma corrente ideológica marginal. Agora controla ministérios. E Trump deu cobertura internacional que Netanyahu nunca teria tido com outro presidente americano.
A guerra contra o Irã foi um ponto de virada?
Foi o teste final. Israel e os EUA pensavam que era fácil derrotar o Irã rapidamente. Descobriram que não era. Quando a ilusão caiu, Trump parou a guerra. Isso mostrou que nem mesmo os aliados mais próximos acreditam mais nessa estratégia.
Qual é a saída que você vê como realista?
Dois Estados ou um Estado binacional democrático. Qualquer coisa que reconheça que 8 milhões de palestinos têm direitos iguais. O que não funciona é continuar fingindo que é possível manter supremacia territorial indefinidamente.
Israel sobrevive a isso?
Só se mudar de rumo. Um Estado fora da lei não encontra apoio. Israel está colocando em risco sua própria existência não por causa do mundo, mas por causa das suas próprias escolhas.