Jean Wyllys retrata Salvador sombria em novo livro e reflete sobre espaço LGBT+ na literatura

Toda literatura verdadeira é política, mas não precisa ser panfletária
Wyllys defende que sua escrita reflete contradições humanas sem reduzir-se a propaganda ou testemunho.

Ao lançar 'O Anonimato dos Afetos Escondidos', Jean Wyllys oferece Salvador não como cartão-postal, mas como labirinto humano — cidade de contradições habitada por personagens que o mercado e o turismo costumam ignorar. O livro nasce de 25 anos de observação de um forasteiro que aprendeu a cidade por dentro, e chega carregando uma convicção antiga: que a literatura verdadeira é sempre política, mas nunca se reduz a panfleto. Mais do que um retorno à ficção, o lançamento é também um convite para que novas vozes negras e LGBT+ ultrapassem o testemunho e se aventurem a imaginar mundos inteiros.

  • Wyllys chegou a Salvador aos 19 anos sem raízes na cidade, e foi exatamente esse estranhamento que lhe deu olhos para enxergar o que os nativos já não viam.
  • Os contos habitam a margem — delinquentes pobres, corpos periféricos, afetos escondidos — sem abrir mão da humanidade de cada personagem, recusando tanto a romantização quanto o julgamento.
  • A tensão entre sua trajetória política e sua voz literária é real: ex-deputado que deixou o Brasil sob ameaças, ele insiste que escreve literatura, não propaganda, mesmo quando o material é explicitamente político.
  • Para Wyllys, o perigo atual não é a falta de espaço para escritores negros e LGBT+, mas a armadilha do espaço limitado que o mercado oferece — uma caixa confortável que pode sufocar a imaginação.
  • A saída, segundo ele, passa pelo repertório: ler os que vieram antes, não apenas a si mesmo, porque o conhecimento é o que transforma testemunho em literatura capaz de inventar novos mundos.

Jean Wyllys lança neste sábado, 20 de setembro, na livraria Escariz do Shopping Barra, o livro de contos 'O Anonimato dos Afetos Escondidos' — um retrato de Salvador construído ao longo de 25 anos de observação. Wyllys não nasceu na cidade. Chegou aos 19 anos vindo do interior, sem família ou conexões, e foi morar no Beiru antes de trabalhar como repórter de rua. Esse duplo papel de forasteiro e jornalista o treinou para enxergar as camadas sobrepostas da capital baiana com olhos que os nascidos ali já não tinham.

Os contos que resultaram dessa experiência falam de delinquentes pobres e personagens à margem, mas sempre preservando a humanidade de cada um. Para Wyllys, é justamente isso que torna o livro atual: não a política explícita, mas as relações humanas que atravessam civilizações. Ele acredita que as histórias, embora enraizadas em Salvador, ressoarão em Buenos Aires, Lima ou Barcelona — porque as metrópoles repetem estruturas que a ficção sabe capturar.

Há uma tensão deliberada em como ele fala sobre política e literatura. Ex-deputado federal por dois mandatos, Wyllys deixou o Brasil após ameaças graves e construiu uma vida pública marcada por posicionamentos claros. Ainda assim, insiste: toda literatura verdadeira é política, mas política não é panfleto. Seu livro não foi escrito para agradar minorias nem para servir de propaganda — foi escrito a partir do que ele viu e viveu, e essas histórias incluem corpos negros, LGBT+ e periféricos porque eram as histórias que estavam diante dele.

Ao falar sobre o momento atual da literatura brasileira, Wyllys reconhece o crescimento do espaço para vozes negras e LGBT+, mas alerta para um risco: o de se contentar com a caixa que o mercado editorial oferece. A literatura de testemunho tem valor, mas não basta elaborar traumas — é preciso imaginar mundos. E para isso, diz ele, é necessário repertório: ler não apenas a si mesmo, mas também quem ajudou a sedimentar a história. O conhecimento liberta, e essa libertação começa pela leitura.

Jean Wyllys está lançando um livro de contos que vê Salvador de forma radicalmente diferente daquela que os turistas e os nascidos na cidade conhecem. Chamado "O Anonimato dos Afetos Escondidos", o livro chega às prateleiras neste sábado, 20 de setembro, na livraria Escariz, do Shopping Barra, e marca um retorno do jornalista e ex-deputado à ficção com uma perspectiva que ele construiu ao longo de 25 anos observando a capital baiana.

Wyllys não nasceu em Salvador. Chegou aos 19 anos, vindo do interior, sem família ou conexões que o ancorassem. Morou no Beiru, na região do Tancredo Neves, e depois trabalhou como repórter de cidade — uma posição que o obrigou a penetrar as camadas sobrepostas que cobrem Salvador, a ver o que parecia comum para outros mas lhe parecia questionável. Essa experiência de estrangeiro na própria cidade alimentou o desejo de retratar suas contradições através de histórias de pessoas que realmente a habitam. Os contos falam de delinquentes pobres, de personagens controvertidos, mas sempre com a humanidade intacta. Para Wyllys, isso é o que torna o livro atual: não a política explícita, mas as relações humanas que ecoam através da história da civilização.

O que Wyllys enfatiza é que esses contos, embora ambientados em Salvador, possuem alcance universal. Uma pessoa em Montevidéu, Buenos Aires, Lima ou Barcelona conseguirá se identificar com as histórias porque as metrópoles urbanas repetem estruturas que os contos capturam muito bem. A especificidade do lugar não limita o significado; amplia-o.

Mas há uma tensão importante em como Wyllys fala sobre política e literatura. Ele foi deputado federal por dois mandatos, entre 2011 e 2019, e deixou o Brasil após sofrer ameaças graves. Sua vida pública foi marcada por posicionamentos políticos claros. Ainda assim, quando fala sobre seu novo livro, ele insiste que sua escrita é, antes de tudo, literária. E aqui está o ponto que ele quer deixar claro: toda literatura verdadeira é política, mas política não significa panfletária. Seu livro não é um panfleto. Não existe nele a intenção de agradar minorias ou servir como propaganda. O que existe é a observação de histórias que ele viveu e experimentou — histórias que refletem corpos negros, LGBT+, periféricos, oprimidos, mas que aparecem porque essas são as histórias que ele viu, não porque ele esteja necessariamente se posicionando a favor delas, ainda que se posicione.

Wyllys defende que a ficção permite tudo. Nela, ele pode contar histórias com minorias e maiorias, ricos e pobres, mulheres vítimas de misoginia, as contradições humanas em sua totalidade. Ele não gosta de literatura panfletária. Ela não o agrada.

Quando a conversa se volta para o espaço atual de escritores negros e LGBT+ na literatura brasileira, Wyllys reconhece que há cada vez mais espaço para essas vozes. Mas ele também acredita que essas vozes novas precisam trazer algo novo. Não basta a literatura de testemunho, aquela que apenas elabora traumas pessoais. A literatura precisa imaginar mundos. E essas vozes não devem se contentar com a caixa que o mercado editorial oferece, com o lugar que querem que elas ocupem. Para isso, é necessário repertório. As pessoas precisam ler não apenas a si mesmas, mas também quem escreveu antes, quem ajudou a sedimentar a história. O conhecimento liberta, e essa libertação passa pela leitura.

É o meu olhar sobre uma cidade à qual eu não pertencia. Eu não nasci em Salvador, eu cheguei em Salvador como imigrante, do interior.
— Jean Wyllys
Toda literatura de verdade é política, né? E quando eu digo política, não tem que ser panfletária.
— Jean Wyllys
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Você passou 25 anos em Salvador como uma espécie de observador de fora. Como isso muda a forma como você escreve sobre a cidade?

Model

Quando você chega a um lugar aos 19 anos sem ninguém, sem raízes, você vê as coisas que os nascidos ali deixam passar. Você questiona o que é normal. Morar no Beiru, trabalhar como repórter de cidade — isso te força a penetrar as camadas. Você vê as contradições que precisam ser mostradas.

Inventor

Mas seus contos falam de delinquentes, de personagens controvertidos. Por que não simplificar, tornar as histórias mais claras politicamente?

Model

Porque a vida não é clara. Os delinquentes pobres têm humanidade. Se eu escrevo apenas para agradar, para fazer propaganda, deixo de ser escritor. Deixo de contar histórias verdadeiras.

Inventor

Você foi deputado, se posicionou politicamente. Como reconcilia isso com a ideia de que sua escrita não é panfletária?

Model

Política e panfleto são coisas diferentes. Toda literatura verdadeira é política porque reflete o mundo em que vivemos. Mas política não significa dizer o que as pessoas querem ouvir. Significa contar as contradições humanas como elas são.

Inventor

E para os novos escritores negros e LGBT+? O que você diria a eles?

Model

Que há espaço, sim, mas que não devem se contentar com ele. Não basta testemunho. Precisam imaginar mundos novos. E precisam ler — não apenas a si mesmos, mas quem veio antes. O conhecimento liberta.

Inventor

Você acha que Salvador é um personagem tão importante quanto as pessoas que vivem nela?

Model

Salvador é um personagem, mas através das pessoas. A cidade só existe nas histórias de quem a habita. E essas histórias, mesmo que sejam de Salvador, falam de qualquer metrópole urbana. Elas são universais.

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