Itaú aumenta exigência de presencial e sindicato reforça defesa do home office

Potencial impacto na qualidade de vida de milhares de bancários do Itaú com aumento significativo de deslocamentos e redução da flexibilidade de trabalho.
Os avanços tecnológicos não podem servir apenas ao lucro das empresas
O sindicato argumenta que os ganhos da tecnologia devem beneficiar os trabalhadores, não apenas as corporações.

Em um momento em que o trabalho remoto havia se tornado não apenas prática, mas conquista, o Itaú Unibanco anuncia um recuo significativo: a partir de 2027, seus funcionários deverão retornar ao escritório três ou quatro vezes por semana, desfazendo um equilíbrio construído ao longo de quase uma década. O Sindicato dos Bancários, que vê no home office uma forma concreta de distribuir os frutos da tecnologia entre quem a opera, promete resistência e negociação. O que se desenha não é apenas uma disputa sobre dias de presença, mas uma pergunta mais antiga sobre quem deve se beneficiar do progresso.

  • Após oito anos com apenas oito dias presenciais por mês, o Itaú exigirá três a quatro dias semanais — uma mudança que afeta o cotidiano de dezenas de milhares de bancários.
  • Superintendentes serão os primeiros impactados, já em janeiro de 2027, seguidos pelo restante do quadro funcional no primeiro trimestre de 2028.
  • O sindicato reagiu no mesmo dia do anúncio, com sua diretora Valeska Pincovai declarando oposição clara e articulando o debate em torno da distribuição dos ganhos tecnológicos.
  • Pesquisas citadas pela entidade apontam que o home office reduz estresse, aproxima famílias e aumenta produtividade — argumentos que chegam à mesa de negociação junto com uma pauta formal na próxima quinta-feira.
  • O banco ainda não tornou públicas suas razões, mas o resultado dessa negociação pode estabelecer precedente para todo o setor financeiro brasileiro.

Na manhã de uma terça-feira, o Itaú Unibanco comunicou ao seu sindicato uma mudança que poucos esperavam nessa escala: o modelo híbrido que vigorava há quase uma década — com apenas oito dias presenciais por mês — será substituído por uma exigência de três a quatro dias semanais no escritório. A transição ocorrerá em duas etapas: superintendentes a partir de janeiro de 2027, e os demais funcionários ao longo do primeiro trimestre de 2028.

O que estava em jogo não era apenas uma política interna. Para milhares de bancários, o trabalho remoto havia deixado de ser exceção para se tornar parte estrutural de suas vidas — menos tempo no trânsito, mais presença em casa, maior controle sobre a própria rotina. Reverter esse arranjo significa, na prática, devolver horas ao deslocamento e reduzir uma autonomia conquistada ao longo de anos.

O Sindicato dos Bancários não tardou a se posicionar. Valeska Pincovai, diretora da entidade e coordenadora da Comissão de Organização dos Empregados do Itaú, manifestou oposição clara ainda no dia do anúncio. O argumento central da entidade vai além do conforto individual: os avanços tecnológicos que tornaram o home office possível deveriam beneficiar os trabalhadores, não apenas ampliar os lucros das empresas. Pesquisas citadas pelo sindicato reforçam que a satisfação gerada pelo trabalho remoto se converte em produtividade real.

Na quinta-feira seguinte ao anúncio, o sindicato apresentará formalmente sua pauta de reivindicações ao banco — e usará o mesmo encontro para discutir diretamente a mudança de regime. O Itaú ainda não explicou publicamente suas razões. O que acontecer nessa negociação poderá definir não apenas o futuro dos bancários do Itaú, mas o tom do debate sobre o trabalho híbrido em todo o setor financeiro.

O Itaú Unibanco comunicou ao seu sindicato na manhã de terça-feira uma mudança substancial na forma como seus funcionários trabalharão. Depois de oito anos operando sob um modelo híbrido que exigia apenas oito dias de presença física por mês, o banco vai intensificar essa exigência de forma significativa e em duas etapas. A partir de janeiro de 2027, os superintendentes precisarão estar no escritório quatro dias por semana. Alguns meses depois, no primeiro trimestre de 2028, o restante do quadro funcional — analistas, gerentes e demais posições — terá de cumprir três dias semanais de presencial.

A mudança representa uma reversão considerável de uma política que havia se consolidado ao longo de quase uma década. O que começou como flexibilidade durante a pandemia se transformou em um arranjo mais permanente, permitindo que dezenas de milhares de bancários dividissem seu tempo entre casa e escritório. Agora, esse equilíbrio será desfeito, com a empresa exigindo presença física em mais de metade dos dias úteis da semana para a maioria dos trabalhadores.

O Sindicato dos Bancários reagiu rapidamente. Valeska Pincovai, diretora da entidade e coordenadora da Comissão de Organização dos Empregados do Itaú, deixou clara a posição contrária à medida ainda no mesmo dia do anúncio. O sindicato já havia aprovado uma pauta de reivindicações em seu Encontro Nacional dos Trabalhadores e planeja apresentá-la formalmente ao banco na quinta-feira seguinte, usando a mesma oportunidade para discutir especificamente essa mudança de regime.

O argumento central do sindicato situa-se em uma questão mais ampla sobre como os ganhos da tecnologia devem ser distribuídos na sociedade. Segundo Pincovai, os avanços tecnológicos não deveriam servir apenas para aumentar os lucros das empresas, mas deveriam beneficiar os trabalhadores também. O trabalho remoto, viabilizado justamente por essas inovações tecnológicas, seria um exemplo concreto dessa distribuição de benefícios. A entidade aponta para pesquisas que demonstram que o home office melhora a qualidade de vida dos trabalhadores em diversos aspectos — menos tempo em deslocamentos, mais tempo com família, redução do estresse — e que essa satisfação se traduz em maior produtividade para as empresas.

O que está em jogo é tanto a vida cotidiana de milhares de pessoas quanto uma visão sobre qual deve ser o papel das empresas em relação ao bem-estar de seus funcionários. Para os bancários do Itaú, a mudança significa mais horas gastas em transporte, menos flexibilidade para organizar suas vidas pessoais, e uma redução na autonomia que conquistaram ao longo dos últimos anos. Para o banco, a decisão reflete uma aposta de que a presença física é necessária para a colaboração, a cultura corporativa ou simplesmente para manter o controle sobre o trabalho realizado.

A negociação que se aproxima será o primeiro teste dessa tensão. O sindicato chegará à mesa com argumentos baseados em pesquisa e em uma visão de que a tecnologia deveria libertar os trabalhadores, não apenas enriquecer as empresas. O banco chegará com suas próprias razões para a mudança — razões que ainda não foram públicas. O que acontecer nas próximas semanas pode estabelecer um precedente não apenas para o Itaú, mas para outras instituições financeiras que enfrentam decisões semelhantes sobre o futuro do trabalho.

O Sindicato defende que é preciso distribuir os ganhos da tecnologia para todos. Os avanços tecnológicos não podem ser usados apenas a serviço do lucro das empresas, mas devem ser usufruídos por toda a sociedade.
— Valeska Pincovai, diretora do Sindicato dos Bancários
Estudos comprovam que o home office melhora a qualidade de vida do trabalhador em diversos aspectos e ainda promove ganhos para a empresa, porque trabalhadores satisfeitos produzem mais e melhor.
— Valeska Pincovai
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o sindicato vê o home office como uma questão de distribuição de ganhos tecnológicos e não apenas como um benefício trabalhista?

Model

Porque a tecnologia que permite trabalhar de casa não foi criada pelos trabalhadores — foi desenvolvida por empresas e pesquisadores. Quando essa tecnologia gera lucro apenas para a empresa, enquanto o trabalhador volta a gastar duas horas por dia em transporte, há uma injustiça. O sindicato está dizendo: se a tecnologia existe, por que não usá-la para melhorar a vida de quem trabalha?

Inventor

O banco provavelmente dirá que precisa de presença para colaboração e cultura. Como o sindicato responderia a isso?

Model

Responderia que oito anos de trabalho híbrido já provaram que colaboração é possível. A cultura corporativa não desaparece porque as pessoas trabalham de casa três dias por semana. E há uma questão implícita: a quem serve essa exigência de presença? Ao trabalhador ou à empresa?

Inventor

Qual é o impacto real na vida de um bancário comum?

Model

Imagine sair de casa às 6 da manhã e voltar às 7 da noite, três dias por semana. Isso são seis horas por semana apenas em deslocamento. Multiplicado por 52 semanas, são mais de 300 horas por ano — quase dois meses de trabalho — gastos apenas em ir e vir. Sem contar o custo com transporte, o cansaço, o tempo longe da família.

Inventor

Por que o Itaú está fazendo isso agora, depois de oito anos?

Model

Não sabemos ainda. Pode ser pressão de acionistas que querem ver escritórios cheios. Pode ser uma mudança de liderança com uma visão diferente. Pode ser que o banco acredite que a produtividade caiu. Mas o sindicato não vai aceitar explicações vagas — vai exigir dados, justificativas concretas.

Inventor

Essa negociação pode resultar em greve?

Model

É cedo para dizer. O sindicato está entrando na conversa com uma pauta aprovada por seus membros, o que significa que tem legitimidade para negociar duro. Se o banco não ceder em nada, sim, a possibilidade de ação mais forte aumenta. Mas primeiro vem a conversa.

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