O banco criou uma transição gradual, mas o sindicato não foi consultado
O Itaú Unibanco anuncia uma virada gradual, mas inequívoca, em direção ao escritório: até 2028, o trabalho semi-presencial deixará de ser uma concessão generosa para se tornar uma obrigação estruturada em três dias semanais. A decisão reflete um movimento mais amplo do setor bancário brasileiro, que, passada a urgência pandêmica, recalibra sua relação com o espaço físico e com o que entende por presença e pertencimento corporativo. Entre a lógica da instituição e as rotinas já construídas por seus funcionários, abre-se uma tensão que o sindicato, surpreendido, tenta agora nomear e negociar.
- O Itaú dobra a exigência de presença física: funcionários semi-presenciais passarão de oito dias mensais para três dias por semana no escritório a partir de 2028.
- Superintendentes enfrentam a mudança antes dos demais — quatro dias presenciais já em janeiro de 2027, sem que o sindicato tenha sido consultado previamente.
- O Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco reagiu com surpresa e alerta: os escritórios do banco podem não ter espaço físico suficiente para absorver o retorno em massa dos trabalhadores.
- O movimento não é isolado — Nubank e Bradesco também recuam na flexibilidade pós-pandemia, sinalizando uma reversão setorial coordenada.
- O histórico pesa: cerca de mil funcionários em regime híbrido ou remoto foram demitidos pelo Itaú no ano anterior, tornando a nova política menos uma surpresa e mais uma confirmação de rumo.
O Itaú anunciou que, a partir de 2028, funcionários em regime semi-presencial deverão comparecer ao escritório três dias por semana — um aumento expressivo em relação aos oito dias mensais exigidos atualmente. A transição será escalonada: os superintendentes já sentirão a mudança em janeiro de 2027, quando passarão a trabalhar quatro dias presenciais semanais, igualando-se à rotina dos diretores.
O banco enquadra a decisão como uma adaptação planejada, desenhada para que colaboradores e famílias reorganizem suas rotinas sem sobressaltos. A escolha do termo é significativa — admite que há impacto real, mas sinaliza que a direção está traçada.
O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região não foi consultado antes do anúncio e pediu uma reunião para discutir os efeitos práticos. Uma preocupação concreta já emergiu: há relatos de que os escritórios do banco não comportam fisicamente todos os trabalhadores em retorno simultâneo. A entidade prometeu acompanhar de perto a implementação.
O Itaú não caminha sozinho. Nubank e Bradesco também anunciaram recentemente o endurecimento de suas políticas de presença, compondo um recuo setorial da flexibilidade conquistada durante a pandemia. O contexto interno do banco torna o cenário ainda mais carregado: no ano anterior, cerca de mil funcionários em regime híbrido ou remoto foram demitidos após uma revisão de condutas ligadas ao trabalho fora do escritório — um sinal precoce de que a tolerância institucional com a distância tinha prazo de validade.
O Itaú está fechando o cerco sobre o trabalho remoto. A partir de 2028, qualquer funcionário em regime semi-presencial terá de estar no escritório três dias por semana — um salto considerável em relação aos oito dias mensais que a política atual exige. Para os superintendentes, a mudança chega mais cedo: em janeiro de 2027, eles passarão a trabalhar quatro dias por semana no escritório, alinhando-se à rotina que os diretores já seguem.
O banco apresenta a decisão como uma transição cuidadosa. Em comunicado, o Itaú afirmou que criou essa progressão justamente para permitir que seus colaboradores e suas famílias se adaptem às novas rotinas "sem sobressaltos". A palavra escolhida é reveladora — reconhece que há fricção, mas a empresa segue em frente mesmo assim.
O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região não foi avisado com antecedência. A entidade se disse surpreendida pela mudança e pediu uma reunião para discutir os efeitos práticos da decisão. Há um problema concreto que o sindicato já identificou: relatos indicam que os escritórios do banco não têm espaço físico suficiente para acomodar todos os trabalhadores se eles retornarem em massa. O sindicato disse que vai acompanhar de perto como essa implementação vai funcionar na prática.
O Itaú não está sozinho nessa direção. Em novembro, o Nubank anunciou que seus funcionários precisarão estar no escritório pelo menos dois dias por semana a partir do segundo semestre de 2026. O Bradesco foi mais radical: decidiu encerrar completamente o home office para quase 900 funcionários a partir de janeiro. A indústria bancária, em bloco, está revertendo a flexibilidade que ofereceu durante a pandemia.
O histórico do Itaú com essa questão é tenso. No ano anterior, o banco demitiu cerca de mil funcionários que trabalhavam em regime híbrido ou remoto. Na época, a empresa justificou a ação dizendo que havia feito uma revisão de condutas relacionadas ao trabalho remoto e ao registro de jornada. Aqueles demitidos foram os primeiros sinais de que a paciência do banco com o trabalho fora do escritório tinha limite. Agora, com essa nova política, fica claro onde esse limite está.
Citas Notables
O banco afirmou que quer dar tempo para que pessoas e equipes adaptem suas rotinas pessoais e familiares sem sobressaltos— Itaú, em comunicado
O sindicato foi surpreendido e afirmou que não houve negociação prévia— Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um banco grande como o Itaú está insistindo em trazer as pessoas de volta ao escritório agora, em 2026?
A pressão vem de vários lados. Há uma questão de controle — é mais fácil supervisionar o trabalho quando as pessoas estão no mesmo espaço. Mas também há uma mudança cultural na indústria. Os bancos estão competindo por talento, e alguns acreditam que presença física fortalece a cultura corporativa.
O sindicato disse que não foi consultado. Isso é comum?
Não deveria ser. Mas em grandes corporações, essas decisões muitas vezes vêm de cima para baixo. O sindicato está reclamando porque não teve voz no processo, e porque tem informações que o banco talvez não tenha considerado — como a falta de espaço nos escritórios.
Falta de espaço? Como assim?
Se você tem mil pessoas trabalhando remotamente e de repente quer que 300 delas venham três dias por semana, você precisa de mesas, cadeiras, salas de reunião. Os relatos sugerem que o Itaú não planejou isso direito.
E aqueles mil funcionários que foram demitidos no ano passado?
Foram um aviso. O banco estava testando a água, vendo quem resistia à mudança. Agora está implementando a política de forma mais sistemática.
Isso vai funcionar?
Depende do que você quer dizer por funcionar. Se o objetivo é trazer as pessoas de volta, sim, provavelmente vai. Se o objetivo é melhorar a produtividade ou a satisfação dos funcionários, aí é mais incerto.