Irã transforma funeral de Khamenei em demonstração de poder regional

Khamenei e vários membros de sua família, incluindo filha e dois netos, foram mortos no ataque aéreo de 28 de fevereiro; bombardeios intensos destruíram setores industriais-chave e custaram milhares de empregos.
Duas grandes potências atacaram o Irã e ainda assim permanece de pé
Como apoiadores do regime interpretam a resiliência iraniana após os bombardeios de fevereiro.

Khamenei liderou o Irã por 37 anos com forte microgestão, enfrentando crescente descontentamento público e sucessivas ondas de protesto reprimidas com força. O funeral ocorre após cessar-fogo frágil entre Washington e Teerã, com enterro previsto em Mashhad e cortejo passando por cidades sagradas no Iraque.

  • Ali Khamenei liderou o Irã por 37 anos, morrendo aos 86 anos em 28 de fevereiro de 2026
  • Sua filha e dois netos também foram mortos no ataque aéreo americano e israelense
  • Funeral de seis dias com enterro em Mashhad em 9 de julho, cortejo passando por cidades sagradas no Iraque
  • Sucessivas ondas de protesto (2009, 2022, 2025-2026) foram todas reprimidas com força
  • Bombardeios destruíram setores de petroquímica e siderurgia, custando milhares de empregos

O Irã realiza funeral de seis dias do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataque aéreo dos EUA e Israel, como mobilização nacional para reforçar coesão política e projetar influência regional.

O Irã preparava-se para uma cerimônia de seis dias que seria menos um ato de luto privado e mais uma demonstração de força política. Ali Khamenei, que havia governado o país com mão firme durante 37 anos, morreu em 28 de fevereiro quando mísseis americanos e israelenses atingiram seu complexo residencial e de trabalho. Sua filha e dois netos também pereceram no bombardeio. As imagens de satélite revelavam destruição significativa no local, embora permanecesse incerto se os corpos haviam sido recuperados e em que condições. O ataque abriu uma guerra que consumiria a região nos meses seguintes.

As autoridades iranianas só anunciaram as cerimônias fúnebres após um cessar-fogo frágil entre Washington e Teerã entrar em vigor. Ali-Akbar Purdjamschidian, chefe do comitê organizador, descreveu o evento como uma oportunidade para "reforçar a coesão nacional e a unidade" entre diferentes grupos políticos, sociais e religiosos. Em um país de cerca de 93 milhões de habitantes, o regime mobilizava apoiadores para participar. A partir de sábado, três dias oficiais de luto paralisariam Teerã, com empresas fechadas e atividades suspensas. Khamenei seria enterrado em 9 de julho em Mashhad, sua cidade natal no nordeste, precedido por um cortejo fúnebre que passaria pelo Iraque, incluindo as cidades sagradas de Najaf e Karbala — um movimento amplamente interpretado como tentativa de projetar influência regional iraniana.

O legado de Khamenei permanecia sob escrutínio. Durante seu longo governo, as tensões externas se intensificaram enquanto corrupção, má gestão econômica e sanções nucleares pressionavam o país. Mehrzad Boroujerdi, professor de ciência política da Universidade de Ciência e Tecnologia de Missouri, observou que diferentemente de Ruhollah Khomeini, que governou por uma década após a Revolução de 1979, Khamenei havia liderado com "forte microgestão, intervindo em quase todas as áreas de governo". O descontentamento público cresceu de forma constante, culminando em sucessivas ondas de protesto: o movimento verde de 2009, os protestos "Mulher, Vida, Liberdade" em 2022 e manifestações nacionais no final de 2025 e início de 2026. Todas foram reprimidas com uso da força. "A abordagem de Khamenei era não fazer concessões a seus opositores", afirmou Boroujerdi, "o que contribuiu para ampliar a distância entre a sociedade e o sistema político."

Uma ativista pelos direitos das mulheres em Teerã, que pediu anonimato, reconheceu que muitos manifestantes ainda tinham dificuldade em aceitar que a República Islâmica tivesse prevalecido. "Ao mesmo tempo, seus apoiadores ganharam novo impulso," disse ela. A guerra também reforçou entre muitos iranianos a percepção de que não podiam contar com ajuda externa. Os bombardeios intensos em cidades densamente povoadas e a destruição de setores industriais-chave — petroquímica e siderurgia — custaram milhares de empregos, aprofundando o descontentamento especialmente entre os mais jovens.

Para muitos apoiadores do regime, participar do funeral transcendia o luto. "Duas grandes potências militares atacaram o Irã e, ainda assim, a República Islâmica permanece de pé," observou Boroujerdi. "Para muitos, isso é prova de resiliência." A inclusão da chamada frente do Líbano como primeiro ponto no memorando de negociações recente do Irã com os Estados Unidos ressaltava a continuidade da abordagem de política externa de Khamenei. Hamidreza Azizi, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, apontou que o Hezbollah havia se aproximado ainda mais do Irã e da Força Quds, dependendo cada vez mais de Teerã tanto política quanto militarmente.

Ainda havia divisões dentro da liderança iraniana, especialmente na Guarda Revolucionária, sobre possíveis negociações com Washington. O desfecho das conversas permanecia incerto. Mesmo uma implementação parcial do acordo de 14 pontos discutidos com os Estados Unidos representaria um avanço significativo para o lado iraniano — concessões comparáveis não haviam sido obtidas após a Guerra Irã-Iraque nem no acordo nuclear de 2015. Entre as principais exigências do Irã estava um compromisso dos Estados Unidos de não interferir em seus assuntos internos, algo que Washington nunca havia aceitado antes, mas que agora integrava o memorando acordado. O funeral, portanto, não era apenas cerimônia de despedida, mas também palco para reafirmar a continuidade de uma visão política que enfrentava pressões internas e externas simultaneamente.

Khamenei liderou o país por 37 anos com forte microgestão, intervindo em quase todas as áreas de governo
— Mehrzad Boroujerdi, professor de ciência política
A abordagem de Khamenei era não fazer concessões a seus opositores, o que contribuiu para ampliar a distância entre a sociedade e o sistema político
— Mehrzad Boroujerdi
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o Irã insistiu em fazer deste funeral uma demonstração de poder regional, especialmente com o país ainda em guerra?

Model

Porque o funeral é o momento em que o regime pode reunir seus apoiadores e mostrar que, apesar dos ataques devastadores, a estrutura política permanece intacta. É uma forma de dizer: "Vocês não nos derrubaram."

Inventor

E quanto aos iranianos que protestaram contra Khamenei? Como eles veem essa mobilização nacional?

Model

Há uma tensão real. Muitos ainda estão processando que o regime sobreviveu. Alguns veem o funeral como prova de resiliência; outros veem como mais uma tentativa de controlar a narrativa. Uma ativista disse que seus apoiadores ganharam novo impulso — o que sugere que a guerra, paradoxalmente, consolidou o apoio ao regime entre certos grupos.

Inventor

A morte de Khamenei muda algo nas negociações com os Estados Unidos?

Model

Não necessariamente. O que é notável é que o Irã está pedindo coisas agora que nunca havia conseguido antes — como um compromisso americano de não interferência. Isso sugere que, mesmo com a morte de Khamenei, a política externa iraniana mantém sua continuidade e talvez até ganhe margem de manobra.

Inventor

Há consenso dentro do governo sobre como proceder?

Model

Não. A Guarda Revolucionária está dividida sobre as negociações. Alguns querem aproveitar o momento para fazer acordos; outros desconfiam. O funeral, nesse sentido, também é uma tentativa de unificar essas vozes discordantes.

Inventor

E os jovens iranianos que perderam empregos com a destruição industrial?

Model

Eles estão mais descontentes do que nunca. A guerra destruiu setores-chave e custou milhares de postos de trabalho. Para eles, o funeral é apenas mais uma cerimônia enquanto suas vidas ficam mais difíceis. É a contradição que o regime tenta resolver com essa mobilização nacional.

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