A inflação não apenas permanece acima do teto. Ela voltou a ganhar altura.
Em maio de 2026, a inflação brasileira cruzou o teto da meta oficial ao acumular 4,72% em doze meses, revelando que o esforço de contenção ainda não encontrou terreno firme. O resultado mensal de 0,58% — puxado por alimentos, energia e habitação — chegou acima do esperado, mas sinais de desaceleração nos serviços e queda nos combustíveis impediram um veredicto unânime. Com o Copom reunido em 16 e 17 de junho, o Banco Central se vê diante de uma encruzilhada clássica: honrar a sinalização de corte ou reconhecer que a inflação ainda não pede clemência.
- A inflação acumulada em 12 meses saltou para 4,72%, ultrapassando o teto de 4,5% da meta e reacendendo a pressão sobre o Banco Central às vésperas de uma decisão crucial sobre os juros.
- Batata-inglesa a quase 45%, tomate a mais de 20% e energia elétrica residencial subindo 3,67% compõem um cardápio de pressões que o consumidor já sente no bolso.
- A desaceleração nos núcleos de serviços — de 0,50% em abril para 0,45% em maio — oferece o único alívio concreto para quem defende mais um corte da Selic para 14,25%.
- O mercado se divide: uma ala vê espaço para corte com base nos núcleos e na queda dos combustíveis; outra alerta que os 4,72% acumulados e a incerteza fiscal tornam qualquer movimento precipitado arriscado.
- Negociações EUA-Irã derrubaram o petróleo Brent e podem aliviar pressões futuras, mas analistas advertem que esse alívio externo não resolve as pressões domésticas já embutidas nos preços.
A inflação brasileira encerrou maio acima do teto da meta, com o IPCA acumulando 4,72% em doze meses — alta de 0,39 ponto percentual em relação a abril. O resultado mensal de 0,58% superou as projeções do mercado e chegou a público na véspera da reunião do Copom marcada para 16 e 17 de junho, quando o Banco Central decidirá o destino da Selic, hoje em 14,5%.
O avanço foi liderado por alimentos e bebidas, que subiram 1,33%, com destaque para batata-inglesa, tomate e cebola. Habitação também pesou, impulsionada pela bandeira tarifária amarela e pelo reajuste da energia elétrica residencial, que subiu 3,67%. Do lado positivo, gasolina e etanol recuaram, e o grupo de transportes fechou em queda. Mais relevante para o BC foi a desaceleração nos serviços: a média dos principais núcleos caiu de 0,50% para 0,45%, sugerindo que as pressões em setores intensivos em mão de obra podem estar arrefecendo.
Essa leitura ambígua dividiu economistas. Nomes como Helena Veronese, da B.Side, e Carlos Thadeu, da BGC Liquidez, argumentam que a desaceleração nos núcleos justifica um corte adicional de 0,25 ponto percentual. Já Olívia Flôres de Brás, da Magno Investimentos, e Leonardo Costa, do ASA, alertam que os 4,72% acumulados e a incerteza fiscal doméstica não oferecem conforto suficiente para avançar, defendendo o encerramento do ciclo de cortes.
No cenário externo, negociações entre Estados Unidos e Irã derrubaram o preço do petróleo Brent, o que pode aliviar o câmbio e a inflação nos próximos meses. Analistas, porém, ressaltam que esse fator mitiga riscos futuros sem resolver as pressões já incorporadas nos preços domésticos. Nas apostas do mercado na B3, a probabilidade de manutenção dos juros recuou levemente para 67,3%, enquanto a de corte subiu para 31,36% — um placar ainda incerto para uma decisão que se aproxima.
A inflação brasileira ultrapassou o teto da meta em maio, acumulando 4,72% nos últimos doze meses — um salto de 0,39 ponto percentual em relação a abril. O dado mensal do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo chegou a 0,58%, surpreendendo para cima as projeções do mercado, que esperavam entre 0,52% e 0,55%. A notícia, divulgada na sexta-feira 12 de junho, reacendeu o debate sobre o próximo movimento da taxa Selic, atualmente em 14,5%, em uma reunião do Copom marcada para 16 e 17 de junho.
O motor da inflação em maio foi claramente visível nas compras do dia a dia. Alimentos e bebidas saltaram 1,33%, respondendo por quase metade do avanço mensal. Batata-inglesa disparou 44,69%, tomate subiu 20,62%, cebola avançou 16,80%, enquanto carnes, leite e arroz também pressionaram para cima. Esses movimentos refletem problemas de oferta causados por fatores climáticos e custos logísticos elevados. Habitação foi o segundo grande vilão, com avanço de 1,22%, impulsionado pela ativação da bandeira tarifária amarela pela Aneel e reajustes em diversas capitais. A energia elétrica residencial subiu 3,67%, o maior impacto individual do mês.
Mas nem tudo foi desconfortável. Os combustíveis recuaram — gasolina caiu 1,46% e etanol 6,20% — oferecendo alívio no grupo Transportes, que registrou queda de 0,46%. Mais importante ainda para o Banco Central foi o comportamento dos serviços. Após meses de resistência alimentada por um mercado de trabalho aquecido, o setor terciário começou a desacelerar. A média dos cinco principais núcleos de inflação caiu de 0,50% em abril para 0,45% em maio, sugerindo que as pressões inflacionárias podem estar perdendo força em setores intensivos em mão de obra.
Essa leitura mista dividiu o mercado. Para uma ala de economistas, a desaceleração nos núcleos abre espaço para o Banco Central cumprir a sinalização dada na última reunião e fazer mais um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,25%. Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, e Julio Barros, do Daycoval, argumentam que o dado não altera o cenário de redução de juros. Carlos Thadeu, economista de inflação da BGC Liquidez, afirma que a leitura para o Banco Central deveria ser benigna, abrindo espaço para mais um corte. Até mesmo a XP, que projeta uma Selic um pouco mais alta ao final do ano, vê espaço para dois cortes adicionais de 0,25 ponto percentual.
Mas há quem veja risco em prosseguir. Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, alertou que o dado mais relevante não está no resultado mensal, mas nos 4,72% acumulados em doze meses. A inflação não apenas permanece acima do teto — ela voltou a ganhar altura. Para ela, a inflação de hoje não entrega conforto suficiente para decisões precipitadas, especialmente considerando os impactos da incerteza fiscal em Brasília, onde políticas de estímulo ao crédito pressionam a alta dos preços. Leonardo Costa, do ASA, e Carlos Lopes, do BV, reforçam essa tese, argumentando que o cenário segue preocupante e que o Banco Central deveria encerrar o ciclo de corte de juros na próxima reunião.
Um fator externo também entra na equação. Negociações entre Estados Unidos e Irã, impulsionadas por sinalizações atribuídas a Donald Trump, já levaram a quedas robustas no preço do barril de petróleo Brent. Se a reabertura do Estreito de Ormuz se confirmar, o alívio no petróleo pode se estender, contribuindo para descomprimir o câmbio e a inflação nos próximos meses, abrindo espaço para mais cortes na Selic. Porém, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, vê essa queda mais como um mitigador de risco inflacionário futuro do que como solução para as pressões domésticas já incorporadas em serviços, alimentação e núcleos.
Antes da divulgação do IPCA, as apostas do mercado nas Opções Copom na B3 estavam caindo levemente para a manutenção dos juros, de 70% para 67,3%, enquanto as apostas em corte subiam de 29,5% para 31,36%. Resta saber qual peso o Banco Central dará a cada uma dessas forças na sua próxima deliberação.
Citas Notables
O dado mais relevante não está no resultado mensal. Está nos 4,72% acumulados em doze meses. A inflação não apenas permanece acima do teto da meta. Ela voltou a ganhar altura.— Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos
Os grupos mais relevantes para a análise do núcleo vieram em linha com o esperado e apresentaram bom comportamento. A leitura para o Banco Central deveria ser benigna.— Carlos Thadeu, economista de inflação da BGC Liquidez
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o mercado está tão dividido se os números mostram claramente que a inflação subiu?
Porque há duas histórias nos números. A inflação acumulada em doze meses subiu para 4,72%, acima do teto, o que assusta. Mas os núcleos — aquilo que o Banco Central realmente monitora — começaram a desacelerar. É como ver um carro que ainda está acelerado, mas com o pé começando a sair do acelerador.
E qual desses sinais é mais confiável?
Depende de quem você pergunta. Os que veem espaço para corte dizem que a desaceleração nos serviços é o sinal de que a inflação está perdendo força. Os que querem pausa dizem que a inflação acumulada voltou a ganhar altura — em abril era 4,39%, agora é 4,72%. Ganhou 0,33 ponto percentual em um mês.
Então o Banco Central está em um dilema real?
Exatamente. Se cortar, pode parecer que está ignorando uma inflação que está subindo. Se não cortar, pode parecer que está ignorando sinais de desaceleração que começam a aparecer. E há ainda a questão fiscal — o governo está estimulando crédito, o que pressiona inflação.
E se o petróleo cair mesmo com esse acordo EUA-Irã?
Aí muda o jogo. Petróleo mais barato alivia pressão nos combustíveis e no câmbio, o que ajuda a inflação futura. Mas não resolve o problema de hoje — alimentos caros, energia cara, serviços ainda resistindo.
Qual é a aposta mais provável para a próxima reunião?
As opções na B3 mostram que o mercado está levemente inclinado para o corte — 31,36% contra 67,3% para manutenção. Mas é uma margem apertada. O Banco Central pode surpreender nos dois sentidos.