Investigadora do i3S distinguida com bolsa para Congresso Europeu de Patologia

Habitar os dois mundos ao mesmo tempo faz sentido
Ana Rita Araújo reflete sobre o significado de ver reconhecidos, no mesmo congresso, trabalhos de ciência básica e estudos clínicos.

No cruzamento entre o laboratório e a clínica, Ana Rita Araújo, investigadora do i3S da Universidade do Porto, foi distinguida com uma bolsa para o Congresso Europeu de Patologia 2026, em Estocolmo. Os três trabalhos que levará ao encontro — sobre envelhecimento celular, biomarcadores no cancro da mama e tumores triplo-negativos — refletem uma trajetória que recusa separar a curiosidade científica da responsabilidade médica. A distinção é, acima de tudo, um argumento a favor da patologia como disciplina que une o microscópio ao destino do doente.

  • A proteína FOXM1 pode ser a chave para travar o declínio celular associado ao envelhecimento, abrindo perspetivas terapêuticas ainda por explorar.
  • Nem todas as doentes com cancro da mama respondem da mesma forma aos taxanos — e uma metodologia inovadora para quantificar modificações da tubulina em biópsias pode mudar isso.
  • No subtipo mais agressivo de cancro da mama, duas proteínas com comportamentos opostos foram identificadas, com a enzima FER a surgir como possível alvo terapêutico.
  • Uma bolsa de cerca de 600 euros abre as portas de Estocolmo a três estudos que traduzem, em simultâneo, ciência básica e medicina aplicada.
  • A participação no ECP 2026 consolida a visão de que a patologia moderna deve ser uma ponte — e não uma fronteira — entre investigação e prática clínica.

Ana Rita Araújo, investigadora do i3S da Universidade do Porto, recebeu uma bolsa para participar no Congresso Europeu de Patologia 2026, em Estocolmo, um dos encontros científicos mais relevantes da área a nível internacional. O apoio, de aproximadamente 600 euros, cobre a inscrição e parte das despesas. Integrada desde 2020 no grupo Ageing and Aneuploidy, coordenado por Elsa Logarinho, a investigadora levará três trabalhos ao congresso — dois deles fruto de colaborações internas no i3S.

O primeiro estudo foca a proteína FOXM1 e o seu papel no envelhecimento celular. A investigação demonstra que esta proteína é essencial para a renovação dos tecidos e que estimular a sua atividade poderá abrir novas vias terapêuticas com impacto real na qualidade de vida da população envelhecida.

Os outros dois trabalhos situam-se na oncologia mamária. Um deles, desenvolvido com Sónia Silva do grupo liderado por Hélder Maiato, avalia modificações da tubulina como biomarcadores preditivos da resposta à quimioterapia com taxanos — uma abordagem que pode personalizar tratamentos e reduzir efeitos secundários desnecessários. O terceiro, em colaboração com Sandra Tavares, incide sobre o cancro da mama triplo-negativo e identificou duas proteínas com comportamentos opostos nas células tumorais, incluindo a enzima FER, já associada a pior prognóstico, com potencial impacto no diagnóstico e na terapêutica.

Para Ana Rita Araújo, ver os três trabalhos reconhecidos no mesmo congresso é a confirmação de que habitar simultaneamente o mundo da ciência e o da medicina faz sentido. A sua participação no ECP 2026 ilustra o que a patologia moderna pode ser: uma especialidade que liga o microscópio ao doente.

Ana Rita Araújo recebeu uma bolsa para participar no Congresso Europeu de Patologia 2026, em Estocolmo, um dos encontros científicos mais relevantes da área a nível internacional. O apoio cobre a inscrição e parte das despesas, totalizando aproximadamente 600 euros. A investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto integra desde 2020 o grupo Ageing and Aneuploidy, coordenado por Elsa Logarinho, e levará ao congresso três trabalhos científicos desenvolvidos no instituto, dois deles resultantes de colaborações com outros grupos da mesma instituição.

O primeiro estudo centra-se na proteína FOXM1 e o seu papel no envelhecimento celular e na integridade dos tecidos. Conforme as pessoas envelhecem, as células perdem gradualmente a capacidade de se renovarem. A investigação demonstra que o FOXM1 é fundamental nesse processo e pode constituir um alvo importante para mitigar os efeitos do envelhecimento. Os resultados sugerem que estimular a atividade desta proteína poderá abrir novas vias terapêuticas com impacto significativo na qualidade de vida da população envelhecida.

Os outros dois trabalhos situam-se no domínio da oncologia mamária e refletem o contributo de Ana Rita Araújo enquanto patologista com experiência clínica. Um deles, desenvolvido em colaboração com Sónia Silva do grupo Chromosome Instability & Dynamics liderado por Hélder Maiato, avalia o potencial das modificações da tubulina como biomarcadores preditivos da resposta à quimioterapia com taxanos no cancro da mama. O estudo, ainda em curso, procura compreender por que razão nem todas as doentes respondem de forma idêntica a este tratamento, frequentemente associado a efeitos secundários significativos. A equipa desenvolveu uma metodologia inovadora para quantificar estas modificações em biópsias clínicas, abrindo caminho à personalização da terapia e à melhoria dos resultados para as doentes.

O terceiro trabalho, em colaboração com Sandra Tavares do grupo Cytoskeletal Regulation & Cancer, incide sobre o cancro da mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos. A investigação identificou duas proteínas com comportamentos opostos dentro das células tumorais — entre elas a enzima FER, já associada a pior prognóstico — cuja relação parece ser exclusiva deste tipo de cancro. Esta descoberta poderá ter implicações tanto no diagnóstico como no desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas direcionadas.

Para Ana Rita Araújo, esta distinção representa mais do que um reconhecimento individual. A bolsa para o Congresso Europeu de Patologia tem um significado especial porque os três trabalhos traduzem aquilo que procura ser como profissional, tanto na ciência como na medicina. O projeto sobre o FOXM1 nasceu de uma curiosidade científica fundamental, enquanto os estudos em cancro da mama resultam de colaborações em que o seu contributo foi sobretudo clínico. Ver os três reconhecidos no mesmo congresso é a confirmação de que faz sentido habitar os dois mundos ao mesmo tempo.

A participação no ECP 2026 reforça o papel da patologia como ponte entre investigação e prática clínica. Apresentar ciência básica sobre envelhecimento a par de estudos translacionais em oncologia mamária ilustra o que a patologia moderna pode e deve ser: uma especialidade que liga o microscópio ao doente. O Congresso Europeu de Patologia reúne anualmente investigadores e clínicos de todo o mundo para discutir os avanços mais recentes na área, promovendo a partilha de conhecimento e o desenvolvimento de novas abordagens diagnósticas e terapêuticas.

À medida que envelhecemos, as nossas células perdem a capacidade de se renovar. Este trabalho mostra que o FOXM1 é central nesse processo e pode ser um alvo importante para contrariar os efeitos do envelhecimento.
— Ana Rita Araújo
Ver os três reconhecidos no mesmo congresso é a confirmação de que faz sentido habitar os dois mundos ao mesmo tempo — tanto na ciência como na medicina.
— Ana Rita Araújo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

O que torna esta bolsa diferente de outras distinções académicas que uma investigadora poderia receber?

Model

Não é apenas o reconhecimento. É o facto de os três trabalhos que apresenta representarem dois caminhos completamente diferentes — um nasceu de curiosidade pura sobre como as células envelhecem, os outros dois vieram de conversas com colegas sobre problemas reais que as doentes enfrentam. Ganhar uma bolsa para um congresso europeu de patologia significa que esses dois mundos — o laboratório e a clínica — estão a ser validados no mesmo espaço.

Inventor

Fale-me sobre a proteína FOXM1. Por que é que isto importa para alguém que não é cientista?

Model

Quando envelhecemos, as nossas células simplesmente deixam de se renovar bem. Isto afeta tudo — a pele, os órgãos, a forma como o corpo responde a doenças. O FOXM1 é como um interruptor que controla essa renovação. Se conseguirmos mantê-lo ligado, talvez possamos abrandar alguns dos efeitos do envelhecimento. Não é cura, mas é uma porta que estava fechada e agora está aberta.

Inventor

E quanto aos trabalhos sobre cancro da mama? Parecem muito técnicos.

Model

São, mas o objetivo é prático. Imagine que tem cancro da mama e o médico lhe diz que vai fazer quimioterapia. Mas essa quimioterapia causa efeitos secundários terríveis e nem sempre funciona. O que Ana Rita e a equipa estão a fazer é procurar sinais — marcadores — que digam antecipadamente se aquele tratamento específico vai funcionar para si. É medicina personalizada, não medicina de tamanho único.

Inventor

O cancro triplo-negativo é mencionado como agressivo. O que descobriram sobre ele?

Model

Encontraram duas proteínas que se comportam de forma oposta dentro das células deste tipo de cancro. Uma delas, a FER, já sabemos que está ligada a piores resultados. Mas a forma como estas duas trabalham juntas parece ser única neste subtipo. Se conseguirmos entender essa relação, podemos desenvolver tratamentos mais direcionados. É como encontrar a chave específica para uma fechadura específica.

Inventor

Como é que uma investigadora consegue fazer tudo isto — ciência básica e clínica ao mesmo tempo?

Model

Porque a patologia é exatamente isso. É estar no laboratório a olhar para células ao microscópio, mas também estar na clínica a falar com doentes. Ana Rita não vê isto como dois trabalhos diferentes. Vê como um só trabalho visto de dois ângulos. A curiosidade científica e o cuidado clínico alimentam-se um ao outro.

Quer a matéria completa? Leia o original em SAPO ↗
Fale Conosco FAQ