Exigir que pesquisa acerte resultado é confundir ciência com bola de cristal
ABEP afirma que exigir que pesquisa 'acerte' resultado é 'confundir ciência com bola de cristal', pois levantamentos medem momento específico, não promessas de resultado final. Institutos como Datafolha e Ipsos-Ipec alertam que selo pode criar 'incentivo perverso', levando empresas sem rigor a ajustar números na reta final para convergir ao consenso.
- Proposta do TSE: criar Selo Acurácia Eleitoral para reconhecer institutos cujas pesquisas mais se aproximem dos resultados oficiais
- ABEP e institutos como Datafolha, Ipsos-Ipec e RealTime Big Data criticam a iniciativa
- Pesquisas medem intenção de voto no momento, não previsões de resultado final
- Institutos alertam que selo pode criar incentivo perverso para ajustar números na reta final
- TSE receberá sugestões dos institutos até sexta-feira (17 de julho) para definir metodologia e critérios
Associações de institutos de pesquisa eleitoral criticam proposta do TSE de criar selo para reconhecer empresas cujas pesquisas mais se aproximem dos resultados das urnas, argumentando que pesquisas medem intenção de voto no momento, não previsões.
Na terça-feira, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral apresentou aos institutos de pesquisa uma ideia que os deixou atordoados: um selo honorífico para premiar as empresas cujas pesquisas mais se aproximassem dos resultados oficiais das urnas. A proposta, entregue em cópias impressas durante a reunião na sede do TSE em Brasília, não havia sido anunciada previamente. Os representantes dos institutos descobriram o tema apenas quando chegaram ao encontro.
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, que reúne as principais firmas do setor, respondeu com uma crítica contundente: exigir que uma pesquisa "acerte" o resultado é confundir ciência com bola de cristal. A associação argumenta que os levantamentos medem a intenção de voto no momento específico em que são realizados, não fazem previsões sobre o futuro. Entre a realização das entrevistas e o dia da votação, os eleitores podem mudar de opinião, deixar de comparecer às urnas ou alterar completamente seu comportamento eleitoral. Uma pesquisa não é um prognóstico; é um retrato de um instante.
Os institutos mais conhecidos do país alinharam-se nessa crítica. Luciana Chong, diretora do Datafolha, afirmou que o instituto se posicionou contra a proposta durante a reunião. O objetivo da pesquisa eleitoral, explicou, é acompanhar o período eleitoral, contar a história do que acontece durante a campanha e oferecer informação relevante ao eleitor — não acertar um resultado que ainda não ocorreu. Márcia Cavallari Nunes, da Ipsos-Ipec, fez a mesma distinção: uma pesquisa tem papel diagnóstico do momento, não prognóstico do futuro. Ela diferencia intenção de voto — o que se mede — de comportamento eleitoral, que é o que realmente importa no dia da eleição. Lucas Thut Sahd, da RealTime Big Data, reforçou que os institutos mostram o que a população está sentindo naquele momento, traduzido em intenção de voto, não tentam adivinhar o resultado.
A preocupação mais grave levantada pelos institutos é que o selo poderia criar um incentivo perverso. Se o objetivo passa a ser ganhar um prêmio de "acerto", empresas sem rigor metodológico poderiam acompanhar os levantamentos divulgados por institutos consolidados e ajustar seus números na reta final da campanha para convergir ao consenso. Isso enfraqueceria, em vez de fortalecer, a qualidade da informação oferecida ao eleitor. A associação também questionou a ideia de a Justiça Eleitoral avaliar a qualidade de uma pesquisa apenas pela proximidade com o resultado das urnas. A qualidade deveria ser medida pela metodologia, pelo desenho amostral, pela transparência, pela execução das entrevistas e pelo cumprimento das boas práticas científicas — não apenas pela sorte de ter publicado um número que coincidiu com o resultado.
O contexto político importa aqui. A ideia de criar um índice de acerto já havia sido discutida durante a tramitação do novo Código Eleitoral no Congresso. O relator no Senado, Marcelo Castro, entendeu as dificuldades técnicas e retirou essa taxa de precisão da proposta. Mas o novo Código Eleitoral não passou a tempo de valer na eleição de 2026, então colocar uma coisa dessas em uma resolução do TSE não faz sentido, segundo os institutos.
O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, justificou a proposta como um reconhecimento às empresas que dedicam esforços em favor da democracia. O selo seria honorífico, destinado a reconhecer entidades cuja estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais. A avaliação cobriria pesquisas registradas pelo TSE e divulgadas ao público, realizadas no dia da votação (boca de urna) ou nos sete dias anteriores ao pleito. O TSE avaliaria pesquisas presidenciais, enquanto os Tribunais Regionais Eleitorais ficariam responsáveis pelas pesquisas sobre eleições estaduais e do Distrito Federal.
A metodologia para calcular a proximidade com as urnas e os critérios para concessão do selo ainda serão definidos. O TSE receberá sugestões dos institutos até sexta-feira. A associação reafirmou sua disposição para participar de um debate técnico e qualificado com a Justiça Eleitoral, mas deixou claro que soluções efetivas exigem diálogo com a comunidade científica e com os institutos que atuam na área. O que estava em jogo não era apenas um prêmio simbólico, mas a própria compreensão do que pesquisas eleitorais fazem e para que servem.
Citas Notables
O objetivo da pesquisa não é acertar o resultado eleitoral. A pesquisa não é prognóstico. O importante é acompanhar o período eleitoral, contar a história da eleição— Luciana Chong, diretora do Datafolha
A pesquisa eleitoral tem papel diagnóstico do momento, não prognóstico do futuro. Medimos intenção de voto, não comportamento eleitoral— Márcia Cavallari Nunes, diretora-geral da Ipsos-Ipec
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que os institutos acham que um selo de acerto é tão problemático? Não seria apenas um reconhecimento?
Porque muda o incentivo. Se você premia quem "acerta", institutos menores podem parar de fazer pesquisa rigorosa e começar a copiar números de institutos maiores na reta final, só para ganhar o prêmio.
Mas a pesquisa não deveria tentar ser precisa?
Deveria, mas precisa é diferente de acerto. Uma pesquisa feita com rigor metodológico perfeito pode estar "errada" no resultado final simplesmente porque os eleitores mudaram de ideia entre a entrevista e a votação. Isso não é culpa da pesquisa.
Então o TSE está confundindo duas coisas diferentes?
Exatamente. O TSE quer premiar quem mais se aproximou do resultado. Os institutos dizem: isso não mede qualidade, mede sorte. E pode destruir a qualidade no processo.
Como assim?
Se a meta é ganhar um selo, não é mais fazer a melhor pesquisa possível. É publicar o número que maximize a chance de receber o prêmio. Isso enfraquece a informação que chega ao eleitor.
E ninguém avisou os institutos que isso seria discutido?
Não. Eles chegaram à reunião e receberam a minuta impressa. Alguns ministros do TSE também não sabiam que o tema seria esse. Descreveram a proposta como constrangedora.