Influenciadores brasileiros lucram vendendo fantasia de conquistas fáceis na Rússia

Mulheres russas e brasileiras têm seus vídeos manipulados sem consentimento, sendo objetificadas e exploradas para ganho financeiro de influenciadores.
Uma mulher loira é prova de que o jovem venceu
Pesquisadora explica como a machosfera brasileira usa mulheres estrangeiras como símbolo de ascensão social.

Influenciadores usam hashtags como #partiuRússia para vender cursos sobre como conquistar mulheres russas, alegando ser possível sem dinheiro e em uma semana. Conteúdos manipulam vídeos de mulheres russas, distorcem legendas e tratam a guerra Rússia-Ucrânia como meme, explorando desequilíbrio demográfico do país.

  • Influenciadores brasileiros usam #partiuRússia para vender cursos sobre conquistar mulheres russas em uma semana
  • Rússia tem aproximadamente 10 milhões a mais de mulheres que homens, resultado de êxodo econômico e expectativa de vida
  • Conteúdos manipulam vídeos de mulheres russas, invertendo legendas para criar narrativas falsas
  • Cerca de 90% dos encontros virtuais nunca se concretizam pessoalmente

Influenciadores brasileiros criam conteúdo viral no TikTok promovendo relacionamentos fáceis com mulheres russas, vendendo cursos e mentorias enquanto desqualificam mulheres brasileiras. Especialistas alertam que a prática envolve manipulação de vídeos, exploração de mulheres e disseminação de fantasias lucrativas.

Há um ano, uma estratégia de marketing começou a ganhar força nas redes sociais brasileiras. Influenciadores postavam vídeos curtos no TikTok com mensagens diretas: um pedreiro poderia namorar uma loira na Rússia. Um homem sem dinheiro seria desejado lá. Uma semana era tempo suficiente para conquistar uma mulher russa. As hashtags #partiuRússia e #mulheresrussas ajudavam a amplificar o alcance. Por trás desses conteúdos havia um modelo de negócio claro: vender a fantasia. Os criadores ofereciam cursos, mentorias e consultorias promessas de nomadismo digital, carros de luxo, viagens internacionais e parceiras estrangeiras. Alguns deles documentavam suas próprias jornadas com fotos em Emirados Árabes Unidos e ao lado de veículos esportivos. Era uma versão brasileira de um fenômeno internacional conhecido como "passport bros" — homens que viajam para países economicamente mais frágeis em busca de relacionamentos, frequentemente filmando mulheres sem permissão.

O conteúdo funcionava porque tocava em uma ferida. Julia Meszaros, socióloga especializada em gênero e migração internacional, explica que muitos homens sentem-se excluídos do papel masculino tradicional em suas próprias sociedades. Quando viajam para outro país, especialmente um com desequilíbrio demográfico, sentem-se empoderados. A Rússia, com aproximadamente 10 milhões a mais de mulheres que homens — resultado do êxodo econômico após o colapso da União Soviética e da menor expectativa de vida masculina — tornou-se um alvo perfeito. Os influenciadores brasileiros combinavam dados demográficos com fotos de mulheres para ressaltar a suposta beleza das russas. Simultaneamente, desqualificavam as mulheres brasileiras: interessadas apenas em dinheiro, vulgares, promíscuas. As estrangeiras, em contraste, eram apresentadas como tradicionais, femininas, dispostas a aceitar homens sem recursos financeiros.

Mas havia um problema fundamental: a manipulação. Ekaterina Fedorova, uma produtora de conteúdo russa que vive no Brasil há cinco anos, teve seus próprios vídeos roubados e distorcidos. Um deles falava sobre um auxílio governamental para mães russas, destinado às crianças. Quando repostado pelos influenciadores brasileiros, a legenda foi alterada para sugerir que mulheres russas receberiam dinheiro se se relacionassem com brasileiros. Entrevistas também eram manipuladas: quando perguntavam a mulheres russas quanto um parceiro deveria ganhar, as legendas em português invertiam as respostas originais, criando a ilusão de que elas não se importavam com dinheiro — diferente das brasileiras, que supostamente exigiam valores específicos. Bruna Camilo, pesquisadora em gênero e misoginia, aponta que as mulheres eram tratadas como objetos visuais, não como pessoas. A economia da atenção nas plataformas digitais recompensava esse tipo de conteúdo: vídeos com mulheres desconhecidas geravam alto engajamento. Havia também uma sensação de baixo risco social e impunidade.

A obsessão pela branquitude era evidente. Cabelos loiros, pele branca — esses atributos eram mais relevantes que a própria nacionalidade. Ekaterina viu vídeos com mulheres que nem eram russas, mas ucranianas, polonesas ou suecas, todas agrupadas sob o rótulo de "conquistas fáceis". Para Camilo, isso refletia o contexto histórico brasileiro: a colonização e a escravidão deixaram uma marca profunda. O que era europeu, branco, era visto como superior. Posar ao lado de uma mulher loira era uma forma de ascensão social. Dentro da "machosfera", como ela chamou, ter uma namorada russa era prova de vitória. A mulher era uma extensão do estilo de vida, como o carro de luxo ou a viagem internacional.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, que matou entre 275 mil e 325 mil soldados russos, nunca era mencionada como um problema nos vídeos. Era tratada como meme. Piadas sobre terminar no Exército sob comando de Vladimir Putin circulavam. Alguns criadores chegavam a mencionar que o número reduzido de homens russos — resultado direto das mortes em combate — era uma vantagem para os estrangeiros. O Itamaraty registrava oficialmente 30 brasileiros mortos no conflito, quase todos pelo lado ucraniano. Mas para os influenciadores, a guerra era oportunidade, não tragédia.

Thiago de Melo, criador do canal "Vem a mim língua russa", começou oferecendo informações sobre como viajar para a Rússia apesar das sanções internacionais. Ele criou uma consultoria sobre viagens ao país. Quando questionado, negou que os vídeos viralizados sobre conquistas fáceis tivessem qualquer ligação com o governo russo — eram apenas "uma estratégia criada por marketeiros brasileiros que descobriram a Rússia recentemente". Melo afirmava que os conteúdos eram manipulados, com legendas absurdas colocadas exclusivamente para viralizar. A BBC News Brasil entrou em contato com a embaixada da Rússia para questionar se havia conhecimento ou vínculos com programas de promoção do país, mas não recebeu resposta.

O fenômeno refletia algo mais profundo. Meszaros observou que o Brasil, historicamente alvo dos "passport bros" estrangeiros, havia se tornado exportador dessa mentalidade. No site International Love Scout, que classifica as vantagens de buscar mulheres no exterior, a descrição do Brasil era reveladora: "Muitas brasileiras lindas procuram caras como você. Sim, como você, se for honesto, paciente, trabalhador e, de modo geral, seguir as normas sociais aceitas sobre como os homens devem tratar as mulheres no mundo ocidental moderno". A ironia era que influenciadores brasileiros agora faziam exatamente o que estrangeiros faziam com o Brasil.

A realidade, segundo Ekaterina, era muito diferente das fantasias vendidas. Relacionamentos internacionais exigiam dinheiro, paciência e compreensão mútua — coisas que os vídeos nunca mencionavam. Havia um mito de que o homem não gastaria nada e a mulher cuidaria da casa. Cerca de 90% dos encontros virtuais nunca se concretizavam pessoalmente; as pessoas ficavam satisfeitas apenas em contar sobre e exibir os supostos relacionamentos. Aplicativos prometendo mulheres estrangeiras proliferavam, com versões em português específicas para brasileiros buscando russas. O Brasil tinha 600 cidadãos vivendo na Rússia em 2023, segundo dados oficiais, mas o número real de viagens curtas era desconhecido. Alguns tentavam contornar as regras migratórias, permanecendo além dos 90 dias permitidos para turismo, enfrentando deportação e multas na saída.

É um tipo de conteúdo click-bait que chama muito a atenção online. Há diversas formas de ganhar dinheiro com isso. É uma venda de uma série de fantasias que é muito lucrativa.
— Julia Meszaros, socióloga especializada em gênero e migração internacional
Os homens criam um conto de fadas, não entendem a realidade, nem quanto dinheiro e paciência necessita um relacionamento, que nestes casos costumam ser ainda mais difícil.
— Ekaterina Fedorova, produtora de conteúdo russa que vive no Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que esses vídeos funcionam tão bem? O que faz uma pessoa clicar e compartilhar?

Model

Porque tocam em uma ferida real. Muitos homens sentem que perderam seu lugar na sociedade. A fantasia de ir para outro país e ser desejado, sem precisar de dinheiro ou status, é poderosa. E as plataformas recompensam isso com algoritmos que amplificam o engajamento.

Inventor

Mas as mulheres nos vídeos — elas sabem que estão sendo filmadas?

Model

Frequentemente não. E quando sabem, não entendem o contexto. Ekaterina, uma produtora russa, teve seus próprios vídeos roubados e as legendas completamente invertidas. Virou propaganda para algo que ela nunca disse.

Inventor

Há algo de novo nisso, ou é só uma versão brasileira de algo que já existe?

Model

Existe há anos nos Estados Unidos com o termo "noiva por correspondência". Mas o Brasil é interessante porque era alvo desse tipo de conteúdo estrangeiro. Agora brasileiros estão fazendo o mesmo com russas. É como se tivessem aprendido a técnica e a exportado.

Inventor

E a guerra? Como eles lidam com o fato de que há uma guerra acontecendo?

Model

Como meme. Piadas sobre terminar no Exército de Putin. Alguns até mencionam que o número reduzido de homens russos — resultado das mortes — é uma vantagem. A tragédia vira oportunidade de marketing.

Inventor

Qual é o ganho financeiro real para esses influenciadores?

Model

Cursos, mentorias, consultorias sobre como viajar e conquistar mulheres russas. Eles vendem a fantasia de um estilo de vida — carros de luxo, viagens, mulheres estrangeiras. Quanto mais viral o conteúdo, mais pessoas compram o pacote.

Inventor

E as mulheres russas? Elas ganham algo com isso?

Model

Nada. Elas são objetos. Seus vídeos são roubados, suas palavras são distorcidas, seus rostos são usados como prova de que o sistema funciona. Para os criadores, uma mulher loira é uma extensão do estilo de vida, como um carro esportivo.

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