Influenciadora trans relata 'futebolfobia' desenvolvida por experiências de exclusão em ambientes esportivos

Mulher trans relata vivência de preconceito, julgamentos e exclusão em ambientes esportivos que a levaram a evitar esses espaços por anos.
O problema nunca foi o futebol. O que me afastava eram as experiências ao redor dele
Suellen Carey reflete sobre como preconceito e exclusão, não o esporte em si, criaram seu medo dos ambientes futebolísticos.

Há esportes que carregam, além das regras e da bola, o peso de quem historicamente foi autorizado a amá-los. Suellen Carey, influenciadora trans de 38 anos, cresceu apreciando o futebol, mas aprendeu cedo que os espaços ao redor dele não foram construídos para pessoas como ela — e esse aprendizado, feito de exclusões repetidas, transformou-se num medo que ela hoje chama de 'futebolfobia'. O que ela trabalha em terapia não é abandonar o esporte, mas recuperar o direito de pertencer a ele.

  • Por anos, Suellen evitou bares, estádios e qualquer ambiente com transmissão de jogos, não por rejeitar o futebol, mas para se proteger do preconceito que esses espaços historicamente representaram para ela.
  • Datas como a Copa do Mundo despertam sentimentos contraditórios: o desejo de acompanhar os jogos existe, mas o medo de ser julgada ou ridicularizada ainda fala mais alto.
  • A influenciadora identificou que o problema nunca esteve no esporte em si, mas nas experiências de exclusão e constrangimento acumuladas ao longo da vida nesses ambientes predominantemente masculinos.
  • Em terapia, Suellen trabalha para ressignificar essa relação e alcançar um futuro em que possa estar num estádio ou num bar durante um jogo sem precisar estar constantemente em guarda.

Suellen Carey tem 38 anos, gosta de futebol e entende do jogo. Mesmo assim, por muitos anos ela evitou bares, estádios e qualquer lugar com transmissão ao vivo. O que a mantinha afastada não era o esporte — era o medo dos espaços que o cercam. Ela chama esse medo de 'futebolfobia', e hoje o trabalha em terapia.

Como mulher trans, Suellen sentiu-se vulnerável em ambientes historicamente construídos como territórios masculinos. As lembranças que guarda desses lugares estão ligadas ao medo de ser julgada ou ridicularizada. Não era uma rejeição consciente ao futebol: era uma forma de proteção. Ela aprendeu cedo que pessoas como ela não tinham lugar garantido nesses espaços, e foi se privando deles mesmo gostando do que havia dentro deles.

O incômodo nunca esteve no jogo. Estava na insegurança de entrar num bar cheio durante um clássico, no medo de ser reconhecida, na sensação de que aqueles espaços não foram feitos para ela. Períodos como a Copa do Mundo trazem sentimentos ambíguos: a vontade de estar ali existe, mas o medo ainda é maior.

Em terapia, ela já alcançou uma compreensão fundamental: o problema nunca foi o futebol. O que a afastava eram as experiências vividas ao redor dele. O processo está em construção — Suellen não se considera curada dessa futebolfobia, mas espera poder, um dia, estar num estádio ou num bar durante uma partida e simplesmente assistir ao jogo, sem precisar estar constantemente em guarda.

Suellen Carey tem 38 anos e gosta de futebol. Acompanha o esporte desde a adolescência, segue partidas, entende do jogo. Mas há anos ela evita os lugares onde o futebol é consumido — bares, estádios, qualquer ambiente com transmissão ao vivo. O que ela desenvolveu, e agora trabalha em terapia, é o que chama de "futebolfobia": um medo profundo dos espaços que cercam o esporte que ama.

Esse medo não nasceu do futebol em si. Nasceu de experiências repetidas de exclusão, preconceito e constrangimento vividas nesses ambientes ao longo dos anos. Como mulher trans, Suellen sentiu-se vulnerável em lugares que historicamente foram construídos como territórios masculinos — espaços onde comportamentos considerados diferentes viravam motivo de piada ou humilhação. "Eu sempre gostei de futebol, mas nunca me sentia confortável nos ambientes onde ele era consumido", explica. "Muitas das lembranças que tenho desses espaços estão ligadas ao medo de ser julgada ou ridicularizada."

Por muitos anos, ela simplesmente se afastou. Não frequentava bares durante os jogos. Não ia aos estádios. Evitava qualquer lugar onde soubesse que haveria transmissão. Não era uma escolha consciente e deliberada no sentido de rejeitar o esporte — era uma forma de proteção. Ela cresceu vendo o futebol ser tratado como um território muito masculino, e aprendeu cedo que pessoas como ela não tinham lugar garantido nesses espaços. Então começou a se privar deles, mesmo gostando do que havia dentro deles.

O incômodo nunca esteve no jogo. Estava na forma como ela passou a se relacionar com tudo que o cercava. Estava na insegurança de estar em um bar cheio de homens durante um clássico. Estava no medo de ser reconhecida e ridicularizada. Estava na sensação de que aqueles espaços não eram feitos para pessoas como ela — e talvez nunca fossem. Períodos como a Copa do Mundo despertam sentimentos ambíguos: ela quer acompanhar, quer estar ali, mas o medo ainda é maior que o desejo.

Agora, em terapia, Suellen trabalha para ressignificar essa relação. Ela já conseguiu entender algo fundamental: o problema nunca foi o futebol. O que a afastava eram as experiências que viveu ao redor dele — a exclusão, o julgamento, a sensação de não pertencer. Ela continua gostando do esporte e tem vontade de acompanhar os jogos com tranquilidade, mas ainda sente medo de frequentar alguns desses ambientes. Os locais onde as partidas são transmitidas costumam ser muito masculinos, e isso ainda gera insegurança.

O processo está em construção. Suellen não está curada dessa futebolfobia, mas já ressignificou parte da própria relação com o esporte. Ela espera conseguir viver esses momentos com mais tranquilidade e sem carregar o mesmo medo de antes — espera poder estar em um bar durante um jogo, em um estádio durante uma partida, e simplesmente ser uma pessoa assistindo futebol, sem precisar estar constantemente em guarda.

Eu sempre gostei de futebol, mas nunca me sentia confortável nos ambientes onde ele era consumido. Muitas das lembranças que tenho desses espaços estão ligadas ao medo de ser julgada ou ridicularizada
— Suellen Carey
Hoje eu entendo que o problema nunca foi o futebol. O que me afastava eram as experiências que vivi ao redor dele
— Suellen Carey
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Quando você diz que desenvolveu futebolfobia, é realmente medo do esporte ou é medo do que acontece ao redor dele?

Model

É completamente diferente. Eu gosto de futebol de verdade. O medo é dos espaços, das pessoas nesses espaços, da forma como eu seria tratada lá.

Inventor

E por quanto tempo você simplesmente evitou esses lugares?

Model

Por muitos anos. Bares, estádios, qualquer transmissão. Eu só não ia. Era mais seguro ficar longe.

Inventor

Qual é a diferença entre assistir futebol sozinha em casa e estar em um bar cheio de gente?

Model

Em casa eu sou só eu. Em um bar, eu sou uma mulher trans em um espaço que historicamente foi feito para homens. A sensação é completamente diferente.

Inventor

A terapia está ajudando você a voltar para esses espaços?

Model

Está ajudando a entender que o problema nunca foi o futebol. Estou aprendendo a separar o esporte do medo que construí ao redor dele.

Inventor

Você acha que conseguirá frequentar um estádio sem medo em algum momento?

Model

Espero que sim. Ainda não consigo, mas estou trabalhando nisso. Quero poder estar lá e apenas assistir futebol, como qualquer outra pessoa.

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