Inflação persiste acima das expectativas; Petrobras cai com troca de comando

Preços, em português claro, estariam congelados ao longo de todo processo eleitoral
A possível mudança na política de reajuste de preços da Petrobras sinalizaria uma ruptura com a prática anterior.

IPCA-15 de maio surpreende ao atingir 0,59%, acima das projeções de 0,45%, sinalizando persistência inflacionária e possível aumento maior de juros em junho. Petrobras anuncia saída de José Mauro Coelho e chegada de Caio Mário Paes de Andrade, terceira mudança em 13 meses, com possível congelamento de preços durante eleições.

  • IPCA-15 de maio atingiu 0,59%, acima da expectativa de 0,45%
  • Petrobras anuncia terceira troca de comando em 13 meses
  • Ibovespa fecha em alta de 0,21%, aos 110.581 pontos
  • Ações preferenciais da Petrobras caem 2,92%; ordinárias, 2,85%
  • Petróleo sobe para perto de 114 dólares por barril

Inflação mais forte que esperado pressiona bolsa, enquanto Petrobras anuncia terceira troca de comando em um ano. Ibovespa fecha em alta de 0,21%, sustentado por Vale e bancos.

A bolsa brasileira passou quase todo o pregão de terça-feira, 24 de maio, em território negativo. O Ibovespa havia afundado até 1,76% de queda quando, nos minutos finais, conseguiu se recuperar e fechar com ganho tímido de 0,21%, aos 110.581 pontos. Dois fatores explicam essa trajetória acidentada: a inflação voltou a surpreender analistas para cima, e a Petrobras anunciou sua terceira troca de comando em pouco mais de um ano.

O índice carregava o peso da estatal do petróleo, que representa 12% de sua composição. As ações preferenciais da Petrobras caíram 2,92%, enquanto as ordinárias recuaram 2,85%, na sequência da saída de José Mauro Coelho e da chegada anunciada de Caio Mário Paes de Andrade. A queda poderia ter sido ainda maior, mas investidores seguraram o papel pela perspectiva de dividendos fartos já contratados para pelo menos 24 meses adiante. Outros aproveitaram a pressão vendedora para comprar mais barato. O que chamou atenção é que as ações caíram enquanto o petróleo subia levemente, beirando os 114 dólares por barril. Empresas privadas do setor, como PetroRio e 3R Petroleum, subiram com firmeza, com ganhos de 3,90% e 3,39% respectivamente.

A razão para a queda contida está no histórico das trocas anteriores: Bolsonaro trocou o comando, mas a empresa continuou repassando aos consumidores o aumento dos preços internacionais. Desta vez, porém, pode ser diferente. Há planos de criar um intervalo de 100 dias para que cada repasse de custos de importação seja embutido nos preços, o que na prática congelaria os valores durante todo o processo eleitoral. Já se vão 70 dias com os preços da gasolina sem subir, enquanto as cotações do petróleo em Londres, quando convertidas para reais, subiram cerca de 5% no mesmo período.

O segundo fator que pressionou a bolsa foi a inflação. O IPCA-15 de maio chegou a 0,59% entre 15 de abril e 24 de maio, acima das expectativas de 0,45% que a maioria dos analistas projetava. Embora menor que os 1,73% do mês anterior, o número mantém a inflação em ritmo acelerado. O resultado foi puxado para baixo apenas pela queda de mais de 14% nos gastos com energia, graças ao retorno da bandeira tarifária verde. Sem esse alívio, o IPCA-15 teria sido de 1,28%. Isso significa que o aumento de preços está espalhado por toda a economia, sinalizando que o Banco Central pode precisar de mais aumentos de juros além do meio ponto que vinha sendo projetado.

Priscila Araujo, gestora e sócia da Macro Capital, alertou que a inflação segue muito persistente, acima do que o mercado esperava. Ela projeta que o IPCA fechará o ano em torno de 10% em 12 meses. Com esse novo dado, crescem as chances de o Banco Central subir os juros acima do meio ponto em junho. Araujo teme que 2022 repita o padrão de 2021: ganhos na bolsa no primeiro semestre, quando dados de crescimento do PIB são revistos para melhor, seguidos de perdas no segundo semestre, quando a realidade de inflação alta e juros elevados começa a pesar nas perspectivas.

Embora o PIB de 2022 esteja sendo revisado para cima, o de 2023 começa a ser puxado para baixo. A última temporada de balanços já sinaliza pressão alta de custos para as empresas. O próximo ano, segundo Araujo, será ainda mais desafiador, e a queda na confiança das classes C e D, muito endividadas, já é uma amostra do que pode vir. O varejo já está sendo afetado pela inadimplência e deve continuar sendo.

Neste dia de decepção com o IPCA-15, as ações dependentes de consumo foram as piores. CVC caiu 6,30%, liderando as quedas. Entre as redes de varejo, Americanas recuou 4,94%. No campo das altas, Vale subiu 1,35%, após passar o dia todo em viés de baixa alinhada ao recuo de 4% dos preços do minério na China. O papel, segundo mais líquido que o da Petrobras, pode ter herdado parte dos investimentos realocados por estrangeiros. Os bancos também subiram com força, beneficiados pela tese de que ganharão com a necessidade de mais juros. Bradesco PN liderou com 2,10%, enquanto Banco do Brasil caiu 0,43%, afetado pelo risco político na Petrobras. Das 92 ações do Ibovespa, 53 subiram. O volume girado foi de pouco menos de 24 bilhões de reais.

A inflação está muito persistente, e já esperava por uma persistência maior do que a média do mercado tem projetado mesmo antes dessa nova divulgação. No ritmo em que as coisas vão, o IPCA caminha para fechar o ano ao ritmo de 10% em 12 meses.
— Priscila Araujo, gestora e sócia da Macro Capital
O próximo ano, ao que tudo indica, será ainda mais desafiador que este, e a queda na confiança das classes C e D, muito endividadas, já uma amostra do que pode estar por vir.
— Priscila Araujo, Macro Capital
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a Petrobras caiu se o petróleo subiu?

Model

Porque o mercado sabe que pode haver congelamento de preços durante as eleições. Não é sobre o barril hoje, é sobre o que o governo pode fazer amanhã.

Inventor

Três trocas de comando em um ano não é muito?

Model

É absurdo. Mas nas duas vezes anteriores, nada mudou na prática. A empresa continuou repassando preços. Desta vez há sinais de que pode ser diferente, e isso assusta.

Inventor

O que a inflação tem a ver com varejo caindo?

Model

Tudo. Quando os juros sobem para combater inflação, as pessoas endividadas não conseguem pagar. O varejo vive de consumo. Classes C e D estão ficando inadimplentes.

Inventor

Vale subiu enquanto tudo caía. Por quê?

Model

Porque quanto mais inflação e juros, mais os preços das commodities tendem a subir em reais. Vale ganha com isso. É um refúgio quando o Brasil fica mais arriscado.

Inventor

Então 2022 vai ser como 2021?

Model

Sim, segundo os analistas. Primeiro semestre bom, segundo semestre ruim. O crescimento do PIB anima agora, mas a inflação e os juros altos vão apertar no segundo tempo.

Inventor

E se o Banco Central subir juros mais do que esperado?

Model

Piora tudo. Empresas com custos altos, consumidor endividado, confiança caindo. A bolsa sente isso rápido.

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