O que pode fazer a diferença é esses doutorados irem para as empresas
Portugal formou mais doutorados do que as suas universidades conseguem absorver — e é nessa tensão entre talento acumulado e destino incerto que nasce o SAIL. Com 27,2 milhões de euros do Horizonte Europa, o INESC-ID liderado por Inês Lynce propõe não apenas investigar inteligência artificial sustentável, mas transformar a própria instituição num elo entre a ciência e o mercado. É uma aposta na ideia de que o conhecimento só cumpre o seu propósito quando sai do laboratório e encontra o mundo.
- Portugal produz doutorados a um ritmo que a academia já não consegue absorver, criando uma pressão crescente sobre o destino deste talento científico.
- As grandes tecnológicas americanas espreitam este reservatório de talento, tornando a fuga de cérebros uma ameaça concreta e urgente.
- O projeto SAIL responde com quatro frentes simultâneas: criação de valor económico, formação avançada com duplo grau luso-alemão, transferência tecnológica e responsabilidade ética da IA.
- Living Labs e Transfer Labs, inspirados no modelo alemão do DFKI, serão criados em Portugal para que a ciência chegue efetivamente ao mercado e não morra na universidade.
- O projeto arranca em janeiro com dez contratações, cresce para dez doutorandos por ano e ancora-se em novas instalações que também darão espaço a startups nascidas do próprio SAIL.
Portugal tem produzido doutorados num ritmo que surpreendeu até os próprios académicos — mas as universidades não conseguem absorver todos estes investigadores. É neste vazio que Inês Lynce, presidente do INESC-ID, encontrou uma oportunidade: se a academia não retém este talento, as empresas têm de o fazer.
Em junho, o INESC-ID conquistou 27,2 milhões de euros do Horizonte Europa para o SAIL — Sustainable Artificial Intelligence Laboratory. Mais do que um laboratório de investigação, é um projeto de capacitação institucional com quatro pilares: criação de valor económico, formação avançada com duplo grau entre Portugal e a Alemanha, transferência de tecnologia até ao fim da cadeia, e responsabilidade ética, social e ambiental da inteligência artificial.
O projeto conta com dois parceiros alemães de peso — o Max Planck Institute for Software Systems e o DFKI — que trazem experiência em fazer viver a ciência fora do laboratório. Inspirado nos Living Labs do DFKI, o SAIL criará espaços semelhantes em Portugal, onde doutorandos, empresas e cidadãos possam desenvolver produtos reais, a par de Transfer Labs dedicados à transferência tecnológica.
Lynce não esconde o principal risco: a fuga de cérebros para as grandes tecnológicas americanas. A resposta passa por tornar o próprio projeto atrativo — seis anos de trabalho numa iniciativa de grande envergadura, com salários mais competitivos — e por criar condições para que quem sai eventualmente volte.
O arranque está previsto para janeiro, com dez pessoas contratadas, crescendo para dez doutorandos por ano e quatro cátedras para investigadores estabelecidos. As novas instalações do INESC-ID, numa coincidência feliz, permitirão também acolher startups nascidas do projeto. O objetivo mais fundo é provar que um doutorado não precisa de fazer exatamente o que estudou — pode transformar qualquer empresa com a sua capacidade de adaptação e visão diferenciada. Se o SAIL conseguir construir estas pontes, pode marcar um antes e um depois na transferência de inteligência artificial em Portugal.
Portugal tem produzido doutorados num ritmo que surpreendeu até os próprios académicos. O crescimento foi abrupto, quase brutal quando se olha para trás — mas ninguém esperava que as universidades conseguissem absorver todos estes investigadores. É aqui que entra Inês Lynce, presidente do INESC-ID, com uma ideia simples mas ambiciosa: se a academia não consegue reter este talento, as empresas têm de o fazer.
Em junho, o INESC-ID conquistou 27,2 milhões de euros do fundo Horizonte Europa para um projeto chamado SAIL — Sustainable Artificial Intelligence Laboratory. Não é apenas um laboratório de investigação. É, nas palavras de Lynce, um projeto de capacitação. A diferença é importante: enquanto muitos projetos europeus desenvolvem conceitos ou inovações isoladas, o SAIL pretende transformar uma instituição inteira, criando as condições para que a ciência chegue efetivamente ao mercado.
O projeto tem quatro pilares. O primeiro é a criação de valor económico — formar doutorados e engenheiros que saibam não apenas fazer ciência, mas também transformá-la em produtos e empresas. O segundo é a formação avançada, com duplo grau entre Portugal e a Alemanha. O terceiro é a transferência de tecnologia, talvez o mais crucial: levar a ciência até ao fim da cadeia, como diz Lynce, não deixando que morra na universidade. O quarto pilar é a responsabilidade — ética, social, regulatória e ambiental da inteligência artificial. Não é só construir modelos, é construir modelos que sejam explicáveis e responsáveis.
O INESC-ID não está sozinho. Tem dois parceiros alemães de peso: o Max Planck Institute for Software Systems e o DFKI, o Instituto Alemão para a Inteligência Artificial. Estes parceiros trazem experiência em algo que Portugal ainda está a aprender: como fazer viver a ciência fora do laboratório. No DFKI, por exemplo, existem Living Labs — espaços cheios de sensores onde doutorandos, empresas e cidadãos podem ver a tecnologia em ação e desenvolver produtos reais. O SAIL vai criar algo semelhante em Portugal, juntamente com Transfer Labs dedicados especificamente à transferência de tecnologia.
Mas há um desafio que Lynce não esconde: o risco de fuga de cérebros. Portugal forma doutorados, mas as grandes tecnológicas americanas estão sempre à espreita. Como competir com elas? Lynce aponta duas estratégias. Primeira: o projeto em si é atrativo — seis anos de trabalho numa iniciativa de grande envergadura, com possibilidade de salários mais competitivos. Segunda: criar condições para que quem sai eventualmente volte. Há um ir e um voltar, diz ela.
O projeto começa em janeiro com dez pessoas já contratadas. Depois virão doutorandos — começando com dez por ano — e quatro cátedras, posições para investigadores já estabelecidos. À volta deles, post-docs e mais alunos. Tudo centrado em inteligência artificial. O INESC-ID está simultaneamente a construir novas instalações, uma coincidência feliz que permite alojar o SAIL e também criar espaço para startups que possam nascer do projeto.
Mas o verdadeiro objetivo é mais profundo. Portugal tem um número muito elevado de doutorados — isso é positivo. O problema é que muitas empresas não sabem bem como aproveitá-los. Há a tendência de pensar que a formação que se tem é o trabalho que se vai fazer. Não é assim. Um doutorado em ciências sociais pode trazer uma perspetiva valiosa a uma empresa de tecnologia. Um investigador traz não apenas conhecimento especializado, mas também capacidade de adaptação e visão diferenciada. O SAIL pretende provar isto na prática, criando pontes entre o mundo académico e o empresarial que ainda não existem em Portugal. Se conseguir, pode marcar um antes e um depois na capacidade nacional de desenvolver e transferir inteligência artificial.
Notable Quotes
Temos um número de doutorados muito elevado, o que é muito positivo, mas não temos expectativas de que a academia vá absorver esses doutorados todos— Inês Lynce, presidente do INESC-ID
O SAIL é um projeto de capacitação que tem muita contratação de pessoas, porque sem pessoas não se consegue fazer nada— Inês Lynce
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que Portugal precisa de um laboratório como este agora, especificamente?
Porque temos um problema que é também uma oportunidade. Produzimos muitos doutorados — foi um salto brutal — mas a academia não consegue absorvê-los todos. Se não os colocarmos nas empresas, estamos a desperdiçar talento.
E as empresas portuguesas estão preparadas para receber doutorados?
Nem sempre. Há interesse, mas muitas vezes as empresas não veem claramente qual é a capacidade que um doutorado traz. Pensam que ele vai fazer apenas aquilo em que se especializou. Não entendem que a formação dá ferramentas muito mais amplas.
Como é que o SAIL muda isso?
Cria espaços onde a ciência e a empresa se encontram. Os Living Labs mostram a tecnologia em ação. Os Transfer Labs fazem a ponte entre investigação e mercado. E contratamos pessoas — investigadores estabelecidos, post-docs, doutorandos — que trabalham nessa transferência.
Qual é o risco maior que veem?
Que as pessoas que formamos sejam absorvidas pelas grandes tecnológicas americanas. Por isso o projeto tem de ser competitivo em salários e em oportunidades. Mas também acreditamos que há um ir e um voltar — quem sai pode regressar.
Sustentabilidade em inteligência artificial — isso é possível?
É o que queremos provar. A IA consome muitos recursos, mas pode ser desenvolvida de forma responsável, explicável, com impacto ambiental considerado. Não é só tecnologia, é tecnologia com consciência.
E se isto funcionar em Portugal?
Muda a forma como o país vê a relação entre ciência e negócio. Deixa de ser dois mundos separados e passa a ser um ecossistema onde a investigação gera valor real.