Nosso afeto segue uma bússola colonizada que insiste em apontar para o Norte
Enquanto quase mil e quinhentas pessoas perderam a vida em terremotos na Venezuela, o Brasil respondeu com uma indiferença que diz mais sobre sua própria estrutura moral do que sobre a distância geográfica. A compaixão, como bem escasso e hierarquizado, é distribuída segundo critérios de classe, cor e passaporte — não segundo a magnitude da dor. O silêncio brasileiro diante de vizinhos soterrados revela uma bússola afetiva colonizada, que aponta para o Norte Global muito antes de olhar para o quintal.
- Quase 1.500 mortos e mais de 3.300 feridos em terremotos na Venezuela mal arranharam a consciência pública brasileira, enquanto tragédias em países ricos mobilizam minutos de silêncio e bandeiras nos perfis das redes sociais.
- A indiferença não é acidente: ela obedece a uma hierarquia aprendida, em que o código postal, a cor da pele e o passaporte determinam quanto luto público uma morte merece.
- Dentro do próprio Brasil, a lógica se repete — desastres em periferias viram estatística, enquanto tragédias em bairros abastados ganham helicóptero, plantão e pronunciamento presidencial.
- A proximidade geográfica com a Venezuela — terceira maior fronteira do Brasil — não produziu identificação; as elites brasileiras se reconhecem mais nas classes médias do Norte Global do que nos pobres vizinhos.
- A pergunta que a coluna deixa sem resposta fácil é esta: por que um povo que se orgulha de sua solidariedade continua escolhendo, em silêncio, quem merece ser chorado?
Quase mil e quinhentas pessoas morreram. Mais de três mil ficaram feridas. Dois terremotos transformaram partes da Venezuela em ruínas — e no Brasil, a resposta de muita gente foi um encolher de ombros.
Existe uma aritmética cruel na forma como repartimos compaixão. A quantidade de luto que uma tragédia recebe depende menos do número de mortos do que de quem morreu e onde. Quando o desastre acontece em país rico, vêm os minutos de silêncio, os edifícios iluminados, as bandeiras nos perfis. Quando a terra se abre no Sul Global, a reação comum é um dar de ombros, como se a dor daqueles povos fosse um acessório inevitável da vida.
Essa lógica funciona também dentro do Brasil. Quando chuva, enchente ou bala matam trabalhadores de periferia, o país trata os corpos como fatalidade, nota de rodapé. Mas quando a tragédia cruza o portão do condomínio e atinge alguém com sobrenome conhecido, tudo vira catástrofe nacional. A diferença não está no tamanho da dor — está no valor social atribuído a quem morreu.
O que se consolida é uma bolsa de valores do afeto, onde corpos pobres ou de países empobrecidos custam menos. A indignação seletiva não surge do nada: ela é ensinada todos os dias por uma sociedade que aprendeu a reconhecer humanidade plena apenas em quem se parece com seus próprios sonhos de consumo.
A explicação da proximidade geográfica desmorona quando se olha o mapa. O Brasil tem sua terceira maior fronteira com a Venezuela — está infinitamente mais perto dela do que dos Estados Unidos ou da Europa. E ainda assim, tiroteios em escolas americanas geram comoção mais rápida do que mil e quinhentos vizinhos esmagados. As classes média e alta brasileiras estão mais conectadas com as elites do Norte Global do que com a maioria pobre de sua própria população, e são elas que definem o que a sociedade considera importante.
Nosso afeto não segue a quilometragem. Segue uma bússola colonizada, que insiste em apontar para o Norte. A indiferença diante da Venezuela revela mais sobre nós do que sobre ela — e a pergunta incômoda não é por que tantos venezuelanos morreram, mas por que tantos brasileiros parecem achar que eles morreram longe demais para merecer nossa dor.
Quase mil e quinhentas pessoas morreram. Mais de três mil ficaram feridas. Dois terremotos transformaram partes da Venezuela em ruínas, enterrando vidas inteiras, histórias de famílias, futuros que não acontecerão. E no Brasil, a resposta de muita gente foi um encolher de ombros.
Existe uma aritmética cruel na forma como repartimos nossa compaixão. A sociedade distribui luto como se fosse um bem escasso, e a quantidade que cada tragédia recebe depende menos da quantidade de mortos do que de quem morreu e onde. Quando o desastre acontece em um país rico, as lágrimas vêm rápido. Vêm os minutos de silêncio, os edifícios iluminados em solidariedade, as bandeiras nos perfis das redes sociais, os discursos sobre a fragilidade da existência humana. Quando a terra se abre no Sul Global, a reação comum é um dar de ombros, como se a dor daqueles povos fosse um acessório inevitável da vida.
Essa lógica indecente funciona também dentro do Brasil. Temos um sistema de duas classes para o luto. Quando chuva, enchente, desabamento ou bala matam trabalhadores, pessoas que vivem nas periferias, gente em situação de rua ou famílias empurradas para encostas e áreas de risco, o país trata os corpos como se fossem fatalidade, número em uma estatística, nota de rodapé. Um efeito colateral do clima, da pobreza, da segurança pública. Mas quando a tragédia sobe a serra, cruza o portão do condomínio, atinge alguém com sobrenome conhecido e influência, tudo vira catástrofe nacional. A comoção ganha sirene, plantão, helicóptero, pronunciamento presidencial, mobilização do Estado. A diferença não está no tamanho da dor. Está no valor social que a sociedade atribui a quem morreu.
O que se consolida é uma bolsa de valores do afeto, onde corpos pobres, periféricos ou de países empobrecidos custam menos. O código postal, a cor da pele, o passaporte, o contracheque — esses são os indicadores que definem quanto choro público uma morte merece. A indignação seletiva não aparece do nada. Ela é ensinada todos os dias por uma sociedade que aprendeu a reconhecer humanidade plena apenas em quem se parece com seus próprios sonhos de consumo.
Psicólogos e sociólogos dirão que é natural nos comovermos mais com tragédias próximas, que a identificação depende da proximidade. Essa explicação desmorona quando se olha para o mapa. O Brasil tem sua terceira maior fronteira com a Venezuela. É nosso quintal. Está infinitamente mais perto — geográfica e culturalmente — do que os Estados Unidos ou a Europa. E ainda assim, tiroteios em escolas americanas, incêndios na Califórnia, enchentes em cidades europeias geram uma comoção muito mais rápida e visceral do que mil e quinhentos vizinhos esmagados por terremotos. As classes média e alta brasileiras estão mais conectadas com as classes média e alta do Norte Global do que com a maioria pobre de sua própria população. E como essas elites influenciam fortemente o que a sociedade considera importante, aprendemos desde cedo o que (e quem) merece atenção e o que (e quem) pode ser ignorado.
Nosso afeto não segue a quilometragem. Segue uma bússola colonizada, que insiste em apontar para o Norte. Para alguns, o mundo só dói quando a tragédia fala inglês, mora em país rico ou aparece em série de streaming. A indiferença diante da Venezuela revela mais sobre nós do que sobre ela. Mostra que, apesar de nos vendermos como povo solidário, continuamos escolhendo quem merece luto, quem merece manchete de jornal e quem pode ser enterrado no silêncio. Especialmente um país que vive uma sequência de tragédias — autoritarismo, golpes, invasão de potência estrangeira. A pergunta incômoda não é por que tantos venezuelanos morreram. Isso é fácil de responder. A pergunta é por que tantos brasileiros parecem achar que eles morreram longe demais para merecer nossa dor.
Citações Notáveis
A diferença não está no tamanho da dor, mas no valor social atribuído a quem morreu— Análise do colunista sobre a distribuição seletiva de empatia
Para alguns, o mundo só dói quando a tragédia fala inglês, mora em país rico ou aparece em série de streaming— Reflexão sobre critérios de identificação com tragédias
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que a morte de um venezuelano gera menos reação que a morte de um americano, sendo a Venezuela tão mais próxima?
Porque proximidade geográfica não é o que determina empatia. O que determina é identificação de classe. As elites brasileiras se veem nos ricos americanos, não nos pobres vizinhos.
Mas isso não é só preguiça de se informar sobre o que acontece longe?
Não. Se fosse, a gente veria mais comoção com tragédias na periferia de São Paulo do que com desastres em Nova York. Mas é o oposto.
Então você está dizendo que é intencional?
Não intencional no sentido de conspiração. É estrutural. A gente é educado desde cedo a achar que algumas vidas valem mais. E a mídia, as redes sociais, a publicidade — tudo reforça isso.
Como a gente muda isso?
Começando a notar. Começando a questionar por que um incêndio na Califórnia vira trending topic e mil e quinhentos mortos na Venezuela viram rodapé.
E se a gente simplesmente não conseguir se comover com quem está longe?
Então pelo menos seja honesto sobre isso. Não se venda como solidário enquanto escolhe quem merece luto.