Ele se tornaria responsável solidário pelos valores negociados
Em dezembro de 2019, o governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha formalizou em cartório sua participação como avalista em uma cessão de honorários de precatórios no valor de R$ 4,4 milhões a um fundo ligado ao ecossistema do Banco Master — instituição hoje sob investigação federal por suspeita de lavagem de dinheiro. A transação, uma entre três que somam R$ 52,9 milhões, conecta o chefe do Executivo distrital a uma rede financeira cujos operadores aparecem em apurações da Polícia Federal. O que estava em jogo não era apenas liquidez jurídica, mas a teia de relações entre poder público, advocacia privada e capital investigado.
- Ibaneis Rocha assinou como avalista em contrato de cessão de honorários com fundo cujo representante está sob investigação da Polícia Federal por possível lavagem de dinheiro.
- As três operações envolvendo o escritório do governador somam R$ 52,9 milhões — escala que transforma o que poderia ser rotina jurídica em padrão digno de escrutínio.
- O fundo comprador era administrado pela Planner, controlada por sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, e representado por diretor ligado à capitalização bilionária do Banco Master.
- A Polícia Federal examina essas conexões no âmbito da operação Compliance Zero, investigando lavagem de dinheiro no setor financeiro.
- O escritório e a Planner defendem a legalidade das operações, mas a pergunta central permanece sem resposta pública: por que o governador de um estado vendia direitos a fundos de um banco hoje investigado?
Em dezembro de 2019, Ibaneis Rocha — então já governador do Distrito Federal — assinou um contrato vinculando seu escritório de advocacia a um fundo de investimento chamado BLP PCJ VII, administrado pela Planner Corretora. O objeto era a venda de direitos sobre R$ 4,4 milhões em honorários de precatórios, antecipando valores que poderiam levar anos para serem pagos. Rocha não figurou apenas como credor: assinou também como avalista, tornando-se solidariamente responsável pelo cumprimento do acordo. A assinatura foi reconhecida em cartório em 23 de dezembro daquele ano.
O que confere peso à transação é quem estava do outro lado. A Planner era controlada por Maurício Quadrado, que meses depois se tornaria sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O fundo foi representado por Artur Martins de Figueiredo, diretor ligado a uma empresa que ajudou a capitalizar o Master com bilhões de reais — e que hoje está sob investigação da Polícia Federal. Figueiredo também aparece como diretor da holding Banvox, que chegou a ser acionista do banco.
Esse contrato não estava isolado. Somado a outros dois acordos similares revelados anteriormente, o total das cessões de honorários envolvendo o escritório — hoje administrado pelo filho do governador, Caio Barros — chega a R$ 52,9 milhões. O escritório afirma ter recebido cerca de R$ 12 milhões efetivamente, dado o desconto típico nesse tipo de operação.
Tanto o escritório quanto a Planner defendem a legalidade das transações, descrevendo-as como prática corrente no mercado jurídico. A Polícia Federal, no entanto, investiga as conexões desse ecossistema financeiro no âmbito da operação Compliance Zero. O padrão que emerge — um governador vendendo direitos a fundos ligados a um banco investigado por lavagem de dinheiro, em operações que somam dezenas de milhões — é o que as autoridades agora buscam compreender.
Em dezembro de 2019, o governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha assinou um documento que o ligaria a uma transação financeira envolvendo seu escritório de advocacia e um fundo de investimento. O contrato previa a venda de direitos sobre R$ 4,4 milhões em honorários de precatórios — valores que a advocacia teria direito a receber em processos judiciais — a um fundo chamado BLP PCJ VII, administrado pela Planner. À época, a corretora era controlada por Maurício Quadrado, que poucos meses depois se tornaria sócio do banqueiro Daniel Vorcaro.
O que torna essa transação relevante não é apenas seu tamanho ou sua natureza técnica. O fundo foi representado na negociação por Artur Martins de Figueiredo, um diretor que aparece em registros como responsável por uma empresa que ajudou a capitalizar o Banco Master com bilhões de reais. Essa mesma empresa está sob investigação da Polícia Federal. Figueiredo também figura nas apurações como diretor da holding Banvox, que em algum momento foi acionista do banco. A conexão entre o governador e esse ecossistema financeiro, portanto, não era acidental ou periférica — estava formalizada em cartório.
O contrato em questão tratava especificamente de honorários ligados a uma ação movida pelo Sindicato dos Servidores da Justiça do Trabalho de Rondônia e Acre, um processo em tramitação desde 2011. Nesse tipo de operação, comum no mercado jurídico, escritórios de advocacia vendem a terceiros o direito de receber honorários futuros, antecipando valores que podem levar anos para serem efetivamente pagos. É uma forma de obter liquidez imediata, ainda que com desconto.
Rocha não apenas assinou como credor nessa transação. O documento indica que ele atuou também como avalista, o que significa que se tornaria responsável solidário pelos valores negociados caso seu escritório não cumprisse o acordo. Sua assinatura foi reconhecida em cartório no 1º Ofício de Notas e Protesto de Brasília em 23 de dezembro de 2019. Outros avalistas incluíam a empresa Ibaneis Agropecuária e Administradora de Bens Patrimoniais, além de dois sócios do escritório à época, Marlúcio Lustosa Bonfim e Johann Homonnai Júnior.
Esse contrato não foi isolado. Somados a outros dois acordos similares revelados anteriormente, os três contratos envolvendo o escritório ligado ao governador totalizam R$ 52,9 milhões em cessões de honorários. O escritório, atualmente administrado pelo filho de Rocha, Caio Barros, afirma ter recebido cerca de R$ 12 milhões nessas operações, já que os títulos são tipicamente vendidos com desconto substancial.
A existência dessas transações reforça um padrão investigativo mais amplo. Fundos e gestoras ligados ao chamado ecossistema do Banco Master aparecem não apenas nesse contrato, mas também nas investigações da operação Compliance Zero e em apurações sobre lavagem de dinheiro no setor financeiro. A Polícia Federal está examinando essas conexões.
Quando questionado, o escritório respondeu que o contrato representa um negócio jurídico regular e lícito, reiteradamente praticado no mercado por escritórios de advocacia, credores da Fazenda Pública e instituições financeiras como forma de abreviar o recebimento de valores com deságio. A Planner, por sua vez, declarou que a operação ocorreu em conformidade com a regulamentação vigente à época e que atuou apenas como representante legal do fundo, sem participar de intermediação entre as partes.
O que permanece em questão é o padrão mais amplo: por que o governador de uma unidade federativa estava vendendo direitos de honorários a fundos ligados a um banco sob investigação federal por possível lavagem de dinheiro, e por que essas operações somavam dezenas de milhões de reais.
Citações Notáveis
Negócio jurídico regular, lícito e reiteradamente praticado no mercado por escritórios de advocacia, credores da Fazenda Pública e instituições financeiras— Escritório de advocacia ligado a Ibaneis Rocha, em resposta ao Globo
Atuou apenas como representante legal do fundo BLP PCJ VII, não tendo participado de qualquer tipo de intermediação entre as partes— Planner, em nota
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esse contrato de 2019 importa agora, em 2026?
Porque mostra uma conexão entre o governador e o ecossistema do Banco Master que vai além de uma transação isolada. Quando você vê três contratos somando R$ 52,9 milhões, começa a parecer um padrão, não um acaso.
Mas vender direitos de honorários é prática comum, certo?
Completamente comum. O problema não é a prática em si. É quem está comprando. O fundo foi representado por alguém que ajudou a capitalizar um banco que a PF está investigando por lavagem de dinheiro.
Rocha sabia disso na época?
Não há como saber o que ele sabia em 2019. Mas ele assinou como avalista, o que significa que ele se tornaria pessoalmente responsável se algo desse errado. Isso sugere pelo menos que ele estava ciente da transação e de suas implicações.
E o filho dele administra o escritório agora?
Sim. O que levanta questões sobre continuidade e controle. Se o pai era avalista e sócio, e agora o filho administra, há uma linha clara de responsabilidade.
A Planner disse que apenas representou o fundo. Isso a isenta?
Não necessariamente. Representar um fundo significa que você conhece as partes envolvidas e a natureza da transação. Se o fundo estava ligado a atividades sob investigação, a Planner estava no meio disso.
O que vem a seguir?
Depende do que a PF encontra nas investigações sobre o Banco Master e seu ecossistema. Se encontrarem evidências de lavagem de dinheiro, essas transações com o governador podem ganhar novo significado.