IA física será a próxima revolução, prevê Arlindo Oliveira; Europa pode competir

A próxima revolução será dos robôs que andam nas ruas
Arlindo Oliveira descreve a IA física como o próximo grande salto tecnológico, já visível na China.

No Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Arlindo Oliveira, presidente do INESC, colocou diante do presente uma questão que pertence ao futuro: a próxima grande revolução tecnológica não será feita de palavras geradas por máquinas, mas de corpos que se movem no mundo. A China já avança com robôs nas ruas e nas fábricas, enquanto a Europa hesita entre a deliberação democrática e a urgência estratégica. No horizonte desta transformação, Oliveira recorda que nenhuma ferramenta substitui o pensamento — e que o pensamento, sem conhecimento, é apenas ruído.

  • A IA física — robôs que servem café, limpam cidades e trabalham lado a lado com humanos — está a emergir como a próxima fronteira tecnológica, e a China já leva vantagem significativa.
  • Enquanto os EUA dominam a IA generativa, a Europa arrisca ficar para trás em ambas as frentes se não escolher com precisão onde concentrar os seus esforços.
  • Oliveira alerta que tentar rivalizar com a OpenAI ou a Anthropic é uma batalha perdida, mas competir em robótica com a Tesla é um terreno onde a Europa ainda tem terreno a defender.
  • A soberania tecnológica europeia está em causa: depender de centros de dados estrangeiros ou geridos por multinacionais americanas é, na visão do presidente do INESC, uma vulnerabilidade estratégica inadmissível.
  • Por baixo do debate sobre robôs e modelos, emerge uma preocupação mais silenciosa: a dependência crescente da IA pode atrofiar o pensamento humano, tornando a educação crítica e o conhecimento fundamental mais urgentes do que nunca.

Na Conferência .IA organizada pelo ECO, no Centro Cultural de Belém, Arlindo Oliveira, presidente do INESC, traçou um mapa da próxima revolução tecnológica com uma clareza que poucos esperam dos académicos: o futuro não pertence aos chatbots, mas aos robôs. A IA física — máquinas que habitam o espaço humano, que servem, limpam e produzem — é, na sua leitura, o próximo grande salto. E a China, com o seu planeamento centralizado, energia barata e população massiva, já está muito à frente.

A questão europeia é mais delicada. Oliveira não acredita que a Europa deva tentar imitar os líderes da IA generativa — essa corrida parece perdida. Mas em robótica, onde o continente acumulou décadas de investigação de qualidade, a distância para empresas como a Tesla é menor e a oportunidade é real. O desafio é a velocidade: a Europa discute, delibera, chega a consensos — um processo valioso, mas lento num mundo que não espera.

Há, porém, uma linha vermelha que Oliveira traça sem hesitação: a autonomia estratégica em infraestruturas digitais. Depender de centros de dados estrangeiros não é apenas uma desvantagem competitiva — é uma questão de soberania. E por baixo de toda a conversa sobre máquinas, persiste uma preocupação mais humana: à medida que delegamos o pensamento à IA, arriscamos perder a capacidade de pensar. O espírito crítico, lembra Oliveira, não nasce do nada — exige conhecimento real, compreensão profunda. A educação, neste contexto, não é um luxo. É a fundação de tudo o resto.

Para Portugal, a proposta é modesta mas concreta: usar as melhores tecnologias disponíveis para modernizar o Estado e torná-lo mais eficiente. Não é uma ambição de liderança global, mas um caminho pragmático — e talvez seja precisamente aí que a Europa encontre o seu lugar nesta nova era.

A próxima grande transformação da inteligência artificial não virá dos chatbots ou dos modelos de linguagem que dominam as conversas sobre tecnologia nos últimos anos. Virá dos robôs. Essa é a convicção de Arlindo Oliveira, presidente do INESC, que apresentou esta visão na Conferência .IA, organizada pelo ECO, realizada esta terça-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Enquanto os Estados Unidos consolidam a sua liderança nos modelos de IA generativa, a China já está muito à frente no desenvolvimento de robôs que interagem com seres humanos — máquinas que servem café nas ruas, limpam espaços públicos, trabalham nas fábricas lado a lado com pessoas. Esta é a IA física, e Oliveira acredita que ela representará o próximo grande salto tecnológico, embora seja impossível prever com precisão quando isso se materializará completamente. Poderá ser em cinco anos, em dez, ou talvez demore três décadas.

A questão que se coloca é se a Europa, atualmente atrás tanto dos EUA como da China, consegue encontrar o seu espaço nesta corrida. Oliveira argumenta que sim, mas com uma estratégia diferente. A Europa tem vantagens competitivas reais — décadas de investigação robótica de qualidade, laboratórios de excelência, conhecimento acumulado. O erro, na sua perspetiva, seria tentar competir diretamente com a Anthropic ou a OpenAI nos modelos de IA generativa, uma batalha que parece já perdida. Mas competir com empresas como a Tesla ou a SpaceX em robótica e IA física é uma proposta diferente, onde o continente europeu não está tão distante. "Como o próximo grande salto vai ser a IA física, os robôs no mundo real, será que a Europa se podia posicionar?", questiona Oliveira. A resposta que oferece é pragmática: sim, se escolher o seu terreno com cuidado.

A China tem as suas próprias vantagens — uma população massiva, energia barata, e crucialmente, um planeamento centralizado que permite decisões estratégicas rápidas e coordenadas. O governo chinês definiu claramente no seu último programa quinquenal, há apenas três meses, que a IA não é apenas importante, mas é o motor central da economia do futuro. Esta clareza estratégica vem depois de documentos anteriores, incluindo o Plano Quinquenal de 2016, que já identificava a robótica como tecnologia do futuro. O resultado é visível: a China está agora muito mais avançada que o resto do mundo em robótica. A Europa, por contraste, não é uma ditadura. Discute profundamente todos os assuntos, chega a conclusões, mas o processo é mais lento. Se essa abordagem é competitiva num mundo em mudança tão rápida é, como Oliveira reconhece, outra questão inteiramente.

Mas há uma área onde Oliveira é categórico: a Europa precisa de autonomia estratégica em infraestruturas críticas, particularmente em centros de dados. O continente não pode depender de centros de dados estrangeiros, nem de centros europeus geridos por multinacionais americanas. Esta é uma questão de soberania tecnológica que vai muito além da competição comercial. É sobre a capacidade de tomar decisões independentes num mundo cada vez mais digital.

Antes de abordar a robótica, Oliveira tinha expressado preocupações mais profundas sobre o impacto da IA no pensamento humano. À medida que recorremos cada vez mais a sistemas de inteligência artificial, corremos o risco de perder capacidades cognitivas — uma atrofia mental causada pela dependência de ferramentas que pensam por nós. O sistema educativo terá de se adaptar, assim como todos nós. Mas há um ponto que Oliveira sublinha com insistência: o espírito crítico não é mágico. Ninguém desenvolve pensamento crítico sem saber realmente do que está a falar. É preciso conhecimento fundamental, compreensão profunda, antes de se poder questionar com inteligência. A educação, portanto, não pode ser negligenciada nesta transição para um mundo dominado pela IA.

Para Portugal especificamente, Oliveira defende uma visão estratégica clara: usar as melhores tecnologias disponíveis e o melhor conhecimento local para modernizar o Estado, tornando-o mais eficiente. Não é uma proposta grandiosa de liderança global, mas uma abordagem pragmática de melhoria interna. É neste tipo de aplicação prática, talvez, que a Europa e Portugal possam encontrar o seu caminho — não competindo pela supremacia tecnológica absoluta, mas usando a tecnologia de forma inteligente para resolver problemas reais.

A próxima grande revolução da IA poderá ser a IA física. Robôs a andar pelas ruas, robôs nas fábricas, robôs que interagem com seres humanos
— Arlindo Oliveira, presidente do INESC
Não podemos estar dependentes de centros de dados estrangeiros e centros de dados europeus geridos por multinacionais americanas
— Arlindo Oliveira
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Quando diz que a IA física será a próxima revolução, está a falar de algo que já existe ou de algo que ainda não vimos?

Model

Já existe, mas de forma limitada. A China tem robôs nas ruas agora, a servir café, a limpar. O que não sabemos é quando isso se tornará verdadeiramente ubíquo, transformador. Podia ser em cinco anos ou em trinta.

Inventor

Porque é que a China está tão à frente nisto?

Model

Porque o governo decidiu, há anos, que isto era o futuro. Planeamento centralizado, investimento coordenado, visão de longo prazo. Eles definiram claramente que a IA é o motor da economia do futuro. Nós na Europa discutimos, deliberamos, e às vezes chegamos a conclusões. Mas o processo é mais lento.

Inventor

Isso significa que a Europa perdeu?

Model

Não necessariamente. A Europa não pode vencer competindo com a OpenAI ou a Anthropic. Mas em robótica? Com a Tesla ou a SpaceX? Aí o fosso não é tão grande. Temos investigação de qualidade, laboratórios de excelência. Podemos escolher o nosso terreno.

Inventor

Qual é a sua maior preocupação neste momento?

Model

Duas coisas. Primeiro, que dependemos de centros de dados geridos por multinacionais americanas. Isso é um problema de soberania. Segundo, que ao usarmos cada vez mais IA, podemos estar a atrofiar as nossas capacidades cognitivas. Perder a capacidade de pensar criticamente.

Inventor

Mas o espírito crítico não é suficiente?

Model

Não é mágico. Ninguém tem espírito crítico se não sabe do que está a falar. Precisa de conhecimento fundamental. A educação não pode ser negligenciada nesta transição.

Inventor

E para Portugal, o que propõe?

Model

Uma visão estratégica simples: usar as melhores tecnologias e o melhor conhecimento que temos para modernizar o Estado, torná-lo mais eficiente. Não é ambição de liderança global, é pragmatismo.

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