IA do Rio causa controvérsia por omitir créditos a laboratório chinês

Faltou transparência no caminho correto para o Brasil
Especialista avalia que o projeto tinha mérito institucional, mas pecou na comunicação honesta sobre sua composição técnica.

Na semana do Web Summit Rio, a prefeitura carioca anunciou com entusiasmo um modelo de inteligência artificial próprio, invocando soberania tecnológica e engenharia brasileira — mas a celebração durou pouco. O que se apresentava como criação original revelou-se, em grande parte, uma fusão de modelos alheios sem os devidos créditos, expondo uma tensão antiga entre o desejo institucional de protagonismo e as exigências éticas da cultura do código aberto. O episódio não apaga o mérito de integrar ferramentas abertas ao serviço público, mas lembra que, no ecossistema digital, a transparência não é detalhe — é fundamento.

  • A prefeitura do Rio lançou o Rio Open 3.5 com números grandiosos e promessas de soberania digital, mas a narrativa entrou em colapso dois dias depois quando o laboratório chinês Nex-AGI denunciou que 60% do modelo era deles, sem qualquer crédito.
  • O modelo chegava a se identificar como 'Nex' quando consultado sem instruções embutidas — uma inconsistência que expôs a diferença entre o que foi anunciado e o que foi entregue.
  • Especialistas desmontaram a alegação de 'fine tuning' sofisticado: o que o IplanRio fez foi uma fusão simples de pesos, operação trivial que não exige pesquisa original nem poder computacional expressivo.
  • Além da questão de atribuição, pesquisadores criticaram a ausência total de documentação — sem datasets, artigos ou relatórios técnicos, o projeto não contribui para o avanço da comunidade de IA.
  • O IplanRio admitiu erro operacional, pediu desculpas e prometeu publicar a versão final com créditos adequados e conformidade com as normas do software livre — mas o dano à credibilidade já estava feito.

Na sexta-feira seguinte ao Web Summit Rio, a prefeitura lançou o Rio Open 3.5 com números que impressionavam: 397 bilhões de parâmetros, superioridade declarada sobre concorrentes chineses em programação e raciocínio, e o prefeito Eduardo Cavaliere celebrando nas redes a chegada da engenharia brasileira ao centro do futuro tecnológico.

No domingo, o laboratório chinês Nex-AGI desfez a narrativa. Sua análise mostrou que 60% do modelo vinha do Nex-N2-Pro e apenas 40% do Qwen — ao contrário do que a documentação indicava. Pior: quando perguntado sobre sua identidade sem instruções embutidas, o sistema se apresentava como 'Nex', não como criação carioca.

A controvérsia técnica aprofundou o problema. O IplanRio havia descrito o processo como 'fine tuning', técnica cara e complexa. Pesquisadores como Nikolas Kluge, da Universidade de Bonn, esclareceram que o que foi feito era uma fusão de pesos — operação simples, sem pesquisa sofisticada, executável com bibliotecas prontas. A prefeitura havia, essencialmente, trocado o rótulo da embalagem.

O IplanRio admitiu falha operacional: arquivos de testes preliminares foram publicados por engano no lugar da versão final. Prometeu revisar seus fluxos de governança e publicar o modelo correto com créditos transparentes. Especialistas reconheceram o mérito institucional de integrar ferramentas abertas ao serviço público, mas sublinharam que faltou o essencial — atribuição adequada e documentação completa. O que começou como celebração terminou como lição sobre os compromissos inegociáveis do ecossistema de código aberto.

Na sexta-feira, um dia após o encerramento do Web Summit Rio, a prefeitura da cidade lançou o Rio Open 3.5, um modelo de inteligência artificial que rapidamente chamou atenção pelos números impressionantes: 397 bilhões de parâmetros matemáticos, superando em escala o GPT 3.5, já considerado obsoleto, que possuía 175 bilhões. Os testes divulgados pela administração municipal apontavam superioridade em relação a concorrentes chineses como o Qwen e o DeepSeek V4, especialmente em programação, matemática e raciocínio. O prefeito Eduardo Cavaliere celebrou a conquista nas redes sociais, falando em soberania tecnológica e engenharia brasileira no centro do futuro.

No domingo, porém, a narrativa desabou. O laboratório chinês Nex-AGI acusou o projeto carioca de apropriação intelectual sem créditos. A documentação do Rio Open 3.5 indicava que havia usado apenas o Qwen3.5-397B como base, mas a análise dos chineses revelou que 60% do modelo vinha do Nex-N2-Pro, enquanto 40% era do Qwen. Mais grave ainda: quando um usuário perguntava ao modelo "quem é você", ele se apresentava como "Rio 3.5, uma criação do Rio AI Labs", uma instrução embutida que mascarava sua verdadeira composição. Sem essa instrução, o sistema se identificava como "Nex".

A questão técnica também era problemática. O IplanRio havia apresentado o projeto como resultado de "fine tuning", um processo custoso e complexo de retreinamento de modelos existentes. A Nex-AGI contestou: o Rio 3.5 era apenas uma fusão de pesos, uma operação simples que alinha parâmetros de dois modelos, soma-os e divide por dois. Nikolas Kluge, pesquisador brasileiro da Universidade de Bonn reconhecido pelo desenvolvimento da família de modelos Tucano, explicou a diferença com clareza. O fine tuning exige investimento computacional pesado e risco de danificar o modelo original. A fusão, ao contrário, é trivial — existem bibliotecas prontas para isso, não demanda pesquisa sofisticada nem poder computacional significativo. O que a prefeitura havia feito era, essencialmente, mudar o rótulo da embalagem.

O IplanRio admitiu falha. Em nota ao GLOBO, a empresa pública carioca de informática afirmou que houve erro operacional durante a publicação na plataforma Hugging Face: foram enviados arquivos de testes da fusão preliminar em vez da versão final refinada. Esse lapso fez o modelo temporariamente disponibilizado responder com traços da base de dados original da Nex-AGI. A instituição disse que revisaria seus fluxos internos de governança e publicação, e que a equipe técnica trabalhava no upload da versão final.

Especialistas apontaram problemas mais profundos. Leo Candido, AI First Transformation Manager na Artefact, disse que o maior problema foi não creditar a Nex, que constituía o grosso do modelo. Faltou transparência. Kluge acrescentou que o projeto também não disponibilizou a documentação necessária para replicação e estudo — nenhum dataset, nenhum artigo científico, nenhum relatório técnico detalhado. Publicar apenas o modelo, sem esses elementos, não ajuda a comunidade de IA. Laboratórios como Allen AI e DeepSeek publicam manuais completos de como o treinamento foi feito. O caminho de usar modelos abertos é correto para o Brasil, reconheceu Candido, mas é preciso calibrar as expectativas. O mérito institucional existe — uma secretaria municipal colocando um modelo desse porte no ar em tempos de discussão sobre soberania digital. Mas o mérito estava em integrar ferramentas abertas, não em criar uma capacidade nova.

Com a repercussão na comunidade de IA, o IplanRio alterou a página do GitHub onde havia postado o modelo. Pediu desculpas pela "confusão" e afirmou que divulgaria a versão final "assim que possível". A instituição reiterou seu compromisso com transparência e respeito às normas da comunidade global de software livre. O Rio 3.5, segundo a nota, foi concebido para gerar retornos práticos para a gestão pública — otimização de sistemas de atendimento, triagem de chamados, suporte à saúde — e assegurar soberania tecnológica eliminando dependência de licenças caras em moeda estrangeira. O que começou como celebração de inovação terminou como lição sobre a importância de atribuição adequada e documentação completa no ecossistema de código aberto.

O custo associado ao fine tuning é muito grande e há chance de você quebrar o modelo original. A fusão é o contrário. Você não perde nada, só muda o rótulo da embalagem.
— Nikolas Kluge, pesquisador brasileiro da Universidade de Bonn
O maior problema do IplanRio foi não creditar a Nex, que é o grosso do modelo. Faltou transparência.
— Leo Candido, AI First Transformation Manager na Artefact
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que exatamente a omissão de créditos importa tanto em um projeto de código aberto? Não era tudo baseado em modelos já públicos?

Model

Sim, mas há uma diferença entre usar ferramentas abertas e ser honesto sobre o que você fez com elas. Se você combina dois modelos e não diz que fez isso, está enganando a comunidade sobre o que é seu trabalho e o que é trabalho de outros. É uma questão de integridade intelectual.

Inventor

Mas a prefeitura disse que foi um erro operacional, não intencional. Isso muda algo?

Model

Muda a intenção, talvez, mas não muda o dano. O modelo foi apresentado ao mundo com uma narrativa falsa — de que era resultado de treinamento sofisticado quando era apenas uma fusão. E quando o usuário perguntava "quem é você", o sistema mentia. Isso não é acidente, é design.

Inventor

A técnica em si — a fusão de modelos — é tão simples assim?

Model

Tão simples que qualquer pessoa com conhecimento básico consegue fazer. É por isso que o problema não é técnico, é de comunicação. Se você disser "fizemos uma fusão de dois modelos abertos", ninguém reclama. Você diz a verdade, respeita as licenças, segue em frente. Mas dizer que fez fine tuning, que é muito mais complexo, quando na verdade fez uma fusão — isso é enganoso.

Inventor

E a questão da soberania tecnológica que o prefeito mencionou? Isso fica comprometido?

Model

Não necessariamente. O Brasil pode usar código aberto e construir coisas úteis. Mas soberania real exige transparência. Se você esconde o que fez, não está sendo soberano, está sendo opaco. A comunidade de IA global funciona porque as pessoas confiam que os créditos são dados corretamente. Quebrar essa confiança prejudica todo mundo, inclusive quem tentava fazer algo bom.

Inventor

O que deveria ter acontido desde o início?

Model

Documentação completa. Dataset. Relatório técnico explicando cada passo. Créditos claros. E honestidade sobre o que era novo e o que era reutilizado. Isso não diminuiria o valor do projeto — na verdade, aumentaria, porque mostraria que a prefeitura sabe o que está fazendo.

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