Internações por alergia crescem 47% no Grande ABC em 2026

Alergias respiratórias causam mais de 450 mil mortes anuais no mundo; internações crescentes indicam agravamento do quadro de saúde pública na região.
Ele se acostuma a respirar mal e acha que isso é normal
Reflexão de especialista sobre como pacientes ignoram sintomas de asma alérgica até que se tornam crônicos.

O Grande ABC registrou 273 internações por alergia no primeiro quadrimestre de 2026, um aumento de 47% comparado ao mesmo período de 2025. Asma alérgica representa 91% das internações; especialistas apontam mudanças climáticas, urbanização e maior uso de produtos químicos como fatores determinantes.

  • 273 internações por alergia no primeiro quadrimestre de 2026 no Grande ABC, 47% acima de 2025
  • Asma alérgica representa 91% das internações na região
  • Alergias afetam 30% da população mundial hoje; OMS projeta 50% até 2050
  • Asma alérgica causa mais de 450 mil mortes anuais globalmente

Hospitalizações por alergia aumentaram 47% no primeiro quadrimestre de 2026 no Grande ABC, com 273 casos contra 186 em 2025. Mudanças climáticas e urbanização são apontadas como principais causas do crescimento.

Os hospitais do Grande ABC estão recebendo mais pacientes com crises alérgicas do que nunca. Nos primeiros quatro meses de 2026, foram registradas 273 internações por alergia — um salto de 47% em relação aos mesmos meses de 2025, quando havia 186 casos. O número é preocupante o suficiente para que a Organização Mundial de Alergia tenha designado a semana de 21 a 27 de junho como período de alerta global sobre doenças alérgicas, que hoje afetam cerca de 30% da população mundial.

O crescimento não é acidental. Especialistas apontam as mudanças climáticas como o motor principal dessa expansão. A urbanização desenfreada — menos árvores, mais concreto — transforma o clima local em algo mais seco e hostil. Quando a terra desaparece sob o asfalto, ela deixa de absorver água, e o cimento não faz esse trabalho. O resultado é que partículas de poluição permanecem suspensas no ar e depositadas nas superfícies, alterando fundamentalmente como o sistema imunológico das pessoas reage a essas substâncias. Roberta Fachini Jardim Criado, alergista e imunologista que leciona na Faculdade de Medicina do ABC, explica que esse fenômeno não se limita às alergias respiratórias — afeta todas as formas de reação alérgica.

A alergia, em sua essência, é um equívoco do corpo. O sistema imunológico identifica substâncias inofensivas — poeira, mofo, pelos de animais, certos alimentos, medicamentos — como ameaças graves e monta uma resposta desproporcional. Entre as internações registradas no Grande ABC em 2026, 91% foram causadas por asma alérgica, a forma mais severa de alergia respiratória. Globalmente, a asma alérgica afeta aproximadamente 260 milhões de pessoas e é responsável por mais de 450 mil mortes a cada ano. No Brasil, dados do Estudo Internacional de Asma e Alergias na Infância indicam que cerca de 20% da população sofre com a condição.

Mas há mais na história do que apenas o clima. Roberta aponta mudanças comportamentais e de consumo que amplificam o problema. Uma menina de 11 anos hoje usa tantos produtos de skincare quanto uma mulher adulta usava uma geração atrás. Os alimentos ultraprocessados, além de aumentarem riscos de câncer e outras doenças, carregam mais alérgenos em sua composição. Esses fatores, somados à predisposição genética que muitas pessoas herdam, criam um ambiente perfeito para o surgimento e agravamento de alergias.

Os sintomas da asma alérgica são claros: falta de ar, chiado no peito, tosse seca especialmente à noite, sensação de cansaço e aperto na região do tórax. Existem também alergias oculares como conjuntivite alérgica, alergias de pele como dermatite de contato e urticária, e alergias alimentares que provocam reações gastrointestinais. Roberta nota que algumas formas de alergia — como urticária grave — podem ser tão severas quanto a asma, mas recebem menos atenção porque as alergias respiratórias são mais amplamente reconhecidas.

A prevenção é possível, embora limitada. Controlar a higiene do ambiente residencial é a medida mais importante: manter a casa e a roupa de cama limpas, evitar cortinas e almofadas que acumulam ácaros, e afastar animais de estimação que funcionam como fontes de alérgenos. Mas uma vez que a doença se instala, apenas o tratamento contínuo e medicamentoso funciona. Roberta observa que muitos pacientes abandonam o acompanhamento, permitindo que as crises se tornem recorrentes. Há uma tendência perigosa de normalizar os sintomas: alguém que sente dificuldade para subir escadas simplesmente passa a usar o elevador, acostumando-se a respirar mal e interpretando isso como normal.

A Organização Mundial da Saúde estima que, se as tendências atuais continuarem, as alergias afetarão 50% da população mundial até 2050. A Semana Mundial da Alergia deste ano, organizada no Brasil pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, traz o tema "Cuidado com a Alergia é Cuidado Essencial" — um reconhecimento de que a prevenção, o diagnóstico e o tratamento adequado não são luxos, mas necessidades urgentes de saúde pública.

Com menos árvores e mais asfalto, o clima fica seco, pois a terra absorve a água e o cimento não. Dessa forma, o material particulado permanece nas superfícies e suspenso no ar.
— Roberta Fachini Jardim Criado, alergista e imunologista
Muitos pacientes não fazem o acompanhamento e as crises acabam sendo recorrentes. A asma é ignorada porque, muitas vezes, ao sentir dificuldade para subir escada, o portador opta pelo elevador e não dá atenção ao sintoma.
— Roberta Fachini Jardim Criado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o Grande ABC está vendo esse aumento tão dramático agora, em 2026? Isso é uma tendência que começou há anos?

Model

Sim, mas o que estamos vendo é uma aceleração. As mudanças climáticas e a urbanização não são novas, mas seus efeitos sobre a saúde respiratória estão se tornando inegáveis. O que mudou é que agora temos números que comprovam isso — 47% em um ano é um sinal de que algo está se movimentando rapidamente.

Inventor

A maioria das internações é por asma alérgica. Por que essa forma específica de alergia é tão mais grave que as outras?

Model

A asma alérgica afeta as vias respiratórias, que são literalmente como você respira. Quando inflamam, você não consegue ar. Urticária é terrível, mas você não morre por falta de oxigênio. A asma mata — 450 mil pessoas por ano no mundo. É por isso que recebe mais atenção.

Inventor

Você mencionou que as pessoas se acostumam a respirar mal. Como alguém não percebe que está doente?

Model

É mais comum do que você imagina. Se você cresce com dificuldade para respirar, você não sabe o que é respirar bem. Você acha que todo mundo sente aquele aperto no peito, aquele cansaço. Você evita escadas, evita exercício, e chama isso de preguiça ou envelhecimento. Ninguém te ensinou que era asma.

Inventor

A genética importa muito aqui, certo? Então nem tudo é culpa do clima e da poluição?

Model

A genética te coloca no jogo, mas o ambiente decide se você vai jogar ou não. Você pode herdar a predisposição, mas se viver em um lugar limpo, com ar puro, talvez nunca desenvolva a doença. Agora, se vive em uma cidade quente, seca, poluída, com menos árvores — aí a genética acorda.

Inventor

O que as pessoas podem realmente fazer? Limpar a casa não vai parar as mudanças climáticas.

Model

Verdade. A limpeza é uma medida de sobrevivência pessoal, não uma solução. O que precisamos é de cidades mais verdes, menos concreto, melhor qualidade do ar. Mas enquanto isso não acontece, você controla o que pode controlar — seu ambiente imediato, seu tratamento contínuo, seu acompanhamento médico.

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