A válvula esquecida que mata silenciosamente
A válvula tricúspide Evoque foi implantada com sucesso em procedimento menos invasivo, permitindo recuperação em três dias. A insuficiência tricúspide é subdiagnosticada e afeta principalmente idosos, causando cansaço, inchaço e falta de ar.
- Terceiro implante da válvula tricúspide Evoque no Brasil, primeiro na rede privada
- Procedimento minimamente invasivo com internação de aproximadamente três dias
- Condição afeta principalmente idosos e está associada a insuficiência cardíaca e hipertensão pulmonar
- Sintomas incluem cansaço intenso, inchaço nas pernas e abdômen, e falta de ar
Hospital Sírio-Libanês realizou o terceiro implante da válvula tricúspide Evoque no Brasil, primeiro na rede privada, usando técnica minimamente invasiva para tratar insuficiência cardíaca.
No lado direito do coração, uma válvula pequena e frequentemente negligenciada controla o fluxo de sangue. Quando ela falha em se fechar completamente — uma condição chamada insuficiência ou regurgitação tricúspide — o sangue volta para trás, prejudicando a circulação e deixando o corpo inteiro em desordem. O cansaço vira companheiro constante. As pernas incham. O abdômen fica distendido. A respiração fica pesada. E durante anos, muitos pacientes vivem com esses sintomas sem saber exatamente o que os causa.
Em junho de 2026, o Hospital Sírio-Libanês marcou um ponto de virada ao realizar o terceiro implante da válvula tricúspide Evoque no Brasil — e o primeiro na rede privada do país. Os dois procedimentos anteriores haviam acontecido exclusivamente no Sistema Único de Saúde. Esse novo caso representa não apenas um número em um registro médico, mas uma expansão do acesso a uma tecnologia que, até pouco tempo, era praticamente desconhecida fora dos centros públicos de excelência.
A válvula tricúspide ganhou um apelido pouco lisonjeiro na medicina: a "válvula esquecida". O subdiagnóstico é generalizado. Médicos não a procuram com frequência. Pacientes não sabem que ela existe. Mas a realidade é que essa estrutura negligenciada está associada a uma mortalidade significativa e a uma degradação severa da qualidade de vida. A condição é mais comum em idosos, particularmente em mulheres, e frequentemente surge como consequência do envelhecimento, de alterações em outras válvulas cardíacas, ou de doenças como insuficiência cardíaca e hipertensão pulmonar.
O que torna esse implante notável é a forma como foi feito. A técnica tradicional de cirurgia aberta para reparar ou substituir a válvula tricúspide carrega riscos elevados — especialmente para pacientes já frágeis ou com comorbidades que os tornam candidatos de alto risco cirúrgico. O procedimento por cateter, em contraste, é minimamente invasivo. Não requer abrir o peito. O médico guia um cateter através dos vasos sanguíneos até o coração, posiciona a válvula no lugar certo, e a deixa funcionar. O tempo de internação cai para cerca de três dias. A recuperação é mais rápida. O impacto no corpo é menor.
Henrique Barbosa Ribeiro, cardiologista do Sírio-Libanês, descreveu a situação com clareza: o tratamento cirúrgico tradicional da válvula tricúspide é arriscado demais para muitos pacientes. Os procedimentos por cateter abrem uma porta que estava fechada. Para pessoas que historicamente tinham opções limitadas — ou nenhuma opção — essa tecnologia representa uma mudança real. Não é apenas um avanço técnico. É a diferença entre viver com sintomas debilitantes e recuperar uma vida funcional.
O que torna esse caso ainda mais significativo é que ele ocorreu na rede privada. Até agora, a inovação em válvulas cardíacas havia ficado concentrada no SUS, onde centros de referência como o Instituto do Coração em São Paulo desenvolvem e refinam essas técnicas. Agora, pacientes com cobertura privada também têm acesso. Isso não resolve o problema do subdiagnóstico — muitas pessoas ainda não sabem que têm insuficiência tricúspide — mas abre o caminho para que mais pacientes, uma vez diagnosticados, possam ser tratados com essa abordagem menos invasiva.
O futuro provavelmente trará mais desses procedimentos. À medida que cardiologistas se familiarizam com a técnica, à medida que mais hospitais privados adquirem a tecnologia, e à medida que a palavra se espalha sobre essa "válvula esquecida", é provável que o número de implantes cresça. O desafio agora é duplo: educar os médicos e o público sobre a existência e a importância da insuficiência tricúspide, e garantir que pacientes diagnosticados tenham acesso ao tratamento, seja na rede pública ou privada.
Notable Quotes
A válvula tricúspide sempre foi considerada a 'válvula esquecida'. Há muito subdiagnóstico por falta de conhecimento. Porém, a insuficiência tricúspide está associada à maior mortalidade e à piora da qualidade de vida, devendo ser tratada com agilidade— Henrique Barbosa Ribeiro, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês
Os procedimentos por cateter representam uma alternativa importante, especialmente para pacientes com maior risco cirúrgico— Henrique Barbosa Ribeiro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa válvula é tão negligenciada se causa sintomas tão debilitantes?
Porque ela fica no lado direito do coração, longe dos olhos. Os cardiologistas historicamente focaram nas válvulas do lado esquerdo — mitral e aórtica — que causam problemas mais óbvios e imediatos. A tricúspide era invisível até começar a falhar, e quando falha, os sintomas são lentos e insidiosos. Cansaço, inchaço — coisas que as pessoas atribuem à idade ou ao peso.
E por que agora, de repente, essa tecnologia está chegando à rede privada?
Porque o SUS provou que funciona. Três implantes bem-sucedidos no sistema público criaram evidência suficiente para que hospitais privados investissem na tecnologia. Quando você vê que algo salva vidas e melhora qualidade de vida, o mercado segue.
Qual é o risco real de não tratar?
Mortalidade aumentada e progressão para insuficiência cardíaca grave. A válvula não se fecha, o sangue volta, o coração trabalha cada vez mais para compensar, até que não consegue mais. É uma degradação lenta mas inexorável.
Três dias de internação é realmente tão diferente da cirurgia aberta?
É um abismo. Cirurgia aberta significa semanas de recuperação, risco de infecção, dor intensa, reabilitação longa. Três dias significa voltar para casa, voltar à vida. Para um idoso, essa diferença pode ser a diferença entre aceitar o tratamento ou recusar.
Quantas pessoas no Brasil têm essa condição e não sabem?
Ninguém sabe ao certo. Porque não é diagnosticada. Provavelmente milhares. Cada um deles vivendo com cansaço que atribuem a outra coisa, inchaço que acham normal, respiração pesada que acham que é idade.