Homem trans engravida e mulher trans amamenta: a história de Roberto e Erika

Casal enfrentou discriminação e desconforto em serviços de saúde, com profissionais questionando a identidade de gênero de Roberto durante atendimento médico.
Diziam que a vida de trans é rua, prostituição e drogas
O que Erika ouviu repetidamente antes de sua transição, há seis anos.

Homem trans interrompeu terapia hormonal e engravidou naturalmente, desafiando expectativas sobre fertilidade em pessoas trans que fazem hormonização. Mulher trans induziu lactação através de medicamentos e estimulação mamária, produzindo leite para amamentar o filho biológico do casal.

  • Roberto, homem trans, engravidou naturalmente e deu à luz Noah em 10 de maio de 2022
  • Erika, mulher trans, induziu lactação através de estrogênio, progesterona e domperidona, amamentando o filho
  • O casal enfrentou discriminação em serviços de saúde fora do Centro de Referência em São Paulo
  • Ambos interromperam terapia hormonal para tentar engravidar, causando alterações de humor e físicas significativas

Roberto, homem trans, engravidou naturalmente e deu à luz Noah em maio de 2022, enquanto sua companheira Erika, mulher trans, induziu lactação para amamentar. O caso documenta a viabilidade médica e os desafios enfrentados por pessoas trans na maternidade e paternidade.

Roberto sempre soube que queria ser pai. Erika sempre soube que queria ser mãe. Para muitos casais, esse seria um objetivo simples, quase óbvio. Mas para pessoas trans — aquelas que não se identificam com o gênero atribuído ao nascer — construir uma família é frequentemente visto como um sonho distante, até impossível. Erika Fernandes, mulher trans de 28 anos natural de Aracaju, ouviu isso repetidas vezes. Pessoas bem-intencionadas a aconselhavam contra a transição, alertando-a de que uma vida trans significava solidão, rua, prostituição e drogas. Ninguém lhe disse que ela poderia ter amor, família, filhos. Mas seis anos após sua transição, ela provou que podiam estar errados.

Roberto Bete, 32 anos, conheceu Erika em 2019 pelas redes sociais. Os dois compartilhavam uma presença ativa online — Roberto com 51 mil seguidores no Instagram, Erika com quase 57 mil — e mostravam sua vida cotidiana. No início, ficaram juntos por um tempo, mas Erika queria algo mais sério, uma família. Roberto, porém, estava no auge de sua transição, tendo recentemente feito uma mastectomia, e não pensava em paternidade. Queria curtir a vida, dizia. Depois de seis meses praticamente sem contato, em maio de 2020, Erika mandou uma mensagem de feliz aniversário. Eles voltaram a conversar, e as coisas se desenvolveram rapidamente. Começaram a namorar de verdade e decidiram tentar ter um bebê.

A decisão não foi fácil, especialmente para Roberto. A ideia de um homem engravidar lhe parecia estranha. Mas conforme conhecia Erika mais profundamente, vendo o tipo de mãe que ela poderia ser, seu desejo de ter um filho com ela cresceu. Inicialmente, Roberto planejava esperar até os 35 anos. Mas uma preocupação começou a assombrar o casal: ambos faziam terapia hormonal há mais de seis anos. Temiam ter se tornado inférteis. Roberto, então com 30 anos, começou a questionar-se constantemente. Será que seu útero ainda estaria apto aos 35? Se não tentasse agora, conseguiria depois? Valeria a pena arriscar?

Quando interromperam a terapia hormonal, os efeitos no corpo foram imediatos e perturbadores. Roberto começou a se sentir desanimado, espinhas explodiram em seu rosto, e a irritabilidade aumentou entre eles. A ansiedade de querer engravidar logo, combinada com as alterações de humor causadas pela falta de hormônios, criou uma tensão tão grande que eles chegaram a se separar dentro de casa — Erika no sofá, Roberto no quarto. Foi quando Erika notou mudanças significativas. Roberto estava irritado, alternando entre querer sua companhia e querer ficar sozinho. Começou a desejar coisas estranhas: limão com sal, verduras em conserva. Sua menstruação estava atrasada. Erika correu para a farmácia e comprou um teste de gravidez, deixando-o na pia do banheiro. Roberto demorou dias para fazer o teste, achando besteira. Mas o resultado foi positivo: a palavra "grávida" aparecia no display, com um símbolo "+3" ao lado.

Roberto não acreditou. Precisou de dois testes adicionais — um de farmácia e outro de sangue com beta hCG — para aceitar que o sonho estava se tornando realidade. Quando foram ao ultrassom, finalmente tiveram certeza: era um bebê. Lembraram-se de uma viagem a Fortaleza e tudo se encaixou. Para Roberto, a ideia de ser o gerador de um filho era completamente nova. Sempre imaginara a paternidade através de adoção ou inseminação artificial. Depois de um susto no dia 6 de maio, quando correram para a maternidade, Noah nasceu quatro dias depois, em 10 de maio de 2022. Roberto sentiu as contrações durante a madrugada e, após 12 horas, deu à luz por parto natural.

Mas a história não termina no nascimento. Erika, descobrindo que era possível para uma mulher trans produzir leite, pesquisou casos bem-sucedidos e encontrou médicas que faziam indução de lactação. Quando perguntou se era possível — ela, uma mulher trans, seu marido grávido, ela amamentando — a resposta foi sim. Erika continuou tomando estrogênio e progesterona, hormônios de sua transição, e começou a tomar domperidona, um medicamento que eleva os níveis de prolactina, o hormônio responsável pela produção de leite. Combinado com a estimulação das mamas usando uma bomba de tirar leite, o tratamento funcionou além das expectativas das especialistas. Qualquer pessoa com glândulas mamárias pode produzir leite dessa forma, embora nem todos possam tomar as medicações — há contraindicações, incluindo riscos de arritmia cardíaca e taquicardia. Roberto não amamentou porque havia feito mastectomia e não tinha mais glândulas mamárias, mas mesmo que tivesse, ele não teria desejado.

O casal enfrentou, porém, discriminação durante o pré-natal. Em um ultrassom fora do Centro de Referência e Treinamento em São Paulo, onde faziam acompanhamento, um segurança na portaria disse a Roberto que ele tinha que esperar lá fora, que só a paciente podia entrar. Na recepção, quando viram que Roberto era o paciente, houve comentários desconfortáveis. Quando a médica chamou, ela disse: "Senhor, só a paciente, por favor." Roberto sentou na cadeira de exame, e só então a médica percebeu: "Ah, você é o paciente. Desculpa." O Centro de Referência, pioneiro no Brasil desde 2010, oferecia acolhimento especializado, atendendo cerca de 3 mil pacientes por ano e sabendo lidar com questões de gênero. Mas fora dali, o casal vivenciou o lado mais áspero do sistema de saúde.

A questão da fertilidade em pessoas trans permanece amplamente desconhecida. A terapia hormonal pode afetar a capacidade reprodutiva, mas a ciência não sabe exatamente como ou por quanto tempo. A testosterona bloqueia a produção de estrogênio, responsável pelo tamanho normal do útero, que pode diminuir. Quando a terapia é interrompida, o útero pode voltar ao tamanho normal e a pessoa pode voltar a ovular e ser fértil — como aconteceu com Roberto. Mas o uso prolongado de testosterona pode causar infertilidade provisória ou permanente, e os especialistas ainda não sabem qual fator determina se será temporária ou definitiva. Para mulheres trans, os bloqueadores de testosterona e o estrogênio alteram a produção de esperma, tornando-a mais fina e transparente, reduzindo a capacidade reprodutiva. O caso de Roberto e Erika, documentado em um filme produzido pela MOV, UOL VivaBem e o Núcleo de Diversidade do UOL, oferece uma resposta viva a essas questões científicas ainda em aberto: sim, é possível. E sim, vale a pena.

Sempre quis ser pai. Era um sonho. Mas até 3 anos atrás, nunca pensei que seria o gerador desse filho.
— Roberto Bete
Diziam que eu teria uma vida solitária, sem um relacionamento, sem alguém para me amar.
— Erika Fernandes
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

O que mais os surpreendeu quando descobriram que Roberto estava grávido?

Model

Acho que a própria possibilidade. Roberto tinha certeza de que seria infértil depois de tantos anos de testosterona. A gravidez não era nem uma opção que ele considerava real.

Inventor

E Erika, quando decidiu que queria amamentar — como foi pesquisar isso?

Model

Ela procurou por mulheres trans que tivessem lactado e não encontrou ninguém. Mas encontrou médicas que faziam indução de lactação. Aí perguntou: sou mulher trans, meu marido está grávido, eu quero amamentar. É possível? E a resposta foi sim.

Inventor

Parece simples quando você diz assim. Mas havia risco, certo?

Model

Sim. A domperidona que ela tomou pode causar arritmia cardíaca, taquicardia. Os médicos precisavam saber se ela aguentaria as doses diárias. Não é algo que qualquer pessoa possa fazer.

Inventor

Vocês mencionaram discriminação durante o pré-natal. Como era estar grávido e ser tratado como... não-paciente?

Model

Humilhante. Um segurança disse a Roberto que ele tinha que esperar lá fora. A recepcionista viu que ele era o paciente e houve comentários. A médica pediu para ele sair da sala. Só quando ele se sentou na cadeira de exame é que ela percebeu.

Inventor

Isso acontecia no mesmo lugar onde faziam pré-natal?

Model

Não. No Centro de Referência em São Paulo, onde eles já eram acompanhados, havia acolhimento. Mas em outros lugares, em ultrassons, vivenciaram essas situações desagradáveis.

Inventor

O que vocês esperam que essa história mude?

Model

Que pessoas trans saibam que maternidade e paternidade são possíveis. E que profissionais de saúde entendam que precisam acolher, não questionar a identidade de quem está na sua frente.

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