Hidrogénio português sai da fase das promessas com projeto da Galp em Sines

As energias renováveis não são um custo, são um fator muito grande de competitividade
Sérgio Machado da Galp explicou a importância estratégica do hidrogénio renovável para a refinaria de Sines.

Projeto da Galp em Sines (250M€) é um dos dez maiores de hidrogénio na Europa, entrando em operação até final do ano, substituindo hidrogénio cinzento por renovável. Após euforia em 2020, setor enfrentou desilusão; Portugal tem 84 intenções de investimento mas apenas 4 projetos em construção, ficando longe da meta de 3GW até 2030.

  • Unidade de 100 megawatts da Galp em Sines entra em operação até final de 2026, com investimento de 250 milhões de euros
  • Portugal tem 84 intenções de investimento em hidrogénio mas apenas 4 projetos em construção, ficando longe da meta de 3 gigawatts até 2030
  • Descarbonização equilibrada pode poupar 9 a 10 mil milhões de euros face à eletrificação quase total

Portugal transita o hidrogénio verde de projeto para realidade industrial, com a Galp a concluir unidade de 100MW em Sines, mas setor reclama estabilidade regulatória e apoios equiparáveis aos concorrentes europeus.

O hidrogénio verde português deixou de ser uma promessa de futuro para se tornar realidade industrial. Na refinaria de Sines, a Galp está a colocar os últimos retoques numa unidade de produção de 100 megawatts que deverá entrar em funcionamento antes do final deste ano. É um projeto de 250 milhões de euros, integrado num investimento muito mais amplo que já ultrapassa 1.300 milhões de euros aplicados na refinaria desde 2020. Quando começar a operar, será um dos dez maiores projetos de hidrogénio em construção na Europa e um dos maiores do mundo fora da China.

O que torna este projeto significativo não é apenas a sua escala. A unidade vai substituir hidrogénio cinzento, produzido a partir de gás natural, por hidrogénio renovável, feito a partir de eletricidade renovável. Sérgio Machado, responsável pela área de hidrogénio e combustíveis renováveis da Galp, explicou que o objetivo é reforçar simultaneamente a descarbonização, a segurança de abastecimento e a competitividade da refinaria. Recorreu à imagem do "trilema energético" para descrever o equilíbrio necessário entre sustentabilidade, segurança de abastecimento e competitividade. "Os tripés são ótimos porque não precisam de ter todas as pernas do mesmo tamanho para se sustentarem, mas se faltar uma delas não vão funcionar de certeza", resumiu. Para Machado, as energias renováveis não são um custo, mas sim um fator potencialmente muito grande de competitividade.

Mas o setor enfrenta um problema de confiança. Há cinco ou seis anos, em 2020, o hidrogénio era apresentado como a solução para a transição energética. A euforia foi intensa. Depois veio a desilusão. Percebeu-se que a economia do hidrogénio não se constrói da noite para o dia, que é uma resposta estrutural de longo prazo, não uma solução imediata. Muitos projetos foram abandonados, muitas ideias desapareceram das agendas políticas. José Campos Rodrigues, presidente da Associação de Promoção do Hidrogénio, reconheceu este ciclo, mas defendeu que o hidrogénio continua a ser fundamental no mix energético futuro. O problema é que a estratégia nacional para o hidrogénio está há dois ou três anos à espera de ser revista à luz do Plano Nacional de Energia e Clima. O sistema de apoio ao hidrogénio não se concretizou. Portugal previa ter 3 gigawatts de eletrólise de hidrogénio até 2030. Atualmente, dificilmente vai atingir um gigawatt.

O cenário não é completamente desolador. Sofia Simões, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, revelou que existem 84 intenções de investimento em diferentes projetos de produção de hidrogénio em Portugal. Destas, apenas quatro estão em construção, incluindo a Galp. Mas há doze que estão em processo de avaliação de impacto ambiental ou já concluído, ou que tiveram uma decisão final de investimento, ou que têm financiamento garantido. O que mais preocupa os operadores é a falta de equidade competitiva. Sérgio Machado foi claro: os seus competidores do outro lado da fronteira europeia têm níveis de apoio diferentes, melhores. José Campos Rodrigues concordou que é preciso eliminar as desvantagens competitivas que o hidrogénio enfrenta para se afirmar como alternativa credível.

A transição energética coloca também a questão dos materiais críticos. Portugal e a Europa estão a trocar a dependência do petróleo e do gás pela dependência de materiais críticos e de tecnologias dominadas por outros países. Os painéis solares fotovoltaicos vêm da China. Mas há alternativas. Portugal é líder mundial em eólica offshore flutuante e vai ser licenciada a primeira unidade que recicla painéis solares fotovoltaicos para recuperar materiais de alto valor. Sofia Simões defendeu que a alternativa à abertura de novas minas, como a controversa mina de lítio do Barroso, passa por explorar "minas urbanas" — aterros sanitários antigos na Europa e em Portugal que têm concentrações de minerais que, em alguns casos, são maiores que algumas jazidas reais.

O custo da transição energética é pesado. O roteiro para a neutralidade carbónica aponta para um custo próximo de 1% do PIB português. Mas Sofia Simões foi clara: o custo de não fazer a transição é muito maior. Gabriel Sousa, CEO da Floene, insistiu na diversificação de soluções como resposta a esta equação de custos e de aceitação social. A Floene gere cerca de 14 mil quilómetros de rede de gás em Portugal, em que 80% do volume transportado se destina à indústria. A descarbonização das moléculas, não apenas da eletricidade, é decisiva para a competitividade industrial. Como exemplo, citou o projeto de biometano de Aljustrel, que desde janeiro abastece a totalidade da cidade de Évora e parte do consumo de Faro, Beja e Olhão, sem depender de importações. A Floene tem cinco novos projetos de produção de biometano a partir de resíduos sólidos urbanos em Aveiro, Leiria, Coimbra, Seixal e Amadora, com início de injeção na rede ainda este ano. Os contratos já assinados permitem atingir entre 1,5 e 1,6 terawatt-hora até 2026-2027, em linha com a meta nacional de substituir 9% do gás natural por biometano até 2030.

Um estudo com a Roland Berger estimou em 4 a 5 mil milhões de euros a diferença de custo entre uma eletrificação quase total e uma descarbonização mais equilibrada, combinando eletricidade, biometano e hidrogénio. Um estudo mais recente da EY elevou esse diferencial para 9 a 10 mil milhões de euros. A lição é clara: uma descarbonização balanceada é mais equilibrada e menos onerosa. O hidrogénio português saiu da fase das promessas, mas o caminho para a sua consolidação passa por estabilidade regulatória, apoios equiparáveis aos dos concorrentes europeus, e uma visão integrada que combine várias soluções energéticas.

O hidrogénio não é uma resposta de curto prazo, mas é a resposta estrutural
— José Campos Rodrigues, Presidente da Associação de Promoção do Hidrogénio
O custo de não fazermos a transição é muito maior
— Sofia Simões, Coordenadora da Unidade de Economia de Recursos do LNEG
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Porque é que o projeto da Galp em Sines é tão importante neste momento?

Model

Porque deixa de ser uma promessa e passa a ser realidade. Há cinco anos, o hidrogénio era a solução milagrosa. Depois veio a desilusão. Agora, com esta unidade de 100 megawatts a entrar em operação, mostra que é possível fazer isto em Portugal, à escala industrial, e que vale a pena.

Inventor

Mas Portugal está longe da meta de 3 gigawatts até 2030, certo?

Model

Muito longe. Temos 84 intenções de investimento, mas apenas quatro projetos em construção. O sistema de apoio não se concretizou, a estratégia nacional está à espera de revisão há anos. É um problema de confiança e de condições.

Inventor

O que falta então?

Model

Estabilidade regulatória e apoios equiparáveis aos dos concorrentes europeus. Os operadores dizem claramente que não têm um "level playing field". Os competidores do outro lado da fronteira têm melhores condições.

Inventor

E quanto aos materiais críticos? Não é um risco trocar a dependência do petróleo pela dependência de materiais raros?

Model

É um risco real. Mas há alternativas. Portugal pode explorar "minas urbanas" — aterros antigos que têm concentrações de minerais maiores que algumas jazidas reais. É mais barato e menos controverso que abrir novas minas.

Inventor

Então a solução é apenas hidrogénio?

Model

Não. A descarbonização equilibrada, combinando eletricidade, hidrogénio e biometano, é mais barata e mais viável. Um estudo recente estimou que pode poupar 9 a 10 mil milhões de euros face à eletrificação quase total.

Inventor

E a aceitação social? As pessoas querem isto?

Model

Percebem a necessidade, mas não querem no seu quintal. As manifestações contra a mina do Barroso e contra grandes centrais fotovoltaicas mostram uma sociedade altamente sensibilizada. É um desafio real.

Fale Conosco FAQ