Deixei de saber onde terminava a vida de Glória e começava a minha
Aos quarenta anos, a escritora portuguesa Helena Magalhães publica o seu quinto romance, 'Atos de Desobediência', pela editora Asa — uma mudança de casa editorial que é também uma declaração de intenções. Através de Glória Brito, uma escritora que conheceu o sucesso e depois o silêncio das páginas em branco, Magalhães tece uma reflexão sobre trauma, identidade feminina e a hipocrisia de um mercado literário que prefere gavetas a vozes livres. O livro chega como um ato de fé na escrita como necessidade vital, não como escolha.
- Helena Magalhães sentiu-se tão deslocada quanto a sua própria personagem ao escrever o livro — a fronteira entre autora e ficção dissolveu-se durante o processo criativo.
- O romance é uma sátira direta ao mercado editorial português, que Magalhães descreve como obsoleto, estagnado e hostil a autores sem nome estabelecido fora das grandes editoras.
- A mudança de editora foi uma decisão de sobrevivência criativa: encaixada numa 'gaveta' que sufocava a sua evolução, Magalhães precisava de espaço para crescer ou arriscava perder a vontade de escrever.
- Com humor, hipérbole e psicanálise como ferramentas, o livro acompanha Glória desde a infância humilde até à tentativa de reconciliação com os traumas que a moldaram — e que moldam tantas mulheres.
- A autora, fundadora do maior clube do livro em Portugal, confessa que o seu maior medo é perder a obsessão pela escrita — a força que, mesmo nos momentos de maior fracasso e desilusão, a fez não desistir.
'Atos de Desobediência' chegou às livrarias num momento em que Helena Magalhães completava quarenta anos e se sentia tão ambígua quanto a personagem que criou. Glória Brito é uma escritora que conheceu o sucesso, sobreviveu a dois fracassos consecutivos e se vê paralisada diante de páginas em branco. O livro, publicado pela Asa numa mudança significativa de editora, representa a versão mais madura de Magalhães como autora.
O romance nasceu quase por acidente — um documento solto no computador, pensamentos dispersos que foram ganhando forma enquanto a autora julgava estar a escrever outra coisa. Para dar densidade à narrativa, Magalhães mergulhou em filosofia e psicanálise, e num dado momento deixou de conseguir distinguir onde terminava Glória e começava ela própria. O resultado funciona em múltiplos níveis: é uma reflexão sobre trauma, sobre os papéis impostos às mulheres, sobre o crescimento pessoal — e simultaneamente uma sátira mordaz ao mercado editorial português.
Magalhães não suaviza a crítica. Descreve o sector como obsoleto e estagnado, reconhecendo que as plataformas digitais trouxeram vozes novas, mas que autores sem nome estabelecido continuam a ter dificuldade em penetrar o sistema. A mudança de editora foi precisamente uma fuga às 'gavetas' em que os autores são encaixados — uma decisão necessária para manter viva a vontade de escrever.
Além de romancista, Magalhães é fundadora do Bookgang, o maior clube do livro em Portugal. Admite que a escrita é a obsessão que a mantém viva — metralhadora, ventilador mecânico, ansiolítico, desfibrilhador, conforme o dia. Houve momentos de fracasso tão fundos que sair da cama era difícil. Mas o desejo da próxima história vence sempre. E essa próxima já está em curso.
Helena Magalhães completou quarenta anos recentemente e, por coincidência ou por necessidade criativa, o seu quinto romance chegou às livrarias numa altura em que ela mesma se sentia tão ambígua e deslocada quanto a personagem central da história. Glória Brito é uma escritora que conheceu o sabor do sucesso, mas depois enfrentou dois fracassos literários consecutivos e agora se vê diante de páginas em branco, sem saber qual história merecia ser contada a seguir. O livro, intitulado 'Atos de Desobediência', foi publicado este mês pela editora Asa, marcando uma mudança de casa editorial para Magalhães e representando a sua versão mais madura como autora.
O romance nasceu de forma orgânica, quase acidental. Durante meses, o que viria a ser 'Atos de Desobediência' existia apenas como um documento solto no computador de Magalhães, um repositório de pensamentos dispersos e reflexões sem forma. A autora estava a trabalhar no que acreditava ser a continuação de 'A Devastação', o seu livro anterior, quando percebeu que era, na verdade, a história de Glória que exigia ser escrita. Mergulhou fundo no universo da personagem, estudou filosofia e psicanálise para dar densidade à narrativa, e num dado momento deixou de conseguir distinguir onde terminava a vida de Glória e começava a sua própria. O resultado é um livro que funciona em múltiplos níveis: é uma reflexão sobre crescimento pessoal, sobre como os traumas da infância nos moldam na vida adulta, sobre os papéis que as mulheres são obrigadas a desempenhar, e simultaneamente uma sátira mordaz do mercado editorial português.
Magalhães não teme ser clara sobre o que o livro faz. Usa humor, hipérbole e exagero para analisar as mudanças de paradigma no sector editorial, os sucessos instantâneos e a jornada árdua de um autor em Portugal. Quando questionada sobre como a indústria poderia reagir a uma crítica tão direta, ela responde sem rodeios: já tinha criticado abuso sexual em lares católicos em 'A Devastação' e ninguém se sentiu particularmente incomodado; uma sátira à hipocrisia do mercado literário, feita com ironia e exagero, dificilmente ferirá susceptibilidades. A sua análise do panorama editorial é contundente. Reconhece que a era digital e as novas plataformas abriram espaço para vozes novas e perspectivas diferentes, o que considera uma lufada de ar fresco numa literatura demasiado fechada em si mesma. Mas o mercado continua obsoleto e estagnado, diz, e autores sem nome estabelecido e fora das grandes editoras têm dificuldade em penetrar o sistema.
Mas 'Atos de Desobediência' é muito mais do que uma crítica ao meio. É um livro duro e comovente que acompanha Glória desde um bairro humilde, através de uma família marcada por lacunas que a marcariam para sempre, até ao ponto em que ela tenta compreender como os traumas do passado a perseguem e como pode aprender a viver com eles. O livro marca também uma evolução no perfil de Magalhães como autora. Começou com romances mais leves, como 'Raparigas como Nós', e foi trilhando um caminho de maior profundidade e complexidade, acompanhando as suas próprias leituras, a sua forma de estar no mundo e os seus gostos pessoais. Esse caminho nem sempre foi fácil, e um dos obstáculos principais tem sido o preconceito no meio literário. Magalhães explica que autores são frequentemente encaixados em categorias, em 'gavetas', e é muito difícil sair delas. Foi precisamente por isso que mudou de editora: precisava insanamente de sair da gaveta em que tinha sido colocada para manter viva a sua vontade de escrever.
Além de escritora, Magalhães é fundadora do Bookgang, o maior clube do livro em Portugal, e admite que a escrita é a grande paixão que dá fôlego à sua vida. O seu maior medo é um dia perder essa obsessão que a mantém viva. Acredita que ser escritor não é algo que se escolha ser, mas algo que não se pode evitar, algo que nos controla e nos estrangula, mas que no seu caso também a salva. Quando escreve, pensa e imagina, liberta-se do seu próprio corpo e das suas limitações. Escreve movida por raiva, por desejo, por felicidade, por tristeza, por aborrecimento, por solidão. A escrita é, alternadamente, a sua metralhadora, o seu ventilador mecânico, o seu desfibrilhador, o seu ansiolítico, ou simplesmente algo que a deixa animada e feliz. Houve momentos em que se sentiu tão fracassada e desiludida que foi difícil manter a motivação e sair da cama todas as manhãs. Mas essa força que a move faz com que nunca desista, e no final vence sempre o desejo de escrever a próxima história. Essa próxima já está em curso, mas por agora é tempo de saborear 'Atos de Desobediência'.
Notable Quotes
É o romance que mais acompanhou as minhas próprias mudanças pessoais, acabei de fazer 40 anos e sinto-me tão ambígua e defasada como a personagem— Helena Magalhães
Ser escritor não é algo que se queira ser, acredito que é algo que não se pode evitar ser, que nos controla, nos estrangula, mas que no meu caso também me salva— Helena Magalhães
The Hearth Conversation Another angle on the story
O livro satiriza o mercado editorial, mas parece ser também muito pessoal. Como é que conseguiu manter a distância crítica?
Não tenho a certeza de que consegui manter distância. Acho que foi justamente o oposto — deixei de conseguir distinguir onde terminava Glória e começava eu. Talvez seja por isso que funciona.
Mudou de editora para sair de uma 'gaveta'. Que tipo de gaveta era essa?
A gaveta dos romances mais leves, mais comerciais talvez. Precisava de espaço para explorar temas mais densos, mais incómodos. A editora anterior tinha uma visão de quem eu era, e eu tinha deixado de ser essa pessoa.
Diz que escreve porque está viva, mas também está viva porque escreve. Isso não é um pouco perigoso?
Talvez. Mas ser escritor é perigoso por natureza. Não é uma escolha racional. É algo que nos controla. O meu maior medo é perder essa obsessão.
No livro, Glória enfrenta fracassos após o sucesso. Isso é autobiográfico?
Não literalmente. Mas emocionalmente, sim. Há momentos em que nos sentimos fracassados, em que é difícil sair da cama. O livro tenta explorar isso com honestidade.
Critica o elitismo do mercado, mas está publicada por uma editora estabelecida. Não há contradição?
Há, claro. Mas a contradição é o ponto. Estou dentro do sistema que critico. Glória também está. Ninguém consegue sair completamente dele. A questão é o que fazemos enquanto estamos lá dentro.