É uma sina do ministro da Fazenda estar entre gasto e economia
No coração de Brasília, o ministro Fernando Haddad apresentou ao Conselhão uma visão de estabilidade: inflação abaixo de 4% e crescimento próximo a 3% até o fim do mandato de Lula. A declaração chegou como resposta a uma desconfiança crescente do mercado financeiro sobre a seriedade do governo com a disciplina monetária. Entre o imperativo de controlar gastos e o compromisso de proteger os mais vulneráveis, o Brasil ensaia mais uma vez o difícil equilíbrio entre crescimento e responsabilidade fiscal.
- O mercado teme que Lula indique, em 2025, nomes lenientes com a inflação para o Banco Central, ameaçando a meta oficial de 3%.
- Haddad foi direto ao confrontar a desconfiança: afirmou que quem acusa o governo de negligenciar a inflação 'não está prestando atenção nos dados'.
- A reafirmação pelo Conselho Monetário Nacional da meta contínua de 3% serviu de âncora para o discurso do ministro, mas os números recentes mostram volatilidade nos preços.
- O governo mira déficit zero, mas analistas apontam que as medidas concretas de corte de gastos ainda são escassas — o foco tem sido mais em aumentar arrecadação do que em reduzir despesas.
- Haddad brincou sobre sua própria sina: estar sempre 'entre gasto e economia', revelando com humor a tensão real que define a gestão econômica do momento.
Na manhã de 27 de junho de 2024, Fernando Haddad abriu a terceira reunião do Conselhão ao lado do presidente Lula com uma promessa direta ao mercado financeiro: era 'absolutamente possível' encerrar o terceiro mandato com inflação média abaixo de 4% e crescimento médio próximo a 3%. A declaração não era retórica vazia — era uma resposta calculada à desconfiança de que o governo pudesse indicar, em 2025, nomes mais tolerantes com a inflação para a diretoria do Banco Central.
Haddad argumentou que os efeitos das enchentes no Rio Grande do Sul sobre os preços eram passageiros, sem caráter estrutural. Apoiou-se na decisão do Conselho Monetário Nacional, tomada na véspera, de reafirmar a meta contínua de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual por ao menos 36 meses. Os dados recentes, porém, mostravam oscilação: a inflação de maio havia surpreendido para cima, ainda que a prévia de junho apontasse desaceleração.
Além da inflação, o governo enfrentava o desafio do desequilíbrio fiscal. A equipe econômica colocou em pauta cortes de gastos, com atenção especial à reformulação de benefícios sociais. Haddad confiou na 'sabedoria' de Lula para identificar quais programas poderiam ser ajustados sem penalizar os mais pobres. A meta era ousada: déficit zero, com gastos iguais às receitas.
O ceticismo dos analistas era palpável. Até ali, o governo havia priorizado o aumento da arrecadação em detrimento de cortes efetivos. Haddad reconheceu a tensão com bom humor, brincando que sua sina era estar sempre 'entre gasto e economia'. Por trás da piada, havia um dilema genuíno: como crescer e controlar ao mesmo tempo, como honrar o mercado sem abandonar os mais vulneráveis. As semanas seguintes diriam se a equação teria solução.
Fernando Haddad sentou-se ao lado do presidente Lula na quinta-feira, 27 de junho de 2024, para abrir a terceira reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República — o chamado Conselhão — e trouxe consigo uma promessa que o mercado financeiro vinha questionando. Era "absolutamente possível", disse o ministro da Fazenda, que o terceiro mandato de Lula terminasse com uma inflação média abaixo de 4%, acompanhada de um crescimento econômico médio próximo aos 3%.
A declaração chegava em momento de tensão. Havia preocupação nos corredores do mercado financeiro de que Lula pudesse indicar, em 2025, nomes mais tolerantes com a inflação para a diretoria do Banco Central — pessoas que não priorizassem com rigor a meta oficial de 3%. Haddad respondeu diretamente a essa desconfiança. "Aqueles que acusam o senhor de não prestar atenção na inflação não estão prestando atenção nos dados", disse ao presidente. Ele argumentou que os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul sobre os preços eram de curto prazo e não representavam uma tendência estrutural.
O timing da fala não era casual. Na noite anterior, o Conselho Monetário Nacional havia reafirmado a meta de inflação contínua em 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual por pelo menos 36 meses. Haddad usou essa reafirmação como âncora para sua argumentação. Os números recentes, porém, mostravam volatilidade: a inflação de maio havia acelerado para 0,46% na comparação mensal, acima do esperado, embora a prévia para junho desacelerasse para 0,39%.
Mas a conversa no Conselhão não girou apenas em torno de inflação e crescimento. O governo federal estava em movimento para enfrentar um desafio que o perseguia: o desequilíbrio das contas públicas. A equipe econômica havia colocado em pauta a necessidade de cortes de gastos, com foco especial na reformulação de benefícios e programas sociais. Haddad afirmou que Lula teria "sabedoria" para saber quais iniciativas poderiam sofrer mudanças sem prejudicar a população mais pobre do país. A meta era ambiciosa: um déficit zero, ou seja, gastos iguais às receitas durante o ano.
Analistas do mercado, porém, viam o objetivo com ceticismo. Até aquele momento, poucas medidas concretas de redução de despesas haviam sido tomadas; o governo havia focado mais em aumentar a arrecadação. Haddad, em tom bem-humorado, brincou sobre a tensão inerente ao seu cargo. "Fui provocado pelo presidente Lula para me alongar um pouco mais hoje e pelo embaixador da igreja para economizar no tempo. Parece que é uma sina do ministro da Fazenda estar entre gasto e economia", disse. A piada refletia uma realidade: a necessidade simultânea de investir e poupar, de crescer e controlar, era o dilema central da gestão econômica naquele momento.
O que se desenrolava era um governo tentando navegar entre duas pressões opostas. De um lado, a necessidade de manter a confiança do mercado financeiro com metas de inflação e equilíbrio fiscal. Do outro, a responsabilidade social de não prejudicar os mais pobres em um país onde a desigualdade permanecia profunda. As próximas semanas e meses diriam se a "sabedoria" invocada por Haddad seria suficiente para encontrar esse equilíbrio.
Citas Notables
Aqueles que acusam o senhor de não prestar atenção na inflação não estão prestando atenção nos dados— Fernando Haddad, ministro da Fazenda, respondendo a críticas sobre a tolerância do governo com a inflação
É absolutamente possível o senhor terminar o seu mandato com uma inflação média abaixo de 4% com um crescimento médio beirando os 3%— Fernando Haddad, ao presidente Lula na abertura do Conselhão
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Haddad precisava fazer essa declaração justamente naquele momento, naquele conselho?
Porque havia rumor no mercado de que Lula poderia indicar pessoas menos rigorosas com inflação para o Banco Central em 2025. Era preciso sinalizar que o governo levava a meta a sério.
E os números sustentavam essa confiança que ele estava expressando?
Parcialmente. A inflação de maio havia acelerado, o que era preocupante. Mas a prévia de junho mostrava desaceleração. Haddad escolheu focar nos dados que apoiavam sua narrativa.
Qual era o verdadeiro problema que o governo enfrentava?
O desequilíbrio fiscal. Precisavam cortar gastos ou aumentar receita para chegar a um déficit zero. Mas cortar gastos em benefícios sociais é politicamente perigoso.
E como Haddad resolveu essa tensão?
Não resolveu. Apenas disse que Lula teria "sabedoria" para decidir. Era uma forma de adiar a decisão difícil.
A piada que ele fez sobre sua "sina" — era apenas humor?
Não. Era uma confissão disfarçada. Ele estava dizendo que seu cargo é fundamentalmente contraditório: precisa gastar e economizar ao mesmo tempo. Ninguém consegue fazer ambos perfeitamente.