Guerra de três meses reformula estratégia de segurança e comércio nas monarquias do Golfo

Mais de 30 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas em ataques de mísseis e drones do Irã; pais e filhos se abrigaram em corredores durante alertas; residentes estrangeiros fugiram dos Emirados Árabes Unidos.
Provamos a nós mesmos que já somos mais resilientes do que imaginávamos
Um pesquisador bareinita reflete sobre como a guerra forçou os países do Golfo a se fortalecerem e se adaptarem.

Países do Golfo enfrentam ameaça iraniana crescente apesar de acordo EUA-Irã; mais de 30 mortos em ataques a Dubai e Doha. Nações árabes aumentam investimentos militares e repensar dependência do Estreito de Ormuz através de novos portos e infraestrutura.

  • Mais de 30 pessoas morreram em ataques de mísseis e drones do Irã a Dubai e Doha
  • Emirados Árabes Unidos buscam estratégia de 'dependência zero de Ormuz' com novos portos e infraestrutura
  • Acordo EUA-Irã suspendeu sanções petrolíferas e propôs fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões
  • Irã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz durante o conflito de três meses

Três meses de conflito expuseram vulnerabilidades das monarquias do Golfo, forçando reformulação de estratégias militares, rotas comerciais e relações com EUA e Irã em contexto de acordo emergente.

Por décadas, os cidadãos das nações árabes mais ricas do Golfo observaram as guerras da região pela tela da televisão — conflitos que aconteciam com vizinhos distantes no Iêmen, na Síria, em Gaza, mas nunca em seu próprio quintal. Aquela ilusão de segurança desapareceu nos últimos três meses. Agora, mesmo com os combates aparentemente encerrados, a região enfrenta uma realidade transformada: vulnerabilidades expostas, alianças abaladas e um futuro incerto diante de um acordo emergente entre os Estados Unidos e o Irã que deixa muitos líderes do Golfo profundamente preocupados.

O que aconteceu foi impensável para a maioria dos moradores. Em cidades como Dubai e Doha, explosões massivas iluminaram o céu noturno. Torres de luxo pegaram fogo. Pais se aglomeravam com seus filhos nos corredores de edifícios enquanto alertas de mísseis soavam constantemente em seus telefones. Nos Emirados Árabes Unidos, as escolas fecharam por semanas. Residentes estrangeiros abastados fugiram. A única comparação histórica que muitos conseguiam fazer era a invasão do Kuwait pelo Iraque, mais de três décadas atrás. Embora os países do Golfo tenham conseguido interceptar a maioria dos ataques de mísseis e drones iranianos, mais de trinta pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Para Khalid Al-Jaber, diretor executivo do Conselho do Oriente Médio para Assuntos Globais no Catar, a ferida deixada é profunda. "Levará muito, muito tempo para nos recuperarmos", disse ele.

O Secretário de Estado americano Marco Rubio viajou pela região esta semana tentando acalmar os ânimos, prometendo que os Estados Unidos não fariam nada que prejudicasse a segurança de seus aliados. Mas nos bastidores, analistas relatam uma mistura de frustração e decepção. O acordo preliminar entre Washington e Teerã fez poucas menções às preocupações dos governos do Golfo — o arsenal de mísseis e drones iranianos, sua crescente influência regional. Na segunda-feira, o governo Trump suspendeu temporariamente as sanções petrolíferas contra o Irã, uma medida que poderia dar ao país um impulso econômico significativo. Abdulrahman al-Rashed, escritor saudita próximo à liderança do reino, argumentou que o acordo "reabilita o regime de Teerã como uma potência regional" e que os benefícios financeiros farão do Irã "um monstro ainda maior do que era antes". Autoridades americanas também sugeriram que os países do Golfo contribuíssem para um fundo de reconstrução de trezentos bilhões de dólares destinado ao Irã — uma ideia que recebeu uma recepção gelada na região. Al-Jaber disse que a impressão é de que Washington vê o Golfo "como um caixa eletrônico".

A guerra expôs não apenas vulnerabilidades militares, mas também dependências econômicas perigosas. Uma das mudanças mais drásticas envolve o Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo e das mercadorias que alimentam a região. O Irã fechou efetivamente o estreito durante o conflito, e agora essa ameaça paira permanentemente sobre o Golfo. Os Emirados Árabes Unidos estão buscando uma estratégia de "dependência zero de Ormuz", expandindo portos além do estreito e construindo oleodutos e ferrovias. Omã, geralmente tranquila e possuidora de portos no Mar Arábico a centenas de quilômetros do estreito, tornou-se um centro logístico crucial, transportando mercadorias por terra para seus vizinhos. Esses investimentos representam uma reformulação fundamental de como a região pensa sobre seu futuro econômico.

Militarmente, os países do Golfo estão determinados a aumentar seu poderio, investindo mais em equipamentos de defesa. Mohammed Baharoon, diretor de um centro de pesquisa em Dubai, argumenta que a guerra criou precedentes perigosos. "É quase como o Velho Oeste agora", disse ele, apontando que o cessar-fogo foi "quebrado facilmente diversas vezes, sem causar qualquer reação". Mahdi Ghuloom, pesquisador bareinita, observa que há "uma percepção no Golfo de que a capacidade de dissuasão contra o Irã diminuiu", o que significa que as ameaças americanas e israelenses poderiam ser menos eficazes daqui para frente. Embora o Irã tenha sido duramente atingido pela campanha de bombardeios, seu governo sobreviveu e percebeu que poderia utilizar instrumentos poderosos, como o controle sobre o Estreito de Ormuz.

Publicamente, os líderes do Golfo saudaram o acordo para pôr fim aos combates, que se mostraram tão catastróficos que poucos desejavam sua continuação. Na reunião do G-7 na França, o xeique Mohammed bin Zayed, poderoso líder dos Emirados Árabes Unidos, transmitiu gratidão ao presidente Trump. "Obrigado pelo seu apoio, pelo seu compromisso com seus amigos", disse ele. "Você nos mostrou quem é o verdadeiro aliado." Nos bastidores, porém, a realidade é mais complexa. Rubio prometeu que os governos do Golfo seriam incluídos "em todas as etapas" das negociações com o Irã e não levantou a ideia de que contribuíssem para o fundo de reconstrução. Em vez disso, autoridades do Golfo disseram que era "de grande interesse para eles" receberem seus próprios recursos para reconstrução.

O que emerge é um Golfo que reconhece tanto a necessidade de mudança quanto a possibilidade de oportunidade. Ghuloom sugere que chegou a hora de os países do Golfo iniciarem suas próprias negociações separadas com o Irã, buscando potencialmente um pacto de não agressão com o vizinho. Pode haver um "lado positivo", acrescentou ele, na maneira como a guerra levou os países a se fortalecerem e se adaptarem. "Provamos a nós mesmos que já somos mais resilientes do que imaginávamos ser", disse ele. Mas a questão que paira sobre todas essas mudanças permanece: o conflito realmente acabou? Al-Jaber expressa o temor que muitos compartilham: "Estamos apavorados com a possibilidade de esta guerra se prolongar."

Levará muito, muito tempo para nos recuperarmos
— Khalid Al-Jaber, diretor executivo do Conselho do Oriente Médio para Assuntos Globais
É quase como o Velho Oeste agora
— Mohammed Baharoon, diretor de centro de pesquisa em Dubai, sobre os precedentes perigosos criados pela guerra
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que três meses de guerra mudaram tanto a estratégia de toda uma região?

Model

Porque expôs algo que ninguém queria admitir: que a riqueza e a distância não protegem de tudo. Esses países viveram décadas vendo guerras acontecerem ao lado, mas nunca neles. Agora sabem que podem ser atingidos.

Inventor

E o acordo entre EUA e Irã — por que deixa o Golfo tão desconfortável?

Model

Porque foi feito sem eles. O Irã continua com seus mísseis, seus drones, seu controle sobre o Estreito de Ormuz. E agora recebe alívio nas sanções. Os líderes do Golfo se sentem deixados para trás, como se fossem apenas um caixa eletrônico para Washington.

Inventor

Essa história do Estreito de Ormuz — por que é tão importante?

Model

Porque é o gargalo por onde passa a vida econômica da região. Se o Irã fecha, tudo para. Então agora os Emirados estão construindo portos novos, oleodutos, ferrovias. Estão tentando não depender mais daquele ponto vulnerável.

Inventor

Você acha que eles conseguem se defender sozinhos agora?

Model

Eles estão tentando. Mas há um reconhecimento de que a dissuasão diminuiu. O Irã foi bombardeado, mas sobreviveu. Aprendeu que pode usar a força e sair ileso. Isso muda o cálculo de poder.

Inventor

E a relação com os Estados Unidos?

Model

Está rachada. Publicamente, gratidão. Nos bastidores, frustração. Eles queriam ser consultados, queriam que suas preocupações importassem. Em vez disso, viram um acordo que não os menciona.

Inventor

Então o que vem agora?

Model

Alguns analistas acham que o Golfo deveria negociar diretamente com o Irã. Talvez um pacto de não agressão. É uma mudança radical — de depender dos EUA para se proteger, para tentar se proteger sozinhos.

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