Memorando EUA-Irão: guerra terminou? Detalhes de um acordo ainda por assinar

Com eles não há nada que seja de boa fé
Trump respondeu à versão iraniana do memorando acusando Teerão de desonestidade sobre os termos do acordo.

Trump cancelou ataques anunciados e confirmou que memorando está finalizado, mas contestou publicamente a versão iraniana divulgada, acusando Teerão de desonestidade. Irão divulgou 14 pontos incluindo levantamento de sanções, 24 mil milhões de dólares em fundos desbloqueados e plano de reconstrução de 300 mil milhões, mas EUA nega estes termos.

  • Trump cancelou ataques anunciados e confirmou memorando finalizado, mas contestou versão iraniana
  • Irão divulgou 14 pontos incluindo 24 mil milhões de dólares em fundos desbloqueados e plano de reconstrução de 300 mil milhões
  • Assinatura prevista para domingo em Genebra com vice-presidente JD Vance
  • Israel promete agir independentemente para impedir armas nucleares iranianas, sinalizando possível fricção com Washington

EUA e Irão finalizaram memorando de entendimento com promessas de reabertura do Estreito de Ormuz e retirada de urânio enriquecido, mas versões divergem sobre termos. Assinatura prevista para breve em Genebra, com negociações finais a prosseguirem.

Donald Trump anunciou na noite de quinta-feira que a guerra do Irão tinha terminado. A declaração categórica assentava num memorando de entendimento entre Washington e Teerão que, segundo o Presidente norte-americano, estava finalizado e seria assinado em breve. Mas a euforia durou pouco. O regime iraniano publicou a sua própria versão do documento, Trump acusou Teerão de desonestidade, e o que deveria ser um momento de alívio transformou-se numa nova batalha pela narrativa — exatamente o tipo de conflito que tem marcado toda esta crise.

O Presidente cancelou os ataques que tinha anunciado para essa noite e deixou cair as ameaças de controlar a ilha de Kharg. Garantiu que os altos dirigentes iranianos tinham dado luz verde ao memorando e que outros países da região — Israel, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Turquia — também concordavam com a solução. Segundo a agência Bloomberg, o vice-presidente JD Vance deveria assinar o documento em Genebra, na Suíça, no domingo. Quatro aviões da Força Aérea norte-americana já tinham sido transferidos para a Europa para preparar a visita.

O Irão revelou publicamente os 14 pontos do memorando através da agência de notícias Mehr. Nessa versão, o país obteria uma vitória praticamente completa: o Estreito de Ormuz seria reaberto em 30 dias, todas as sanções seriam levantadas, os Estados Unidos prometeriam não interferir nos assuntos internos iranianos e retirariam as suas forças da região. Washington libertaria 24 mil milhões de dólares em fundos iranianos bloqueados nos próximos 60 dias, metade deles antes do início das negociações finais. Havia ainda um plano de reconstrução de 300 mil milhões de dólares que os Estados Unidos apresentariam juntamente com aliados regionais. Em troca, o Irão apenas se comprometia a reabrir o Estreito de Ormuz e a permitir monitorização do seu programa nuclear, reiterando que não produziria armas nucleares.

Trump respondeu imediatamente na Truth Social. Os termos que o Irão divulgou "não têm nada a ver" com o que ficou definido, escreveu. "O que eles dizem não tem qualquer relação com a verdade. São pessoas muito desonestas. Com eles não há nada que seja de boa fé." O aviso foi claro: "É melhor que eles se organizem, e rapidamente." Os Estados Unidos nunca confirmaram a versão iraniana, e é certo que os 14 pontos publicados não serão os finais. Segundo o Axios, que ouviu fontes de países mediadores como o Qatar e o Paquistão, o Irão tinha feito cedências significativas no programa nuclear, incluindo a redução da concentração de urânio altamente enriquecido sob supervisão de inspetores das Nações Unidas. Mas os fundos de 24 mil milhões de dólares e o plano de reconstrução de 300 mil milhões nunca foram confirmados por Washington.

Os dois lados têm objetivos claros com este processo. Trump quer apresentar-se como aquele que impediu o Irão de ter uma arma nuclear e reabrindo o Estreito de Ormuz. O regime iraniano sabe que um acordo favorável será fundamental para a sua legitimação após a morte de Ali Khamenei — a narrativa será que os novos líderes conseguiram derrotar tanto as intenções dos Estados Unidos como Israel na região. O vice-presidente JD Vance esclareceu que os iranianos não receberiam dinheiro apenas por assinarem um acordo. Os fundos seriam libertados apenas quando o Irão cumprisse as suas obrigações. A CNN avançou que o memorando apenas se materializaria conforme a "performance" do Irão e que Washington conseguiu incluir a promessa de destruição ou remoção do material nuclear iraniano e o desmantelamento do programa nuclear. Havia ainda uma exigência de que o Irão deixasse de financiar grupos como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen.

Israel observa tudo isto com preocupação. Benjamin Netanyahu escreveu no X que "o Irão não terá armas nucleares" e recordou que dedicou toda a sua vida a prevenir que o país adquirisse uma bomba atómica. Mas a resignação era evidente. O primeiro-ministro israelita sabe que um acordo que favoreça o regime iraniano será um ativo tóxico para a sua campanha eleitoral, que se aproxima. O ministro da Defesa, Israel Katz, foi mais direto. Recordou que Israel e os Estados Unidos infligiram "duros golpes no Irão" e que isso prejudicou as capacidades do regime de atacar Israel durante "muitos anos". No futuro, Israel deveria garantir que teria a capacidade de agir de forma independente para evitar que o Irão tivesse armas nucleares. "O primeiro-ministro e eu instruímos as Forças de Defesa de Israel para se prepararem para isso," anunciou. Nas entrelinhas, Katz deixou claro que, por muitas cedências que os Estados Unidos fizessem ao Irão, o Governo de Israel não as aceitaria na íntegra. O objetivo de Telavive continuava a ser desmembrar o eixo de resistência liderado pelo Irão.

A distância entre Washington e Telavive tornou-se cada vez mais pública. JD Vance explicou que, apesar de Israel ser um "parceiro muito próximo" dos Estados Unidos, havia ocasiões em que os interesses não eram os mesmos. Netanyahu tinha cometido "alguns erros" ao longo dos últimos tempos, sugeriu o vice-presidente. Trump questionou até por que motivo Netanyahu se candidatava a novas eleições legislativas, recordando que ele era "um primeiro-ministro em tempos de guerra". O canal 12 israelita avançou que Trump apenas informou Netanyahu do memorando — e que o primeiro-ministro nem tentou dissuadi-lo. A administração norte-americana estava cada vez mais a desvincular-se do apoio irrestrito a Israel. Nos cálculos políticos da Casa Branca, um acordo com o Irão parecia ser a solução natural. Os Estados Unidos esperavam agora chegar a acordo com o regime iraniano, sendo o primeiro passo este memorando de entendimento finalizado, mas ainda não assinado e suscetível de alterações de última hora.

O que eles dizem não tem qualquer relação com a verdade. São pessoas muito desonestas.
— Donald Trump, sobre a versão iraniana do memorando
Israel deve garantir que, no futuro, terá a capacidade de agir de forma independente para evitar que o Irão tenha armas nucleares.
— Israel Katz, ministro da Defesa israelita
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que Trump e o Irão estão a contar histórias tão diferentes sobre o mesmo documento?

Model

Porque cada um precisa de vencer em casa. Trump quer mostrar aos americanos que impediu uma ameaça nuclear. O Irão quer mostrar aos seus cidadãos que derrotou os Estados Unidos. O memorando é apenas o palco onde ambos tentam escrever a narrativa que precisam.

Inventor

Mas se as versões são tão diferentes, como é que assinam algo?

Model

Assinam porque ambos têm incentivos para o fazer. Trump quer uma vitória antes das eleições. O Irão precisa de legitimidade após a morte de Khamenei. O documento pode ser vago o suficiente para cada lado interpretar à sua maneira.

Inventor

E Israel nisto tudo?

Model

Israel está isolado. Netanyahu sabe que não pode parar isto, então está a preparar-se para agir sozinho. Katz foi muito claro: vão continuar a desmantelar o eixo de resistência iraniano, com ou sem aprovação de Washington.

Inventor

Isso não cria um problema enorme?

Model

Cria. Se Israel atacar aliados iranianos enquanto os Estados Unidos estão a negociar, tudo desmorona. Mas Netanyahu não tem muitas opções. Ou aceita um acordo que o prejudica, ou age independentemente e arrisca uma rutura com Washington.

Inventor

Qual é o verdadeiro prémio aqui?

Model

O Estreito de Ormuz. Quem controla aquele estreito controla o fluxo de petróleo global. Trump quer reabri-lo imediatamente. O Irão quer 30 dias e compensações. É por isso que tudo isto importa.

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