Sua conta estava sendo usada para o trânsito de recursos de terceiros
Em 2022, o cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro transferiu R$ 26 milhões para um fundo que, por sua vez, mantinha sociedade com o ministro do STF Dias Toffoli em um resort no Paraná — laço financeiro que permaneceu oculto enquanto Toffoli conduzia investigações sobre o próprio Banco Master. A revelação dessa teia de interesses cruzados levantou questões profundas sobre a integridade das instituições que deveriam guardar a lei, lembrando que a proximidade entre poder econômico e poder judicial raramente é inocente.
- R$ 26 milhões fluíram silenciosamente do operador financeiro de Vorcaro para um fundo que tornava o ministro Toffoli sócio indireto do grupo investigado.
- Toffoli conduzia o inquérito sobre o Banco Master sem revelar seus vínculos financeiros com o universo investigado, gerando desconfiança entre os próprios servidores da corte.
- A pressão aumentou quando a Polícia Federal entregou ao STF mensagens que discutiam pagamentos diretos a uma empresa da qual o ministro era sócio.
- Toffoli abandonou a relatoria do caso, que migrou para André Mendonça, mas o escândalo já havia exposto a fragilidade dos mecanismos de controle de conflito de interesses no STF.
- O Coaf identificou R$ 99,4 milhões em movimentações incompatíveis com a renda declarada de Zettel, apontando sua conta como canal de trânsito de recursos de terceiros — possivelmente do próprio Vorcaro.
Em 2022, Fabiano Zettel — cunhado de Daniel Vorcaro e seu apontado operador financeiro — transferiu R$ 26 milhões para o fundo Leal. O que parecia uma movimentação financeira comum revelou-se o elo de uma cadeia que conectava o dono do Banco Master ao ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli.
O fundo Leal controlava o Arleen, empresa que figurava como sócia de Toffoli e de seus irmãos em um resort chamado Tayayá, em Rio Claro, no Paraná. A participação do ministro nunca havia sido declarada publicamente. O problema era o timing: Toffoli era o relator do inquérito que investigava possíveis crimes cometidos pelo próprio Banco Master. Quando a conexão veio à tona, servidores passaram a questionar suas decisões, e a pressão o levou a deixar a relatoria — transferida para André Mendonça.
A situação agravou-se quando a Polícia Federal entregou ao STF mensagens trocadas entre Vorcaro e Zettel discutindo pagamentos à Maridt, empresa criada em 2020 da qual Toffoli era sócio e que, em 2021, ingressou na sociedade do resort Tayayá. O ministro não respondeu aos questionamentos da reportagem.
O Coaf revelou que Zettel movimentou R$ 99,4 milhões em suas contas — valor absolutamente incompatível com sua renda mensal declarada de R$ 66,6 mil. Os aportes no fundo Leal representavam 53% de tudo que saiu de sua conta. O conselho concluiu que a conta do ex-pastor batista estava sendo usada para o trânsito de recursos de terceiros, conclusão reforçada por mensagens interceptadas pela PF.
Zettel foi preso pela primeira vez em novembro de 2025 e, em março deste ano, entregou-se à polícia no mesmo dia em que Vorcaro foi detido pela segunda vez. As investigações ainda revelaram que ele era proprietário de uma mansão em Brasília que servia de centro de operações do banqueiro — local onde Vorcaro recebia figuras como Hugo Motta, Antonio Rueda e Ciro Nogueira.
Em 2022, Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado como seu operador financeiro, transferiu R$ 26 milhões para o fundo Leal. Esse movimento, documentado em registros financeiros, conectava-se a uma teia de relacionamentos que envolveria um ministro do Supremo Tribunal Federal de forma que ninguém havia revelado publicamente.
O fundo Leal controlava outra entidade, o Arleen, que era sócio do ministro Dias Toffoli e de seus familiares em um resort chamado Tayayá, localizado em Rio Claro, no Paraná. A reportagem havia descoberto em janeiro que o Arleen integrava a rede fraudulenta montada em torno do Banco Master, de propriedade de Vorcaro. Naquele momento, ficou claro que dois irmãos de Toffoli eram sócios do empreendimento hoteleiro através dessa mesma empresa. O próprio ministro, porém, não havia informado sua participação.
O timing era delicado. Toffoli era o relator do inquérito que investigava possíveis crimes cometidos pelo Banco Master. Servidores envolvidos nas investigações começaram a questionar algumas de suas decisões. Quando a conexão entre Toffoli e Vorcaro veio à tona, a pressão sobre o ministro intensificou-se. Ele deixou a relatoria do caso, que foi redistribuído para André Mendonça. Mas a situação piorou quando a Polícia Federal entregou ao STF um relatório contendo mensagens trocadas entre Vorcaro e Zettel discutindo pagamentos para a Maridt, uma empresa que tinha o magistrado entre seus sócios.
A Maridt havia sido criada em 2020. Um ano depois, em setembro de 2021, ela entrou na sociedade do resort Tayayá. Procurado pela reportagem, Toffoli não respondeu aos questionamentos. Um relatório do Coaf, o órgão de inteligência financeira, revelou que Zettel havia movimentado R$ 99,4 milhões em suas contas durante o período analisado: R$ 50 milhões entraram, R$ 49,4 milhões saíram. Os aportes no fundo Leal — onze ao todo — representavam 53% de tudo que havia saído. O Coaf observou que essas movimentações eram incompatíveis com a renda mensal declarada por Zettel, de R$ 66,6 mil. A defesa do empresário não se manifestou.
Zettel é casado com Natália Vorcaro, irmã do dono do Master, e foi pastor da Igreja Batista da Lagoinha. O Coaf chamou atenção para o fato de que ele havia pago boletos em nome da esposa cujo beneficiário final era Vorcaro, sem justificativa aparente. A conta do ex-pastor, segundo o conselho, estava sendo usada para o trânsito de recursos de terceiros. Mensagens interceptadas pela PF confirmavam que ele gerenciava pagamentos em nome do banqueiro.
Zettel foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, nas operações iniciais contra a fraude bilionária atribuída a seu cunhado. Em março deste ano, após uma nova ordem judicial, entregou-se à polícia no mesmo dia em que Vorcaro foi preso pela segunda vez. Segundo as investigações, Zettel também era proprietário de uma mansão em Brasília que funcionava como centro de operações do ex-banqueiro. Era naquele endereço que Vorcaro se reunia com políticos de peso: Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados; Antonio Rueda, presidente do União Brasil; e Ciro Nogueira, presidente do PP e senador.
Citas Notables
As movimentações em conta estão incompatíveis com a capacidade financeira declarada— Coaf
A conta aparentemente está sendo utilizada para o trânsito de recursos de terceiros— Coaf
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a participação de Toffoli nesse fundo é tão problemática se ele não estava formalmente envolvido?
Porque ele era o relator do inquérito que investigava Vorcaro. Não revelar que tinha interesse financeiro em uma empresa sócia de Vorcaro é um conflito de interesses clássico — você está julgando alguém enquanto lucra com suas operações.
E Zettel, qual era exatamente seu papel?
Era o intermediário. Vorcaro usava o cunhado para movimentar dinheiro, pagar contas, investir em fundos. Zettel tinha uma renda declarada de R$ 66,6 mil por mês, mas estava movimentando quase R$ 100 milhões. Sua conta era um tubo por onde passava dinheiro de terceiros.
Como descobriram tudo isso?
Mensagens interceptadas pela PF, relatórios do Coaf, documentos financeiros. Quando a PF entregou as mensagens ao STF, ficou impossível negar a ligação. Toffoli não conseguiu responder aos questionamentos.
E agora, qual é a consequência para Toffoli?
Ele saiu da relatoria. Mas a questão maior permanece: como um ministro do Supremo não revelou que era sócio de alguém que estava sendo investigado por fraude bilionária? Isso vai além de uma simples suspeição.
Zettel está preso?
Sim. Preso em novembro de 2025, depois se entregou em março deste ano. Ele é peça central na operação financeira de Vorcaro.