A inflação como mecanismo oculto de financiamento injusto que funciona muito bem
Em meio a uma reconfiguração profunda da economia global, o Brasil de 2022 encontra-se imóvel diante das transformações que exigiriam reformas, consenso e visão de longo prazo. Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, oferece um diagnóstico que vai além dos indicadores: quando uma sociedade polarizada não consegue decidir coletivamente sobre impostos ou gastos, a inflação emerge como árbitro silencioso — corroendo patrimônios sem debate, resolvendo conflitos distributivos sem os enfrentar. É uma forma antiga e cruel de a história cobrar o que a política não quis pagar.
- O Brasil abandonou reformas estruturais no momento em que o mundo se reorganizava, e agora enfrenta juros mais altos, cadeias produtivas menos eficientes e crescimento projetado de apenas 0,7% do PIB em 2022.
- A inflação deixou de ser apenas um problema econômico para se tornar um mecanismo político: financia silenciosamente o Estado quando a sociedade polarizada bloqueia tanto o aumento de impostos quanto o corte de gastos.
- O teto de gastos — âncora fiscal do país — foi flexibilizado antes de cumprir seu papel, e a próxima gestão federal deverá revisá-lo, aprofundando a incerteza sobre a trajetória fiscal brasileira.
- Com a variante ômicron, riscos climáticos sobre a safra agrícola e tensões monetárias nos Estados Unidos, o dólar pode chegar a R$ 5,70 ao fim do ano, num cenário de volatilidade que se soma ao calendário eleitoral.
- A pandemia aprofundou desigualdades e fragmentou ainda mais o tecido social, tornando o consenso necessário para reformas cada vez mais distante — e o custo dessa paralisia recai, como sempre, sobre os mais vulneráveis.
O mundo se reorganiza em velocidade acelerada: cadeias produtivas se tornam mais locais, os juros sobem pressionados pela inflação, e a tecnologia avança exigindo políticas públicas à altura. Para Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander no Brasil, o país simplesmente ficou parado diante desse movimento. As reformas que poderiam preparar o ambiente interno foram abandonadas, e o Brasil entra em 2022 sem ter feito o trabalho necessário.
O alerta mais grave de Vescovi, porém, não é conjuntural — é estrutural. Ela teme que a inflação se converta no árbitro dos conflitos políticos internos. O mecanismo é perverso: quando o governo não consegue aumentar impostos por resistência popular, nem cortar gastos por pressão social, a inflação funciona como um financiamento oculto das contas públicas. Corrói o valor do dinheiro sem voto, sem debate, sem enfrentamento real dos dilemas distributivos. Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, conhece bem esse caminho — e sabe que o Brasil abriu mão do teto de gastos antes de concluir a consolidação fiscal que precisava.
O cenário para o ano é de volatilidade intensa. O crescimento do PIB deve ficar em apenas 0,7%, pressionado pela ômicron, pelos riscos climáticos sobre a safra e pelo aperto monetário nos Estados Unidos. O dólar pode alcançar R$ 5,70 ao fim do ano. Mas o que mais inquieta a economista é a combinação de fatores: polarização crescente, baixo crescimento, desigualdades aprofundadas pela pandemia e um ano eleitoral sobre tudo isso. A conclusão é direta — 2022 será um ano em que o país vai tremer bastante.
O mundo está em transformação profunda. As cadeias produtivas se reorganizam, a tecnologia avança, os juros sobem pressionados pela inflação. Enquanto isso acontece, segundo Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander no Brasil, o país simplesmente parou. Não está acompanhando. Não está fazendo o trabalho de casa.
Vescovi vê um cenário global de crescimento menor e taxas de juros mais altas, tudo alimentado por pressões inflacionárias que têm raízes profundas: as cadeias de suprimento quebradas estão sendo reconstruídas de forma mais local, menos global, e isso custa produtividade. Ao mesmo tempo, há avanços tecnológicos importantes acontecendo, mas precisam de políticas públicas para se transformarem em bem-estar real. O Brasil, porém, ficou para trás. As reformas que poderiam ajustar o ambiente interno foram abandonadas.
Mas o alerta mais preocupante de Vescovi vai além dos números. Ela teme que a inflação se torne o árbitro dos conflitos políticos internos nos próximos anos. Isso soa abstrato até você entender o que ela quer dizer. O Brasil saiu da pandemia ainda mais desigual, mais polarizado, com menos espaço para consenso. Quando chega a hora de tomar decisões difíceis sobre reformas, sobre como organizar o Estado, a sociedade está fragmentada. Não há acordo. E é aí que entra a inflação como uma solução silenciosa e injusta.
O mecanismo é perverso. Quando o governo não consegue aumentar impostos porque a população não quer, e não consegue cortar gastos porque há pressão social, a inflação funciona como um financiamento oculto das contas públicas. Ela corrói o valor do dinheiro das pessoas sem que ninguém tenha votado nisso, sem que ninguém tenha debatido. É uma forma de resolver conflitos distributivos sem enfrentá-los. Vescovi, que foi secretária do Tesouro Nacional, sabe bem como isso funciona. E sabe também que o Brasil abriu mão de sua âncora fiscal—o teto de gastos—antes de terminar a consolidação que precisava fazer. A próxima gestão federal, seja qual for, provavelmente vai revisar esse teto.
O cenário para 2022 é de volatilidade alta. A ômicron está se espalhando com força, o que pressiona para baixo a projeção de crescimento do PIB para apenas 0,7%. Há tensões sobre aperto monetário nos Estados Unidos, riscos para a safra agrícola brasileira por causa do clima. A taxa de câmbio pode chegar a R$ 5,70 ao fim do ano, segundo o Santander. Mas o que realmente preocupa Vescovi é a combinação: maior polarização, baixo crescimento, problemas sociais profundos, e um ano eleitoral em cima disso tudo. Ela encerra a conversa com uma frase que resume o sentimento: este será um ano em que o país vai tremer bastante.
Citas Notables
O Brasil parou. As reformas que estavam ajustando o próprio ambiente interno foram abandonadas enquanto mudanças profundas acontecem no mundo.— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
O grande receio é que a inflação venha com uma ajuda ruim para a dificuldade que temos de arbitrar conflitos na hora de tomar decisões sobre reformas.— Ana Paula Vescovi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Quando você diz que a inflação se torna árbitro de conflitos, está falando de algo que acontece de forma consciente ou é mais um efeito colateral?
É mais um efeito colateral que funciona muito bem. Ninguém senta e diz: vamos usar inflação para resolver isso. Mas quando você tem uma sociedade polarizada que não quer pagar mais impostos e o governo precisa gastar, a inflação silenciosamente resolve o problema. Ela reduz o valor real dos gastos públicos sem debate.
E por que isso é tão perigoso agora, especificamente?
Porque o Brasil já está mais desigual depois da pandemia, mais polarizado. Não há consenso sobre nada. Se a inflação vira o mecanismo de resolução de conflitos, você nunca enfrenta os problemas de verdade. Nunca faz as reformas que precisa fazer.
Você mencionou que o país abriu mão do teto de gastos. Isso foi um erro?
Foi abrir mão de uma âncora antes de terminar o trabalho de consolidação. Era como soltar a corda enquanto ainda estava caindo. A próxima gestão vai ter que revisar isso, mas o estrago já está feito.
O crescimento de 0,7% é realmente tão baixo assim?
É muito baixo. Especialmente quando você olha para o que está acontecendo no resto do mundo. Há avanços tecnológicos, há transformações. O Brasil deveria estar aproveitando isso, mas está parado.
E a volatilidade que você prevê para 2022?
Eleição, baixo crescimento, desigualdade crescente, dólar instável. Tudo junto. Nos pleitos anteriores com essa combinação, vimos muita volatilidade. Desta vez não será diferente.