Uma vantagem temporária para quem aposta em kits importados
O governo prorrogou até julho a isenção fiscal para importação de kits CKD e SKD de elétricos, com teto de US$ 463 milhões, favorecendo a operação da BYD na Bahia. Carros montados importados passarão a sofrer tarifa de 35% a partir de julho, forçando estratégia de montagem local entre fabricantes asiáticas.
- Teto de US$ 463 milhões para importação com imposto zero de kits CKD e SKD, em vigor a partir de julho
- BYD opera montagem de carros semidesmontados em Camaçari, Bahia
- Tarifa de 35% para carros montados importados a partir de 1º de julho
- Anfavea ameaça ação judicial contra a decisão
- R$ 140 bilhões em investimentos prometidos pela indústria automotiva até 2033
O Camex renovou cotas de importação com imposto zero para veículos elétricos e híbridos desmontados, beneficiando principalmente a BYD. A decisão gerou crise de confiança com a Anfavea, que ameaça judicializar a medida.
Na terça-feira 23 de junho, a máquina governamental moveu-se em favor de um fabricante estrangeiro. O Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior decidiu renovar as cotas de importação para veículos elétricos e híbridos desmontados, estendendo um benefício fiscal que a indústria automotiva brasileira vinha tentando bloquear. A decisão entra em vigor em julho e estabelece um teto de US$ 463 milhões — aproximadamente R$ 2,4 bilhões — para que fabricantes importem kits com alíquota zero. Esse volume é idêntico ao que vigorou entre agosto do ano passado e janeiro deste ano.
A maior beneficiada é a BYD, a fabricante chinesa que opera uma unidade de montagem em Camaçari, na Bahia. Ali, a empresa recebe carros semidesmontados (SKD) em contêineres convencionais, completa as etapas de estamparia, pintura e soldagem, e os coloca no mercado brasileiro. Segundo a BYD, representada pelo vice-presidente Alexandre Baldy, esse prazo adicional de seis meses já havia sido previamente alinhado com o governo e é necessário para concluir novas fases da planta. A empresa não comentou publicamente sobre a decisão do Camex.
O mecanismo é sofisticado. Para quem ultrapassar a cota de US$ 463 milhões, as tarifas sobem drasticamente: 35% para kits SKD já em julho, e o mesmo patamar para kits CKD em janeiro do próximo ano. Até o fim de 2026, os kits CKD que excederem o limite continuam recolhendo 14%. Mas há uma assimetria deliberada na política. Carros montados importados — aqueles que chegam prontos de fábricas no exterior — não tiveram o benefício renovado. A partir de 1º de julho, eles enfrentam a tarifa cheia de 35%, conforme previsto originalmente. Isso tende a encarecer significativamente os elétricos e híbridos importados após o esgotamento dos estoques atuais, forçando as fabricantes a montar localmente. A GWM já sinalizou que seus Haval H6 montados no Brasil custarão menos que os importados da China.
A decisão abriu uma crise de confiança com a Anfavea, a associação que representa os fabricantes já instalados no país. A entidade acusa o governo de quebrar as regras de previsibilidade do setor e de agir de forma intempestiva, sem consultar o setor produtivo. Na visão da Anfavea, a prorrogação altera a política de transição que havia sido pactuada no fim do ano passado e reduz os incentivos para atrair fornecedores locais de autopeças. O presidente Igor Calvet foi além: um dia antes da decisão oficial do Gecex, afirmou que a associação estuda ir à Justiça contra a criação das novas cotas.
O conflito reflete uma tensão estrutural na estratégia governamental. De um lado, o governo tenta garantir a implantação das fábricas asiáticas com alívios fiscais temporários. Do outro, as fabricantes já estabelecidas exigem a aplicação rigorosa do imposto para forçar a nacionalização imediata, evitando que o país sustente apenas a montagem de componentes externos sem adensamento tecnológico local. A Anfavea defende que a mudança repentina de rumo coloca em risco a viabilidade de parte dos R$ 140 bilhões em investimentos prometidos pela indústria automotiva até 2033.
Há sinais de que a política inicial estava funcionando. A produção nacional de veículos eletrificados respondeu aos estímulos, representando 25,9% das vendas do segmento em 2025. No acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por eletrificados produzidos no Brasil cresceu 57% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Mas a renovação das cotas agora cria uma vantagem temporária para quem aposta na montagem de kits importados em detrimento da produção local com fornecedores nacionais — exatamente o oposto do que a indústria estabelecida esperava.
Citações Notáveis
A alteração foi intempestiva e tomada sem consulta ao setor produtivo— Anfavea, em nota oficial
O prazo adicional de seis meses já estava previamente alinhado com o governo— Alexandre Baldy, vice-presidente da BYD
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo renovou essas cotas se a indústria local estava crescendo?
Porque a BYD ainda está construindo sua fábrica em Camaçari. Sem esse tempo extra, ela teria que pagar tarifas muito altas para importar os kits semidesmontados. O governo quer garantir que as fábricas asiáticas se estabeleçam aqui.
Mas isso não prejudica quem já investe no Brasil?
Prejudica, sim. Quem já tem fábrica aqui e investe em fornecedores locais vê a BYD importar com imposto zero enquanto eles pagam tarifa cheia. É uma vantagem temporária, mas que pode durar o tempo suficiente para mudar decisões de investimento.
A Anfavea realmente vai processar o governo?
Ameaçou fazer isso. O presidente da associação disse que a decisão foi intempestiva e tomada sem consulta. Para eles, o governo quebrou um acordo que havia sido fechado no fim do ano passado.
Qual é o risco real aqui?
R$ 140 bilhões em investimentos prometidos até 2033 podem não sair do papel se a previsibilidade desaparecer. Ninguém investe em um país onde as regras mudam de repente, sem aviso.
E a BYD, como se beneficia exatamente?
Ela importa carros semidesmontados em contêineres normais, não em navios especializados. Completa a montagem em Camaçari e vende. Com a tarifa zero renovada, ela consegue fazer isso com margem. Quando a cota acabar, a tarifa sobe para 35% e fica inviável importar — aí ela terá que estar totalmente operacional no Brasil.
Então o governo está apostando que ela vai estar pronta?
Exatamente. É uma aposta. Se a BYD conseguir completar as novas fases da fábrica até o fim do ano, a estratégia funciona. Se não conseguir, ela fica presa entre uma cota que acaba e tarifas que explodem.