Governo apresenta estratégia de armazenamento de energia com baterias e bombagem

Quando há muito sol e pouco consumo, perdemos essa energia
A ministra explica por que o armazenamento é essencial para aproveitar as energias renováveis disponíveis.

Num momento em que a transição energética exige não apenas produzir energia limpa, mas saber guardá-la, Portugal apresentou esta semana uma estratégia nacional de armazenamento que pretende duplicar a capacidade instalada até 2040. A aposta combina bombagem hídrica e baterias, reconhecendo que a abundância solar e eólica só tem valor real se puder ser preservada para quando o sol se põe e o vento acalma. É uma resposta ao limite que o próprio sistema já sente — e um passo em direção a uma soberania energética que o país há muito persegue.

  • O sistema elétrico português opera já a cerca de 80% da sua capacidade de armazenamento, um limiar que a ministra Maria da Graça Carvalho considera perigosamente próximo do colapso de flexibilidade.
  • A estratégia prevê duplicar a capacidade de 5,25 GW para 10,5 GW até 2040, com baterias a triplicar e bombagem hídrica a crescer 50%, mas o armazenamento hídrico aguarda ainda luz verde de Bruxelas por questões de ajudas de Estado.
  • Em setembro arrancam dois leilões para baterias em nove localizações estratégicas do país, num total de 1.050 megavolt-ampere de nova capacidade distribuída.
  • Os municípios que acolherem as instalações receberão 2,5% das receitas anuais, transformando a infraestrutura energética num benefício local tangível.
  • A 2 de julho inaugura-se uma nova interligação de muito alta tensão com Espanha no Alto Minho, complementando a estratégia e ampliando a flexibilidade de gestão energética na Península Ibérica.

Portugal anunciou esta semana uma Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia com um objetivo claro: duplicar a capacidade instalada dos atuais 5,25 gigawatts para 10,5 gigawatts até 2040. A aposta assenta em dois pilares — baterias e bombagem hídrica — e parte de uma lógica essencial: armazenar a energia renovável que sobra quando o sol brilha e o vento sopra, para a devolver à rede quando a procura sobe e a produção cai. A ministra Maria da Graça Carvalho alertou que o sistema já funciona a cerca de 80% da sua capacidade, tornando urgente esta expansão.

O documento, elaborado com base em investigação do INESC-TEC e do Instituto Superior Técnico, define metas para dois horizontes temporais: uma capacidade intermédia de 6,8 GW em 2030 e os 10,5 GW em 2040, com a bombagem hídrica a crescer 50% e as baterias a triplicar para 4,5 GW. O primeiro passo concreto chega em setembro, com dois leilões para armazenamento em baterias distribuídos por nove localizações — de Rio Maior a Tavira, passando por Alqueva e Sines-Santo André — num total de 1.050 megavolt-ampere de nova capacidade.

Há, porém, um obstáculo burocrático: o armazenamento hídrico depende de aprovação de Bruxelas por questões de ajudas de Estado. A ministra mostrou-se confiante numa resolução rápida, esperando abrir o respetivo concurso ainda antes do fim do ano. Enquanto isso, a estratégia entra em consulta pública. Os municípios que receberem instalações de baterias beneficiarão de 2,5% das receitas anuais geradas — um incentivo local que acompanha o objetivo nacional de segurança de abastecimento, controlo de preços e descarbonização.

A semana ficará também marcada pela inauguração, a 2 de julho, de uma nova interligação de muito alta tensão entre Portugal e Espanha no Alto Minho, fruto de um investimento de 44 milhões de euros. A ligação reforça a flexibilidade de gestão energética peninsular e complementa a estratégia de armazenamento, sinalizando um Portugal determinado a reduzir a dependência de importações e a integrar cada vez mais energia renovável no seu sistema elétrico.

Portugal está a preparar-se para uma transformação significativa na forma como armazena e distribui energia. O Governo apresentou esta semana uma estratégia nacional que pretende duplicar a capacidade de armazenamento até 2040, passando dos atuais 5,25 gigawatts para 10,5 gigawatts. A aposta divide-se entre dois caminhos: sistemas de baterias e bombagem hídrica, uma combinação que a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, descreve como essencial para o país.

O documento foi elaborado com base em investigação do INESC-TEC e do Instituto Superior Técnico, e apresenta diferentes cenários para os períodos 2026-2030 e 2026-2040. A ideia subjacente é simples mas crucial: quando há abundância de energia solar ou eólica e pouco consumo, essa energia pode ser armazenada. Quando o sol se põe e o vento acalma, mas a procura sobe, essa energia armazenada volta à rede. Sem isto, Portugal está a aproximar-se de um limite perigoso — a ministra refere que o sistema já funciona a cerca de 80% da sua capacidade.

Os números são ambiciosos. Até 2040, a capacidade de bombagem hídrica aumentará 50%, atingindo 5,26 gigawatts, enquanto os sistemas de baterias triplicarão para 4,5 gigawatts. Uma meta intermédia de 6,8 gigawatts foi fixada para 2030. O primeiro passo concreto chega em setembro, com o lançamento de dois leilões. O primeiro oferece 750 megavolt-ampere de capacidade distribuída por nove localizações — Rio Maior, Alcochete-Palmela, Pegões-Divor, Abrantes-Estremoz-Falagueira, Alqueva, Ferreira do Alentejo, Panóias, Tavira e Vale Pereiro. O segundo leilão disponibiliza 300 megavolt-ampere adicionais para centros produtores de eletricidade com armazenamento em baterias, em Rio Maior, Abrantes e Sines-Santo André.

Há, porém, uma complicação burocrática. Enquanto o armazenamento em baterias pode avançar com negociações já em curso sobre mecanismos de capacidade, o armazenamento hídrico carece de aprovação de Bruxelas — uma questão de ajudas de Estado que a ministra acredita ser resolvida rapidamente. "Assim que tivermos autorização de Bruxelas, abriremos um concurso para o armazenamento hídrico, o que esperamos ser ainda possível até ao fim do ano", disse Maria da Graça Carvalho. A estratégia entrará em consulta pública, permitindo que o Governo escolha entre os cenários apresentados.

Os municípios que receberem estes projetos beneficiarão financeiramente. Está prevista uma percentagem de 2,5% das receitas anuais para as autarquias que acolham as instalações de baterias. A medida é enquadrada como crítica para múltiplos objetivos: segurança do abastecimento, controlo de preços, competitividade do sistema e descarbonização. Maria da Graça Carvalho argumenta que sem mais armazenamento e mais capacidade de rede, Portugal chegará a um impasse.

Esta semana marca também outro passo importante na infraestrutura energética. No dia 2 de julho será inaugurada uma nova interligação de muito alta tensão entre Portugal e Espanha, no Alto Minho, resultado de um investimento de 44 milhões de euros que começou em julho de 2024. A ligação com Espanha complementa a estratégia de armazenamento, permitindo maior flexibilidade na gestão da energia peninsular. Juntas, estas medidas refletem uma aposta clara em reduzir a dependência de importações energéticas e integrar uma proporção muito maior de energia renovável no sistema português.

O armazenamento permite-nos tirar partido das energias renováveis disponíveis. Quando há muito sol e pouco consumo, perdemos essa energia, e isto vai possibilitar armazenar e usar quando existe menos sol e menos vento.
— Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia
Se não tivermos mais armazenamento e mais capacidade da rede elétrica, estamos a chegar a um limite. Estamos já nos oitenta e tal por cento e, portanto, para avançar com segurança precisamos de armazenamento hídrico, de baterias e de reforço das redes.
— Maria da Graça Carvalho
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Porque é que Portugal precisa duplicar a capacidade de armazenamento agora?

Model

Porque estamos a aproximar-nos de um limite. O sistema já funciona a cerca de 80% da sua capacidade, e à medida que adicionamos mais painéis solares e turbinas eólicas, precisamos de forma de guardar essa energia quando não é consumida imediatamente.

Inventor

Mas não é possível simplesmente usar a energia quando é produzida?

Model

Não. O consumo não coincide com a produção. Quando há muito sol ao meio-dia e pouco consumo, essa energia é desperdiçada. À noite, quando as pessoas chegam a casa e ligam tudo, não há sol. É aí que o armazenamento entra.

Inventor

Porque duas tecnologias diferentes — baterias e bombagem?

Model

Porque têm características diferentes. A bombagem hídrica é mais barata em larga escala e dura décadas, mas precisa de geografia adequada e aprovação europeia. As baterias são mais flexíveis, podem ir em qualquer lugar, mas são mais caras.

Inventor

Quem ganha com isto?

Model

Os municípios ganham 2,5% das receitas anuais. O país ganha segurança energética e preços mais estáveis. E a indústria ganha competitividade porque a eletricidade fica mais previsível e barata.

Inventor

E se Bruxelas disser não ao armazenamento hídrico?

Model

A ministra diz que é uma negociação que se levará a bom termo rapidamente. Mas se não aprovar, Portugal fica dependente apenas de baterias, que são mais caras e menos eficientes em grande escala.

Inventor

Isto resolve o problema das energias renováveis?

Model

Resolve uma parte importante. Mas também é preciso reforçar as redes de distribuição e criar interligações com outros países, como a que se inaugura esta semana com Espanha.

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