As tarifas têm raízes em política externa, não em argumentos econômicos
À medida que o prazo de 15 de julho se aproxima, o Brasil enfrenta a possibilidade concreta de tarifas americanas de até 37,5% sobre seus produtos — uma tensão que revela, para além dos números, a fragilidade das relações comerciais quando atravessadas por cálculos políticos. O governo Lula, que optou por não participar diretamente das audiências em Washington, avalia as sanções como injustificáveis economicamente e, ao mesmo tempo, como praticamente inevitáveis. Nesse impasse, o que está verdadeiramente em jogo não é apenas o comércio bilateral, mas a questão mais profunda de se as regras do sistema internacional ainda seguem lógicas técnicas ou se tornaram instrumentos de poder.
- Tarifas de até 37,5% sobre produtos brasileiros podem entrar em vigor em 15 de julho, representando um golpe direto a setores que dependem do mercado americano.
- O governo Lula avalia internamente que o governo Trump não tem demonstrado disposição de ceder a nenhum país, tornando a implementação das medidas o cenário mais provável.
- A ausência do Planalto na audiência pública americana foi uma escolha deliberada: participar seria, para o governo, reconhecer legitimidade técnica a sanções que considera politicamente motivadas.
- Flávio Bolsonaro compareceu à audiência e pediu adiamento das tarifas até após as eleições de outubro — um gesto que, para membros do governo Lula, expõe a dimensão política do processo.
- Se as tarifas forem adiadas por influência de Bolsonaro, o Planalto vê nisso a confirmação de que as medidas nunca tiveram base econômica real, apenas instrumental.
O governo Lula se prepara para o que avalia como quase certo: a entrada em vigor, no dia 15 de julho, de tarifas americanas de até 37,5% sobre produtos brasileiros. Internamente, a avaliação é de que o governo Trump não demonstrou disposição de fazer concessões a nenhum país, e o Brasil não seria exceção.
As tarifas se dividem em duas partes. Uma alíquota de 25% seria aplicada sob alegação de práticas desleais de comércio, resultado de investigação iniciada em 2025. Outros 12,5% estariam vinculados à ausência de restrições brasileiras à importação de produtos fabricados em condições análogas à escravidão — parte de uma investigação global conduzida pelos EUA.
Quando o governo americano realizou audiência pública sobre o tema, o Planalto optou por não participar diretamente, enviando apenas dois observadores. A escolha foi deliberada: engajar-se seria, em certo sentido, reconhecer que as sanções têm base técnica a ser debatida — o que o governo rejeita. Já o senador Flávio Bolsonaro compareceu à audiência e pediu que qualquer taxação fosse adiada até depois das eleições de outubro.
No Planalto, dois cenários são considerados. O mais provável é a implementação das tarifas, diante da qual o Brasil manteria sua posição de que as sanções carecem de justificativa econômica. O segundo, menos provável, seria um adiamento — que poderia ser atribuído a suposto progresso nas negociações ou, mais reveladoramente, à solicitação de Bolsonaro.
Essa segunda hipótese é vista pelo governo Lula como a confirmação mais clara de que as tarifas têm raízes políticas, não comerciais. O representante americano Jamieson Greer já declarou que os dois países estão longe de um acordo. O Brasil aguarda a decisão final de Trump sabendo que, muito provavelmente, a resposta virá na forma de implementação.
O governo Lula está se preparando para a possibilidade concreta de que tarifas americanas entrem em vigor no dia 15 de julho. Integrantes da administração federal avaliam que as medidas propostas pelo escritório de representação comercial dos Estados Unidos são, na prática, inevitáveis — e que o governo Trump não demonstrou disposição em fazer concessões a nenhum país.
As tarifas em questão somam até 37,5% sobre produtos brasileiros. A primeira parcela, de 25%, seria aplicada sob a alegação de práticas desleais de comércio, resultado de uma investigação que começou em julho de 2025. A segunda, de 12,5%, estaria vinculada à falta de restrições brasileiras à importação de produtos fabricados sob condições análogas à escravidão, dentro de uma investigação global que o governo americano conduziu sobre o tema. Juntas, essas alíquotas representariam um golpe significativo para setores da economia brasileira que dependem do mercado norte-americano.
O governo norte-americano realizou uma audiência pública para debater essas tarifas, mas o Planalto optou por não participar diretamente. Em seu lugar, enviou dois observadores. A ausência foi notável, especialmente quando comparada à presença de representantes do setor privado brasileiro que serão afetados pelas medidas. Também compareceu à audiência o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, que aproveitou a oportunidade para pedir que qualquer taxação fosse adiada até depois das eleições de outubro.
No Planalto, dois cenários estão sendo considerados. O primeiro, e mais provável segundo a avaliação interna, é que as tarifas sejam de fato implementadas. Nesse caso, o governo manteria sua posição de que as sanções carecem de justificativa econômica. O segundo cenário, menos provável, seria um adiamento. Se isso ocorresse, haveria duas possíveis explicações: os Estados Unidos poderiam alegar que as negociações estão progredindo e, portanto, decidiram suspender as medidas — embora Jamieson Greer, o representante comercial americano, já tenha afirmado que os dois países estão longe de chegar a um acordo. Ou Trump poderia atribuir o adiamento à solicitação de Bolsonaro.
Para membros do governo Lula, essa última possibilidade revelaria algo importante: que as tarifas têm raízes em considerações políticas externas, não em argumentos econômicos legítimos. A impressão que prevalece no Planalto é que Washington não está realmente levando em conta os argumentos técnicos apresentados pelos setores brasileiros durante a audiência pública. Por isso, o governo não pede o adiamento das sanções — fazê-lo seria, em certo sentido, legitimar a ideia de que elas têm alguma base técnica a ser discutida.
O que está em jogo vai além dos números de tarifa. A questão central é se as medidas americanas refletem preocupações comerciais genuínas ou se funcionam como instrumento de pressão política em um contexto de relações internacionais mais amplas. O Brasil aguarda a decisão final de Trump, esperada para meados de julho, sabendo que a resposta provavelmente virá na forma de implementação, não de recuo.
Citações Notáveis
Os dois países estão longe de chegar a um acordo— Jamieson Greer, representante comercial dos EUA
O Planalto considera as sanções injustificáveis e avalia que as tarifas têm origem em política externa, não econômica— Integrantes do governo Lula
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo Lula não participou diretamente dessa audiência nos EUA?
Porque participar seria aceitar o enquadramento de que há algo a negociar em bases técnicas. O Planalto acredita que as tarifas são injustificáveis, então enviar observadores mantém a presença sem validar o processo.
E a presença de Flávio Bolsonaro muda alguma coisa?
Muda a narrativa. Se Trump aiar as tarifas e disser que foi por causa do pedido de Bolsonaro, fica claro que isso é política, não comércio. O governo teme exatamente isso.
O Brasil tem alguma carta para jogar?
Não muita. O representante comercial americano já disse que estão longe de um acordo. O Brasil pode manter sua posição moral, mas as tarifas parecem estar vindo de qualquer forma.
Qual é a diferença entre os dois cenários que o Planalto está considerando?
Um é a realidade que esperam. O outro é uma esperança fraca. A diferença é se Trump implementa ou adia, mas em ambos os casos o Brasil já perdeu a chance de evitar isso.
Por que o governo não pede adiamento?
Porque pedir adiamento seria admitir que há uma base legítima para as tarifas. É melhor manter que são injustas e deixar que Trump tome a decisão sozinho.