O governo tenta acertar a dose certa, medida por medida, setor por setor
A partir desta quarta-feira, uma tarifa americana de 50% sobre produtos brasileiros começa a redesenhar os fluxos do comércio entre dois dos maiores parceiros das Américas. O governo Lula, pressionado pelo relógio e pelo risco de demissões em massa, articula em silêncio um plano de contingência setorial enquanto mantém a diplomacia como sua aposta mais cara. É o momento em que a política econômica e a geopolítica se encontram na linha de produção de milhares de trabalhadores brasileiros.
- Uma tarifa de 50% imposta por Trump — construída em duas etapas desde abril — entra em vigor nesta quarta-feira e atinge quase 36% de tudo que o Brasil exporta aos Estados Unidos.
- O risco imediato é humano: empresas exportadoras ameaçam demitir assim que o impacto financeiro começar a aparecer nos balanços.
- O ministro Haddad 'calibra' medidas de emergência — compensações, incentivos fiscais e crédito — prometendo que nenhuma delas vai comprometer a meta fiscal.
- Estados como São Paulo e Rio Grande do Sul saíram na frente com pacotes bilionários de crédito, enquanto Brasília ainda finaliza sua resposta federal.
- A diplomacia segue como aposta principal: o Tesouro americano já agendou novas reuniões com Haddad, e o governo brasileiro trata retaliações mais duras como último recurso.
Na quarta-feira, uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros entra em vigor nos Estados Unidos — resultado de dois movimentos de Trump: uma alíquota inicial de 10% em abril, acrescida de mais 40 pontos percentuais no início de agosto, oficializada por ordem executiva. Quase 36% das exportações brasileiras ao mercado americano serão afetadas, embora cerca de 700 produtos — entre eles suco de laranja, aeronaves e petróleo — tenham ficado de fora e sigam sujeitos apenas à tarifa menor.
O ministro Fernando Haddad passou os últimos dias ajustando um plano de contingência que, segundo ele, está sendo 'calibrado' com precisão cirúrgica. O governo quer ouvir sindicatos antes de anunciar qualquer medida, e a resposta será setorial — não um pacote genérico. Compensações diretas, incentivos fiscais e linhas de crédito estão na mesa, tudo dentro dos limites da meta fiscal. O vice-presidente Alckmin lidera o diálogo com empresários dos setores atingidos para mapear o tamanho real do estrago.
Enquanto Brasília ainda delibera, os estados agiram primeiro. O Rio Grande do Sul lançou 100 milhões de reais em crédito para exportadores; São Paulo foi mais longe, com 400 milhões em empréstimos e 1,5 bilhão em créditos de ICMS liberados. Governadores do Nordeste se articulam para uma reunião com Lula marcada para a própria quarta-feira — o mesmo dia em que a tarifa passa a valer.
A diplomacia permanece como a principal aposta do governo federal. O Tesouro americano já procurou Haddad para agendar novas reuniões, e auxiliares de Lula defendem que medidas de retaliação devem ser reservadas para o último caso. A esperança é que as ações de emergência sejam temporárias — e que as negociações consigam reverter ou reduzir a tarifa antes que o dano se torne irreversível para trabalhadores e empresas.
Na quarta-feira que vem, uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros entra em vigor nos Estados Unidos. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está correndo contra o relógio para anunciar as primeiras respostas — um conjunto de medidas de emergência desenhado para evitar que empresas demitam em massa quando o impacto começar a bater.
A tarifa é o resultado de dois movimentos do presidente Donald Trump. Em abril, ele sinalizou uma alíquota de 10%. No começo deste mês, adicionou mais 40 pontos percentuais. Na quinta-feira passada, assinou a ordem executiva que oficializou tudo. O estrago é considerável: segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, quase 36% de tudo que o Brasil exporta para os Estados Unidos está sujeito a essa taxa. Nem tudo, porém. Trump deixou de fora quase 700 produtos — suco de laranja, aeronaves, castanhas, petróleo, minérios de ferro. Esses itens sofrerão apenas com a alíquota de 10%.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem passado os últimos dias ajustando os detalhes de um plano de contingência. Na sexta-feira, ele explicou que as medidas estão sendo "calibradas" — palavra que sugere precisão, cálculo, a tentativa de acertar a dose certa. Antes de anunciar qualquer coisa, o governo quer conversar com sindicatos. A ideia é que as ações sejam específicas por setor, não um pacote único e genérico. Podem envolver compensações diretas, incentivos fiscais, linhas de crédito, outros tipos de apoio. Haddad deixou claro que nada disso vai furar a meta fiscal — a preocupação com o equilíbrio das contas públicas segue intacta mesmo em meio à crise.
O vice-presidente Geraldo Alckmin está à frente das negociações com empresários dos setores atingidos. Ele vai recebê-los novamente para mapear o tamanho real do estrago. Ao mesmo tempo, o governo tenta manter a porta aberta com Washington. Auxiliares defendem que a via diplomática é o caminho — reações mais duras devem ficar guardadas para o último caso. A Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos já procurou Haddad para agendar novas reuniões. Scott Bessent, o titular do órgão, esteve com o ministro em maio, quando o tema das tarifas foi levantado pela primeira vez.
Enquanto Brasília ainda avalia suas opções, estados não esperaram. O Rio Grande do Sul lançou um programa de crédito de 100 milhões de reais para exportadores. São Paulo foi mais ambicioso: anunciou 400 milhões em empréstimos, mais 1,5 bilhão em créditos acumulados do ICMS que serão liberados. Governadores do Nordeste se articularam para discutir estratégias regionais. Eles devem se reunir com Lula na quarta-feira, o mesmo dia em que a tarifa entra em vigor.
O que vem agora é um teste de velocidade e coordenação. O governo federal precisa anunciar suas medidas antes que o impacto comece a aparecer nos números de demissão. Os estados já estão na frente. E a diplomacia segue como a aposta principal — a ideia é que as medidas de emergência sejam temporárias, que as negociações consigam reverter ou reduzir a tarifa antes que o dano se torne permanente.
Citações Notáveis
As medidas estão sendo calibradas e devem ser discutidas com sindicatos antes do anúncio— Fernando Haddad, ministro da Fazenda
O conjunto de medidas não vai impactar a meta fiscal— Fernando Haddad, ministro da Fazenda
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo espera até agora para anunciar as medidas, se a tarifa foi oficializada na semana passada?
Porque precisa calcular com precisão. Não é só sair anunciando dinheiro — é preciso saber quanto cada setor vai perder, quais empresas correm risco de demitir, onde o apoio vai fazer diferença. Haddad disse que as medidas estão sendo "calibradas". Isso significa que estão tentando acertar a dose.
E por que não um pacote único? Por que medidas específicas por setor?
Porque cada setor é diferente. Uma empresa de suco de laranja não tem os mesmos problemas que um fabricante de peças de aeronave. O governo quer que as ações façam sentido para quem está recebendo, não que sejam genéricas demais para não ajudar ninguém.
Mas e a meta fiscal? Como o governo consegue gastar com essas medidas sem estourar o orçamento?
Essa é a pergunta que Haddad respondeu: ele disse que o conjunto de medidas não vai impactar a meta fiscal. Ou seja, ou o dinheiro já estava previsto em algum lugar, ou as ações não envolvem tanto gasto assim. Provavelmente uma mistura dos dois.
Trump deixou alguns produtos de fora. Por quê?
Não está claro. Pode ser pressão de setores americanos que dependem desses produtos brasileiros — suco de laranja, por exemplo, é importante para consumidores nos EUA. Ou pode ser que Trump esteja deixando espaço para negociar depois. Se você tira 700 produtos da lista, você tem 700 moedas de troca.
Os estados estão se movendo mais rápido que o governo federal?
Estão. São Paulo e Rio Grande do Sul já anunciaram pacotes de crédito. Os governadores do Nordeste estão se articulando. O governo federal ainda está "calibrando". Pode ser que os estados vejam a urgência de forma diferente, ou que tenham mais flexibilidade para agir rápido.
E se as negociações com os EUA não funcionarem?
Aí as medidas de emergência viram permanentes, e o Brasil precisa se adaptar a uma nova realidade comercial. Mas por enquanto, a aposta é que a diplomacia consiga reverter ou reduzir a tarifa antes que o dano seja irreversível.