Cada real adicional pode alavancar dez a doze em crédito total
Em meio a uma maré crescente de recuperações judiciais e juros que sufocam o crédito, o governo Lula articula um programa de refinanciamento destinado a empresas de médio porte — aquelas que faturam até R$ 300 milhões ao ano e que, invisíveis demais para os grandes resgates e grandes demais para os programas de microcrédito, ficaram presas entre dois mundos. O mecanismo escolhido é antigo, mas a urgência é nova: usar garantias públicas para destravar o sistema financeiro privado, numa aposta de que cada real injetado pelo Estado pode multiplicar-se em dez ou doze nas mãos da economia real. É a geometria clássica do Estado como fiador — e o momento em que ela é convocada revela o quanto o tecido empresarial brasileiro está sob tensão.
- Em 2025, cerca de 2,5 mil empresas pediram recuperação judicial — o maior número já registrado —, e o governo teme que 2026, ano eleitoral, seja ainda pior.
- Com a Selic em 14,75% ao ano e o endividamento de famílias e empresas em níveis elevados, o crédito está se contraindo justamente quando mais é necessário.
- O PEAC-FGI, fundo administrado pelo BNDES, será o instrumento central: ao cobrir parte do risco dos bancos, reduz o custo do financiamento para empresas que hoje encontram portas fechadas.
- O governo estuda ampliar os aportes ao fundo — cada R$ 1 bilhão adicional pode alavancar entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões em crédito, tornando a medida fiscalmente atraente.
- O pacote deve ir além das médias empresas, alcançando motoristas de aplicativo, microempreendedores individuais e pessoas físicas, reconhecendo que a contração de crédito atravessa toda a economia.
O governo federal está desenhando um pacote de refinanciamento de dívidas voltado a empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões — as chamadas médio-grandes. O instrumento central é o PEAC-FGI, programa operado pelo BNDES que funciona como um escudo parcial contra inadimplência: ao cobrir parte do risco dos bancos, abre espaço para que o crédito chegue a quem hoje não consegue acessá-lo.
A urgência da medida tem endereço claro. Em 2025, os pedidos de recuperação judicial atingiram cerca de 2,5 mil — recorde histórico. Com a taxa básica de juros em 14,75% ao ano e o endividamento de famílias e empresas em patamares elevados, o próprio Banco Central sinalizou que o risco de crédito para pequenas e médias empresas está em trajetória de piora. O sistema financeiro, lendo esse sinal, está apertando ainda mais o acesso ao dinheiro.
O programa já tem histórico: em 2025, o PEAC-FGI garantiu cerca de R$ 120 bilhões em operações. Para 2026, a previsão inicial era de R$ 60 bilhões, mas o governo considera ampliar esse volume com novos aportes federais. A matemática é atrativa — cada R$ 1 bilhão adicional pode alavancar entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões em crédito total.
O tema foi discutido no Palácio do Planalto entre o ministro da Fazenda Dario Durigan, o presidente Lula e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Galípolo tem defendido que o endividamento das famílias exige soluções estruturais — aumento de renda e produtividade — e não apenas ajustes monetários. Ao comentar dificuldades de empresas como Raízen e Grupo Pão de Açúcar, apontou uma combinação de fatores: governança, desafios estruturais e os efeitos do ciclo de juros altos.
O pacote deve ser mais amplo do que parece: além das médias empresas, pode contemplar motoristas e entregadores de aplicativos, microempreendedores individuais e pessoas físicas. É o reconhecimento de que a contração de crédito não é um problema isolado — ela atravessa toda a economia. O que vier a seguir dependerá de quanto o governo conseguir injetar no fundo e de como o Banco Central responderá com sua política de juros.
O governo federal está montando um pacote de refinanciamento de dívidas que pode alcançar empresas de médio porte com faturamento anual de até R$ 300 milhões. Segundo pessoas familiarizadas com os detalhes da iniciativa, essas companhias — classificadas como médio-grandes — terão acesso a garantias por meio do Programa Emergencial de Acesso ao Crédito, operacionalizado através do Fundo Garantidor para Investimentos, que é administrado pelo BNDES.
O mecanismo funciona de forma relativamente simples: o fundo atua como um escudo parcial contra o risco de inadimplência, cobrindo parte da exposição que os bancos enfrentariam ao emprestar. Isso reduz o custo final do financiamento para as empresas e abre portas que estão fechadas em um ambiente de crédito contraído. A urgência por essa medida reflete uma realidade incômoda: em 2025, o número de pedidos de recuperação judicial atingiu aproximadamente 2,5 mil empresas, o maior patamar já registrado. Em um ano eleitoral, o governo está claramente preocupado com a possibilidade de uma onda de falências.
O cenário que pressionou essa decisão é bem conhecido. A taxa básica de juros permanece em 14,75% ao ano — um nível que funciona como um peso morto sobre qualquer empresa que dependa de financiamento. Famílias e empresas carregam endividamento elevado. O Banco Central, em documento recente, sinalizou que o risco de crédito para pequenas e médias empresas está em trajetória de piora, com casos pontuais de deterioração até mesmo em companhias maiores. A instituição advertiu que esse ambiente de juros altos, combinado com o endividamento generalizado, exige cautela nas concessões de crédito — uma mensagem que, lida entre linhas, significa que o sistema financeiro está apertando ainda mais o acesso ao dinheiro.
O programa já tem histórico. No ano passado, o PEAC-FGI garantiu cerca de R$ 120 bilhões em operações de crédito para empresas nessa faixa de faturamento. Para 2026, a previsão inicial era de aproximadamente R$ 60 bilhões — metade do volume anterior. Mas o governo está considerando ampliar esse número com novos aportes federais ao fundo. A matemática é atrativa: cada R$ 1 bilhão adicional injetado pode alavancar entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões em crédito total, graças ao efeito multiplicador das garantias.
O tema foi discutido em reuniões recentes no Palácio do Planalto. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, conversou sobre o assunto com sua equipe e depois com o presidente Lula, em encontro que também contou com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. Galípolo tem insistido que o endividamento das famílias — especialmente no crédito rotativo do cartão — demanda soluções estruturais: aumento de renda, ganhos de produtividade, não apenas ajustes na política monetária. Ao comentar casos recentes de empresas como Raízen e Grupo Pão de Açúcar enfrentando dificuldades, Galípolo apontou uma mistura de fatores: questões de governança corporativa, desafios estruturais da economia e os efeitos do ciclo de juros elevados.
O pacote em elaboração vai além das médias empresas. Deve incluir medidas para pessoas físicas também, além de iniciativas setoriais específicas. Motoristas e entregadores de aplicativos podem ser contemplados, assim como microempreendedores individuais de áreas selecionadas. É um esforço que reconhece a amplitude da pressão sobre o crédito — não é um problema isolado de um segmento, mas uma contração que atravessa toda a economia. O que acontece nos próximos meses dependerá de quanto o governo conseguir injetar no fundo e de como o Banco Central responderá com sua política de juros.
Citações Notáveis
O ambiente de taxa básica de juros contracionista, aliado ao elevado endividamento de famílias e empresas, requer cautela nas concessões de crédito— Banco Central do Brasil, em ata de março do Comitê de Estabilidade Financeira
As dificuldades do setor resultam de uma combinação de fatores, incluindo questões de governança, desafios estruturais e os efeitos do ciclo de juros elevados— Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo está focando especificamente em empresas com faturamento até R$ 300 milhões?
Porque esse é o ponto onde o mercado falha. Grandes empresas conseguem acessar crédito direto; microempresas têm programas específicos. Mas as médias — aquelas que empregam dezenas ou centenas de pessoas — ficam presas no meio, sem acesso fácil a financiamento.
E o fundo garantidor realmente funciona? Como um banco se sente mais seguro com uma garantia parcial?
A garantia reduz a perda potencial do banco. Se o fundo cobre 70% do risco, o banco só perde 30%. Isso muda o cálculo: em vez de recusar um empréstimo arriscado, o banco aceita porque sua exposição é menor.
Mas se a taxa de juros está em 14,75%, mesmo com garantia, o custo não continua alto?
Continua alto, sim. Mas é menos alto do que seria sem a garantia. E em um ambiente onde o crédito está secando, "menos alto" pode ser a diferença entre uma empresa sobreviver ou fechar.
O governo está realmente preocupado com falências em ano eleitoral?
Está. Dois mil e quinhentas empresas em recuperação judicial é um sinal de que algo está quebrado. Cada uma dessas empresas representa empregos, fornecedores, comunidades afetadas. Politicamente, é um desastre.
Galípolo mencionou que o problema é estrutural, não apenas de juros. O que ele quer dizer?
Que mesmo com juros mais baixos, algumas empresas não conseguem ser produtivas o suficiente para pagar dívidas. Precisam de investimento em tecnologia, em pessoas, em processos. Um programa de crédito é um curativo, não uma cura.
Então esse pacote é suficiente?
Provavelmente não. É um passo, uma tentativa de ganhar tempo enquanto a economia se reorganiza. Mas sem mudanças maiores — em produtividade, em competitividade — o problema vai voltar.