Governo lança Desenrola para adimplentes, mas bancos esperam baixa adesão

O programa potencialmente beneficiaria entre 200 mil a 500 mil trabalhadores informais endividados, oferecendo alívio financeiro através de redução significativa de taxas de juros.
O maior risco é a baixa adesão e um universo pequeno de clientes elegíveis
Executivos do setor bancário explicam por que esperam que o programa tenha impacto limitado no mercado de crédito.

Em junho de 2026, o governo federal brasileiro lançou uma nova versão do Desenrola voltada a trabalhadores informais adimplentes, oferecendo taxas de juros de 1,99% ao mês em contraste com os 6% a 12% do mercado — um gesto de inclusão financeira para uma parcela historicamente marginalizada do crédito. O setor bancário, porém, recebeu a iniciativa com ceticismo calculado, sinalizando adesão limitada diante de restrições operacionais e baixa rentabilidade. Por trás do alívio prometido a até 500 mil pessoas, economistas enxergam tensões mais profundas: o risco moral de programas recorrentes, a pressão sobre a dívida pública e os desafios estruturais do endividamento das famílias brasileiras.

  • Trabalhadores informais endividados enfrentam juros de até 12% ao mês no mercado convencional, excluídos do crédito consignado e presos em ciclos de dívida cara.
  • O governo fixou a taxa máxima em 1,99% ao mês e prometeu garantias do FGO, mas apenas Banco do Brasil e Caixa confirmaram adesão inicial — grandes bancos privados ainda avaliavam ou silenciaram.
  • Febraban e ABBC alertaram que critérios de elegibilidade restritivos e desafios operacionais limitariam o alcance real do programa, especialmente em sua fase inicial.
  • Economistas apontam risco moral crescente: com dois Desenrolas em dois anos, devedores podem começar a postergar pagamentos na expectativa de novos programas de renegociação.
  • A dívida bruta do governo já supera 80% do PIB, e o Copom alertou que o aumento de crédito direcionado pode elevar a taxa de juros neutra da economia, complicando o controle inflacionário.

O governo federal lançou em junho uma nova versão do Desenrola direcionada a trabalhadores informais com dívidas em dia ou com até 90 dias de atraso. A taxa máxima foi fixada em 1,99% ao mês — uma redução expressiva frente aos 6% a 12% praticados no mercado para esse público, historicamente excluído do crédito consignado. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, estimou que entre 200 mil e 500 mil pessoas poderiam ser beneficiadas.

As regras estabeleceram critérios específicos: dívidas de crédito pessoal não consignado com ao menos quatro parcelas pagas, saldo de até R$ 15 mil e atraso máximo de 90 dias. O trabalhador ainda poderia contratar empréstimo adicional de até 50% do saldo devedor, e o Fundo Garantidor de Operações cobriria 50% das primeiras perdas da carteira. O ministro Bruno Moretti informou que o programa demandaria R$ 4 bilhões em funding reembolsável, sem impacto primário nas contas públicas.

O setor bancário, no entanto, recebeu a iniciativa com frieza. Febraban e ABBC previram adesão limitada, citando desafios operacionais e critérios próprios de risco. Apenas Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal confirmaram participação inicial; Nubank, Bradesco e Itaú ainda avaliavam; Santander não se pronunciou. Em conversas privadas, executivos reconheceram que o racional do programa não era ruim, mas que a taxa de 1,99% não gerava entusiasmo suficiente — e que o universo de clientes elegíveis era pequeno.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu a iniciativa como inédita no olhar ao trabalhador informal sem carteira assinada e rejeitou críticas sobre impactos na política monetária. Mas economistas mantiveram reservas. O Copom alertou que o aumento de crédito direcionado pode elevar a taxa de juros neutra, enquanto a dívida bruta do governo já superava 80% do PIB. Flávio Ataliba, do FGV/Ibre, reconheceu o mérito do programa, mas apontou seu limite estrutural — e o risco moral de uma população que, com dois Desenrolas em dois anos, pode começar a contar com novos programas de renegociação como parte do horizonte financeiro.

O governo federal apresentou em junho uma nova versão do Desenrola, seu programa de renegociação de dívidas, desta vez direcionado especificamente a trabalhadores informais que estão em dia com seus pagamentos ou com atrasos de até 90 dias. A taxa de juros foi fixada em 1,99% ao mês — uma redução drástica frente aos 6% a 12% que esses mesmos trabalhadores enfrentam no mercado convencional. Apesar da intenção de oferecer alívio financeiro a uma população historicamente excluída do crédito consignado, o setor bancário recebeu a iniciativa com ceticismo.

Os bancos, representados pela Febraban e pela Associação Brasileira de Bancos, sinalizaram que esperavam uma adesão limitada. A Febraban afirmou que a participação seria uma decisão individual de cada instituição, observadas suas políticas de crédito e estratégias de negócio. A ABBC foi mais direta: previu um alcance moderado, argumentando que as regras de elegibilidade restringem o universo de beneficiários potenciais e que desafios operacionais relevantes dificultariam a implementação efetiva. Ambas as associações deixaram claro que critérios próprios de avaliação de risco e prioridades operacionais tenderiam a limitar ainda mais o alcance real do programa, especialmente em sua fase inicial.

O programa estabeleceu parâmetros específicos para quem poderia se beneficiar. Seriam elegíveis dívidas de crédito pessoal não consignado com pelo menos quatro parcelas já pagas, saldo de até R$ 15 mil, e atraso máximo de 90 dias. O prazo de pagamento variaria conforme o prazo remanescente da dívida original, indo de um mês para dívidas com até seis meses de prazo até seis meses para dívidas com mais de 24 meses. Havia ainda a possibilidade de o trabalhador contratar um empréstimo adicional de até 50% do saldo devedor, com a nova prestação não ultrapassando 90% da prestação original. O Fundo Garantidor de Operações ofereceria garantia de 50% nas primeiras perdas da carteira, com cobertura de 100% por operação.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, estimou que o programa poderia beneficiar entre 200 mil e 500 mil pessoas. Apenas o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal manifestaram interesse inicial em aderir. Nubank, Bradesco e Itaú Unibanco disseram que ainda avaliavam sua participação, enquanto o Santander não se pronunciou. Quando procurados, Caixa e BB confirmaram que adeririam após a publicação das normas técnicas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu a iniciativa argumentando que era a primeira vez que o governo olhava especificamente para o trabalhador informal sem carteira assinada. Ele negou que o programa tivesse impactos macroeconômicos prejudiciais à política monetária, descrevendo essa conclusão como uma "enorme forçação de barra". Para Durigan, os informais não acessam crédito consignado e recorrem ao crédito direto ao consumidor com taxas muito mais altas. O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, informou que o programa demandaria um aporte de R$ 4 bilhões em forma de funding, mas que esse recurso seria reembolsável e não teria impacto primário nas contas públicas.

No entanto, economistas e analistas do setor financeiro expressavam preocupações mais amplas. O Comitê de Política Monetária do Banco Central alertou que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública poderiam elevar a taxa de juros neutra da economia. A dívida bruta do governo geral já havia superado 80% do PIB, tendo subido mais de 8 pontos percentuais em relação ao PIB desde o início do mandato de Lula. Especialistas projetavam que o indicador continuaria em alta nos próximos anos.

Executivos do setor bancário, em conversas privadas, apontavam que o racional do programa não era ruim, mas que a taxa de 1,99% não era atrativa o suficiente para gerar entusiasmo. O maior risco identificado era a baixa adesão: o universo de clientes que se enquadravam nas regras era pequeno, e muitos devedores não se sentiam motivados a trocar de dívida. Um executivo sugeriu que os bancos poderiam usar o programa principalmente para melhorar o risco de clientes adimplentes mas com deterioração na capacidade de pagamento, mas que a efetividade geral seria baixa.

Flávio Ataliba, pesquisador do FGV/Ibre, reconheceu que o programa era interessante, mas alertou que não resolvia o problema estrutural do elevado endividamento das famílias brasileiras. Ele apontou ainda para o risco moral: com o primeiro Desenrola lançado em 2023 e um novo anunciado cerca de dois anos depois, as pessoas começavam a ter a perspectiva de que haveria um novo programa a cada dois anos, criando incentivos perversos para o comportamento de pagamento.

Pela primeira vez na história, o governo está olhando para o trabalhador informal, que não tem carteira assinada
— Ministro da Fazenda Dario Durigan
O maior risco para o programa é a baixa adesão. O universo que se enquadra nessa regra é pequeno
— Executivo do setor bancário
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que os bancos não estão entusiasmados com uma taxa de 1,99% ao mês, que é tão mais baixa que o mercado?

Model

Porque essa taxa só funciona para um nicho muito específico — trabalhadores informais com dívidas pequenas e risco elevado. Para os bancos, é uma operação que não gera margem suficiente e que ainda exige estrutura operacional complexa para implementar.

Inventor

Então o programa vai fracassar?

Model

Não necessariamente fracassar, mas terá alcance muito menor do que o governo espera. Pode beneficiar entre 200 mil e 500 mil pessoas, conforme estimado, mas dependerá de quantos bancos realmente aderirem além do Banco do Brasil e Caixa.

Inventor

O governo diz que não há impacto macroeconômico. Isso é verdade?

Model

É discutível. O governo argumenta que são operações já em curso, não estímulo novo. Mas o Banco Central está preocupado com o padrão maior: crédito direcionado crescente, dívida pública acima de 80% do PIB, e sinais de que as reformas estruturais estão perdendo força.

Inventor

E esse risco moral que mencionaram?

Model

É real. Se o governo lançou um Desenrola em 2023 e outro em 2026, as pessoas começam a esperar que haja um a cada dois anos. Isso muda o incentivo para pagar dívidas — por que pagar agora se pode esperar pelo próximo programa?

Inventor

Qual é o verdadeiro problema que o programa não resolve?

Model

O endividamento estrutural das famílias. O programa trata o sintoma — uma dívida específica com taxa alta — mas não toca nas razões pelas quais as pessoas se endividam tanto em primeiro lugar.

Inventor

Então por que o governo lançou?

Model

Porque é uma medida visível e popular em ano de eleição. Oferece alívio real para quem se qualifica, mesmo que o alcance seja limitado. É política, não apenas economia.

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