Governo central registra déficit primário de R$ 53 bi em maio, em linha com expectativas

O gasto cresce mais rápido que a arrecadação, e isso é insustentável
Despesas cresceram 9,4% enquanto receitas avançaram apenas 5,5% em maio.

Em maio de 2026, o governo central brasileiro registrou um déficit primário de R$ 53,3 bilhões — número esperado pelos mercados, mas que carrega em si uma advertência mais profunda: nos primeiros cinco meses do ano, o rombo acumulado de R$ 44,4 bilhões representa a pior abertura fiscal desde a pandemia de 2020. Enquanto as receitas crescem, as despesas crescem mais rápido ainda, e o país se vê diante da tensão clássica entre o peso das obrigações presentes e a promessa de equilíbrio futuro.

  • O déficit de maio confirma uma trajetória em que os gastos — crescendo 9,4% em termos reais — superam consistentemente as receitas, que avançaram apenas 5,5%.
  • Os benefícios previdenciários acumularam alta de 15,3% nos primeiros cinco meses do ano, tornando-se o principal vetor de pressão sobre as contas públicas.
  • A queda de 76,4% nos dividendos de estatais retirou R$ 7,3 bilhões do caixa em relação a maio de 2025, agravando um quadro já fragilizado.
  • O governo aposta no segundo semestre para reverter parte do desequilíbrio, projetando maior arrecadação de dividendos e redução das despesas em relação ao PIB.
  • O déficit acumulado em 12 meses já alcança 1,06% do PIB, invertendo o superávit de R$ 18,7 bilhões registrado no mesmo período do ano anterior e distanciando o país da meta de 0,25% de superávit para 2026.

O Tesouro Nacional revelou na segunda-feira que o governo central encerrou maio com um déficit primário de R$ 53,257 bilhões. As receitas líquidas somaram R$ 197,977 bilhões — crescimento real de 5,5% ante maio de 2025 —, mas as despesas totais chegaram a R$ 251,233 bilhões, avanço de 9,4%, evidenciando um desequilíbrio estrutural em que o gasto corre mais veloz que a arrecadação.

Entre as receitas, houve ganhos expressivos: a CSLL subiu 36,7%, a Cofins avançou 9,2% e a exploração de recursos naturais saltou 84,5%. Esses avanços, porém, foram parcialmente anulados pela queda de 76,4% nos dividendos de estatais, que deixou o caixa R$ 7,3 bilhões abaixo do registrado em maio do ano anterior. Nas despesas, os benefícios previdenciários cresceram 4,2% no mês, enquanto abonos e seguro-desemprego subiram 9,8%.

O acumulado dos cinco primeiros meses é ainda mais revelador: o déficit de R$ 44,385 bilhões contrasta com o superávit de R$ 32,940 bilhões registrado no mesmo período de 2025 — o pior resultado para esse intervalo desde 2020. Os gastos previdenciários acumulados chegaram a R$ 185,706 bilhões, alta real de 15,3%, consolidando-se como o maior desafio fiscal do país. O secretário do Tesouro, Daniel Cardoso Leal, disse não ver necessidade de ajustes imediatos nas regras previdenciárias, mas admitiu abertura para debater a sustentabilidade de longo prazo.

Para o segundo semestre, o governo projeta redução das despesas totais para cerca de 19% do PIB e espera recuperar a arrecadação de dividendos, buscando atingir os R$ 54 bilhões previstos para o ano. No horizonte de 12 meses, contudo, o déficit já alcança R$ 142,3 bilhões, ou 1,06% do PIB. Leal atribuiu parte da piora ao calendário de pagamento de precatórios e evitou aprofundar a discussão sobre a relação entre o estímulo fiscal e a manutenção da Selic em 14,25% ao ano pelo Banco Central.

O Tesouro Nacional divulgou na segunda-feira um déficit primário de R$ 53,257 bilhões referente a maio, resultado que se alinha com as projeções do mercado financeiro mas que revela uma trajetória fiscal cada vez mais desafiadora. O mês passado ficou marcado por receitas líquidas de R$ 197,977 bilhões — cifra que exclui transferências para governos regionais — representando um crescimento real de 5,5% comparado ao mesmo período de 2025. Simultaneamente, as despesas totais atingiram R$ 251,233 bilhões, um aumento real de 9,4%, criando um desequilíbrio onde o gasto cresce mais rapidamente que a arrecadação.

No lado das receitas, ganhos foram distribuídos entre diversos tributos e fontes. A Contribuição Social sobre Lucro Líquido subiu R$ 3,8 bilhões, um crescimento de 36,7%, enquanto a Cofins avançou R$ 2,7 bilhões com alta de 9,2%. O resultado líquido da Previdência contribuiu com R$ 3,1 bilhões adicionais, crescimento de 5,3%, e a exploração de recursos naturais injetou R$ 6,3 bilhões no caixa, um salto de 84,5%. Esses ganhos, porém, foram parcialmente neutralizados por uma queda acentuada nos dividendos de estatais, que recuaram 76,4%, deixando o governo R$ 7,3 bilhões abaixo do arrecadado em maio do ano anterior.

Do lado das despesas, o quadro é de pressão contínua. Os benefícios previdenciários cresceram R$ 4,9 bilhões em maio, alta de 4,2%, enquanto abonos e seguro-desemprego subiram R$ 1 bilhão, crescimento de 9,8%. Uma pequena compensação veio da redução de 50,5% nos desembolsos com subsídios, subvenções e Programa de Garantia da Atividade Agropecuária, que representou uma economia de R$ 1,7 bilhão. Quando se observa o acumulado dos cinco primeiros meses do ano, o cenário se torna ainda mais preocupante: o governo central acumulou um déficit de R$ 44,385 bilhões, invertendo completamente a posição de um ano atrás, quando havia registrado um superávit de R$ 32,940 bilhões no mesmo período. Este é o pior resultado para os cinco primeiros meses desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou um rombo de R$ 319,3 bilhões em decorrência dos desembolsos emergenciais do governo.

A pressão sobre as despesas previdenciárias é particularmente intensa. Nos primeiros cinco meses de 2026, os gastos com benefícios previdenciários atingiram R$ 185,706 bilhões, representando um crescimento real de 15,3% em relação aos R$ 154,290 bilhões do mesmo período do ano anterior. Esse crescimento acelerado da despesa obrigatória coloca em evidência um dos principais desafios fiscais do país. Daniel Cardoso Leal, secretário do Tesouro Nacional, afirmou em entrevista que não vê necessidade de ajustes imediatos nas regras previdenciárias, mas ressalvou que a pasta permanece aberta a discussões sobre medidas que assegurem a sustentabilidade fiscal de longo prazo.

Ao analisar a trajetória esperada para o segundo semestre, Leal projetou uma redução nas despesas totais, com expectativa de que retornem para cerca de 19% do Produto Interno Bruto, possivelmente menos. No acumulado de 12 meses até maio, as despesas totais do governo central atingiram 19,6% do PIB, com despesas obrigatórias em 17,71% e despesas discricionárias em 1,85%. Quanto às receitas, o governo espera compensar a queda nos dividendos de estatais — que somaram apenas R$ 8,1 bilhões até maio — com maior arrecadação no segundo semestre, buscando atingir os R$ 54 bilhões previstos para o ano inteiro.

O quadro de 12 meses revela uma deterioração ainda mais profunda. O governo central registrou um déficit de R$ 142,3 bilhões, equivalente a 1,06% do Produto Interno Bruto, em contraste com o superávit de R$ 18,7 bilhões observado nos 12 meses até maio de 2025. Leal atribuiu parte dessa discrepância ao calendário de pagamento de precatórios, que ocorreu em março deste ano, enquanto no ano anterior havia sido em junho. Para 2026, o governo estabeleceu uma meta de superávit primário de 0,25% do PIB, com uma tolerância de 0,25 ponto percentual e algumas despesas que não são contabilizadas nesse cálculo.

Questionado sobre a relação entre os estímulos fiscais e a necessidade de o Banco Central manter a taxa Selic em patamares elevados para conter a inflação, Leal argumentou que é "difícil falar que só isso justifica juros do BC mais altos", citando outras peculiaridades da economia brasileira que também explicariam o nível das taxas de juros, atualmente em 14,25% ao ano. O secretário evitou, porém, detalhar quais seriam esses outros fatores. O governo reafirmou seu objetivo de conter o crescimento das despesas em relação ao PIB e destacou que ao longo dos anos a política fiscal vem reduzindo os estímulos à economia, ainda que os números de maio e do acumulado do ano indiquem um caminho ainda distante dessa meta.

Não há necessidade de ajustes imediatos nas regras previdenciárias, mas a pasta está sempre aberta a discutir medidas que assegurem a sustentabilidade fiscal
— Daniel Cardoso Leal, secretário do Tesouro Nacional
É difícil falar que só os estímulos fiscais justificam juros do BC mais altos; há várias outras peculiaridades da economia brasileira que também justificam o nível das taxas de juros
— Daniel Cardoso Leal
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um déficit de R$ 53 bilhões em um mês é considerado "em linha com expectativas" se é um número tão grande?

Model

Porque o mercado já esperava algo próximo disso. O que importa não é o número isolado, mas se ele surpreende para cima ou para baixo. Neste caso, o Tesouro entregou o que havia sinalizado.

Inventor

Mas as despesas cresceram 9,4% enquanto as receitas cresceram apenas 5,5%. Isso não é insustentável?

Model

É exatamente o problema que o governo está tentando comunicar. O gasto está crescendo mais rápido que a arrecadação, e isso é insustentável a longo prazo. Por isso o secretário fala em conter o crescimento das despesas.

Inventor

A queda de 76% nos dividendos de estatais parece um buraco enorme. Como o governo pretende compensar isso?

Model

Espera receber mais dividendos no segundo semestre. Mas é uma aposta — se as estatais não tiverem lucros suficientes, o governo fica descoberto. É um risco real.

Inventor

Os gastos previdenciários cresceram 15,3%. Por que o secretário diz que não há necessidade de ajustes imediatos?

Model

Porque ajustes nas regras previdenciárias são politicamente custosos e tecnicamente complexos. Ele está sinalizando que o governo prefere explorar outras avenidas primeiro — reduzir outros gastos, aumentar receitas — antes de mexer na previdência.

Inventor

Qual é a relação entre esse déficit fiscal e a Selic em 14,25%?

Model

O Banco Central precisa manter juros altos para conter a inflação. Se o governo gasta demais, injeta mais dinheiro na economia, o que pressiona a inflação para cima. Então o BC aperta os juros. O secretário não quer admitir isso diretamente, mas é a lógica.

Inventor

Se a meta é superávit de 0,25% do PIB, como o governo está em déficit de 1,06%?

Model

Porque a realidade está longe da meta. O governo estabeleceu uma meta otimista, mas os números de maio e do acumulado mostram que ele está perdendo a corrida contra as despesas obrigatórias.

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