Gigantes do streaming se armam contra pedágio da internet

O mercado parou de crescer. Agora precisamos de outros modelos.
Executivo da Claro explicando por que as operadoras buscam acordos com plataformas de streaming.

No Brasil, operadoras de telecomunicações e gigantes digitais travam uma disputa silenciosa, mas de consequências profundas: quem arcará com o custo de manter e expandir as redes que sustentam a vida conectada de milhões de pessoas? Enquanto as teles investem dezenas de bilhões anualmente sem conseguir repassar esses custos, plataformas como Netflix e Google movimentam o Congresso para blindar seus modelos de negócio. O crescimento da inteligência artificial transforma essa tensão em urgência — e o Congresso Nacional em árbitro de um impasse que nenhum dos lados quer resolver sozinho.

  • As operadoras brasileiras investem R$ 40 bilhões por ano em infraestrutura, mas os preços ao consumidor estagnaram enquanto o mercado de banda larga parou de crescer — o modelo está financeiramente insustentável.
  • Netflix, Google, TikTok e Meta geram volumes crescentes de tráfego nas redes das teles sem contribuir diretamente para os custos, e agora articulam no Congresso um projeto de lei que tornaria qualquer cobrança sobre esse tráfego ilegal.
  • O vice-presidente da Claro acusou publicamente o representante das plataformas de 'jogo duplo': discurso de cooperação em público, lobby contra qualquer acordo nos bastidores.
  • A Anatel proíbe franquias de dados na banda larga fixa, impedindo as operadoras de cobrar mais de quem consome mais — uma restrição regulatória que as plataformas conveniente­mente omitem do debate.
  • Com a expansão da inteligência artificial prometendo multiplicar o consumo de dados, o Congresso se torna o campo onde dois blocos com poder de veto disputam quem pagará pela infraestrutura do futuro digital do país.

As operadoras de telecomunicações brasileiras — Claro, TIM, Vivo — investem dezenas de bilhões de reais por ano para manter e expandir suas redes. O problema é que o preço cobrado dos consumidores não acompanhou nem a inflação: um plano de 600 megabits que custaria mais de R$ 640 hoje, se corrigido desde o início, é vendido por cerca de R$ 100. O modelo sobreviveu enquanto a base de clientes crescia, mas o mercado de banda larga está estagnado há três anos em torno de 50 milhões de acessos.

Diante disso, as operadoras voltaram os olhos para as plataformas digitais — Netflix, Google, TikTok, Meta — que geram volumes imensos de tráfego em suas redes sem contribuir para os custos. A proposta é dividir os investimentos em infraestrutura. Mas o que parece uma negociação razoável esconde um conflito mais duro: as plataformas, reunidas na Digia, trabalham nos bastidores para aprovar o PL 469/2019, que proibiria qualquer cobrança baseada no aumento de tráfego gerado por seus serviços.

O confronto veio à tona em Brasília, quando o vice-presidente da Claro acusou o presidente da Digia de fazer jogo duplo — abertura pública ao diálogo, obstrução privada a qualquer acordo real. As plataformas respondem que o tráfego que geram é receita para as teles, não custo. As operadoras, por sua vez, apontam que a Anatel proíbe a criação de franquias de dados na banda larga fixa, impedindo-as de cobrar mais de quem consome mais.

A Claro encontrou uma saída parcial ao empacotar streamings com TV por assinatura, oferecendo por R$ 130 o que custaria R$ 225 se contratado separadamente. Mas se o PL 469/2019 for aprovado, esse tipo de acordo comercial fica comprometido. O horizonte da inteligência artificial torna o impasse ainda mais urgente: o consumo de dados vai crescer exponencialmente, as redes precisarão ser expandidas, e alguém terá de pagar. No Congresso, dois blocos com poder de veto se enfrentam — e nenhum dos dois demonstra disposição real para ceder.

As operadoras de telecomunicações brasileiras estão em guerra aberta com as gigantes do streaming e da tecnologia. O campo de batalha é o Congresso Nacional, e o prêmio em disputa é quem vai pagar pela infraestrutura de rede que a inteligência artificial vai exigir nos próximos anos.

A Claro, a TIM, a Vivo — todas investem dezenas de bilhões de reais anualmente para manter e expandir suas redes. Mas há um problema estrutural: o preço que cobram dos consumidores não mudou em anos. Um plano de banda larga de 600 megabits por segundo custa cerca de R$ 100 mensais. Se a Claro tivesse aplicado apenas a inflação oficial desde que lançou seu primeiro serviço de banda larga, há mais de 25 anos, esse mesmo plano custaria hoje mais de R$ 640. Em vez disso, ficou mais barato. O negócio se sustentou enquanto a base de clientes crescia, mas esse crescimento parou. O mercado de banda larga no Brasil está estagnado em torno de 50 milhões de acessos há três anos.

Então as operadoras olharam para Netflix, Google, TikTok e Meta — empresas que geram volumes imensos de tráfego de dados em suas redes — e pensaram: por que não dividir o custo? Fábio Andrade, vice-presidente da Claro, foi direto ao ponto durante um evento em Brasília há duas semanas. Acusou Alessandro Molon, presidente da Digia (a associação que representa as grandes plataformas), de fazer "jogo duplo". Em público, as plataformas fingem estar abertas a acordos de compartilhamento de investimentos. Nos bastidores, elas trabalham para aprovar um projeto de lei que tornaria qualquer acordo assim impossível.

O projeto em questão é o PL 469/2019. Segundo as plataformas, ele simplesmente proíbe que as operadoras cobrem taxas extras baseadas no aumento de tráfego gerado pelos serviços de streaming e IA. Molon argumenta que as teles deveriam estar agradecidas — afinal, é esse tráfego que gera receita para elas. Mas as operadoras apontam uma realidade regulatória que Molon não menciona: a Anatel, a agência que regula telecomunicações no Brasil, proíbe as operadoras de estabelecer limites de franquia de dados na banda larga fixa. O consumidor contrata um plano e pode usar quanto quiser. A operadora não pode cobrar mais.

A Claro já encontrou uma solução parcial: empacota todos os serviços de streaming junto com TV por assinatura e vende o pacote por cerca de R$ 130 mensais. Se o consumidor fosse contratar cada streaming individualmente, pagaria pelo menos R$ 225 só em assinaturas. Mas se o Congresso aprovar o PL 469/2019, esse tipo de acordo fica comprometido. As operadoras teriam obrigações — manter as redes funcionando, absorver o crescimento de tráfego — mas perderiam a capacidade de negociar compensações com as plataformas.

O conflito aponta para uma questão mais profunda: como financiar a infraestrutura de internet de um país quando o modelo de negócio das operadoras está quebrado? A IA vai multiplicar o consumo de dados. As redes precisam ser expandidas. Alguém tem de pagar. As operadoras dizem que não podem repassar o custo ao consumidor — a regulação não permite. As plataformas dizem que não devem pagar — o tráfego é receita, não custo. Enquanto isso, o Congresso Nacional se torna o árbitro de um jogo em que ambos os lados têm poder de veto e nenhum dos dois quer ceder.

O projeto não barra os acordos. Ele proíbe qualquer tipo de cobrança sobre o aumento do tráfego gerado pelas plataformas.
— Alessandro Molon, presidente da Digia
Para repor os custos de manutenção da rede e preparar as redes para a IA, precisamos encontrar outros modelos de negócio sem que o preço seja repassado ao consumidor.
— Fábio Andrade, vice-presidente da Claro
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que as operadoras não simplesmente aumentam o preço dos planos de internet?

Model

Porque a Anatel não deixa. A agência proíbe limites de franquia na banda larga fixa. O consumidor paga um preço fixo e pode usar quanto quiser. As operadoras não têm como cobrar mais sem mudar a regulação.

Inventor

Então o problema é regulatório, não de mercado?

Model

É os dois. A regulação congela os preços, mas o mercado também parou de crescer. Há três anos a base de clientes está estagnada em 50 milhões. Sem novos clientes, sem poder aumentar preço, as operadoras não conseguem cobrir os R$ 40 bilhões que investem anualmente.

Inventor

E as plataformas? Por que não querem pagar?

Model

Porque entendem que tráfego é receita, não custo. Se Netflix gera mais dados, mais gente assina Netflix, mais receita. Por que elas pagariam à operadora pelo privilégio de ganhar dinheiro?

Inventor

Mas as operadoras dizem que as plataformas estão sendo hipócritas — negociam em particular e legislam em público.

Model

Exatamente. A Claro já fez acordos com as plataformas, empacotando serviços. Mas enquanto isso, as plataformas defendem um projeto de lei que tornaria novos acordos ilegais. É difícil negociar quando a outra parte está tentando legislar contra você.

Inventor

O que acontece se o PL 469/2019 for aprovado?

Model

As operadoras perdem o incentivo para fazer acordos. Teriam de manter as redes funcionando, absorver todo o crescimento de tráfego da IA, mas não poderiam cobrar nada das plataformas em troca. É um modelo insustentável.

Inventor

Então quem vai pagar pela infraestrutura que a IA vai exigir?

Model

Essa é a pergunta que ninguém consegue responder. E é por isso que essa briga no Congresso importa tanto.

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