Giambiagi mapeia déficit público e propõe ajuste fiscal de 5 pontos do PIB

O país faz progressos, mas anda em círculos no déficit
Giambiagi observa que o Brasil mantém o mesmo desequilíbrio fiscal desde 1987, apesar de avanços em outras áreas econômicas.

Há mais de trinta anos, o Brasil repete um ciclo que desafia gerações de economistas e governantes: o déficit público que não se resolve. Fabio Giambiagi, estudioso das contas nacionais desde 1987, lança um livro que transforma esse padrão perturbador em diagnóstico claro e prescrição concreta — propondo um ajuste de 5 pontos percentuais do PIB ao longo da próxima década. A obra levanta uma questão que transcende a aritmética fiscal: o que impede uma nação de fazer aquilo que sabe que precisa fazer?

  • O Brasil chegou a 2021 com o mesmo déficit público de 7% do PIB que tinha em 1987 — três décadas de esforços que não romperam o ciclo.
  • Cada tentativa de cortar gastos específicos provoca reação política intensa, tornando o ajuste estrutural quase impossível sem uma articulação que o país ainda não demonstrou ter.
  • Giambiagi propõe medidas concretas e impopulares: revisão de subsídios, contenção de despesas com pessoal e reexame de programas sociais que, segundo seus dados, beneficiam majoritariamente os mais ricos.
  • A tese central é que sem vencer o déficit, não há como estabilizar a dívida pública nem restaurar a confiança necessária para o investimento e o crescimento retomarem força.
  • O livro chega como um mapa detalhado do orçamento federal — desmontando mitos e apontando, item por item, onde o desequilíbrio se esconde.

Fabio Giambiagi estuda as contas públicas brasileiras há quase quatro décadas. Seu novo livro é, ao mesmo tempo, diagnóstico e prescrição — escrito com o tom de quem conhece o problema de perto e não tem mais paciência para eufemismos.

A abertura toma emprestada uma pergunta de Mario Vargas Llosa: em que momento uma nação se perde? Ao mapear trinta anos de finanças públicas, Giambiagi encontra uma resposta incômoda: o Brasil de 2021 previa encerrar o ano com um déficit de 7% do PIB — exatamente o mesmo patamar de 1987, quando ele começou a estudar o tema. Houve um intervalo de melhora entre 2010 e 2013, quando o déficit caiu para menos de 3%, mas o país voltou a subir. Um círculo que se fecha sobre si mesmo.

Para romper esse padrão, o economista propõe um ajuste fiscal de aproximadamente 5 pontos percentuais do PIB ao longo da década, o que reduziria o déficit nominal a 2% — ainda negativo, mas suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB em um cenário de crescimento modesto e inflação controlada.

O caminho passa por escolhas politicamente custosas: aumento de receitas, corte de subsídios, contenção de gastos com pessoal e revisão de programas assistenciais. Um dos pontos mais sensíveis é a política de reajuste do salário mínimo. Giambiagi apresenta dados que mostram que 69% dos aposentados e pensionistas que recebem um salário mínimo pertencem aos 50% mais ricos da população — o que, segundo ele, esvazia o argumento de que a medida ainda combate a extrema pobreza.

O economista reconhece a contradição política que paralisa o debate: criticar o gasto público em abstrato gera consenso; questionar qualquer linha específica do orçamento gera guerra. Superar isso exigiria, nas suas palavras, uma capacidade de articulação que falta à política brasileira atual.

Felipe Salto, da Instituição Fiscal Independente, destaca no prefácio que o livro oferece uma explicação clara e detalhada das contas federais — do INSS aos juros da dívida. O que permanece em aberto, ao fim da leitura, é a pergunta mais difícil: o Brasil conseguirá fazer o que já sabe que precisa fazer?

Fabio Giambiagi, economista que há quase quatro décadas estuda as contas públicas brasileiras, lançou um livro que funciona como diagnóstico e prescrição ao mesmo tempo. O título poderia ser "Tudo o que você sempre quis saber sobre o déficit público no Brasil (e nunca teve coragem de perguntar)", brinca o autor — uma alusão ao clássico de Woody Allen que resume bem o tom: uma conversa séria sobre um tema árido, mas necessária.

O livro abre com uma pergunta que Giambiagi toma emprestada de Mario Vargas Llosa: em que momento uma nação se perde? A questão não é retórica. Ao mapear três décadas de finanças públicas, o economista encontra um padrão perturbador. Em 1987, quando começou a estudar o tema, o Brasil tinha um déficit público de cerca de 7% do PIB. Trinta e quatro anos depois, em 2021, o país previa chegar aos mesmos 7%. No meio do caminho, entre 2010 e 2013, conseguiu reduzir para menos de 3%, mas depois voltou a subir. É como andar em círculos.

Giambiagi reconhece que o Brasil fez progressos significativos nas últimas três décadas em muitas áreas. Mas o déficit público permanece inaceitavelmente elevado, e isso deveria ser uma prioridade nacional. Para sair desse ciclo, ele propõe um ajuste fiscal de aproximadamente 5 pontos percentuais do PIB ao longo da década — um esforço que reduziria o déficit nominal para 2% do PIB. Esse resultado, embora ainda negativo, permitiria diminuir a relação dívida/PIB em um cenário de crescimento modesto (2,5% ao ano) e inflação controlada (3%).

O caminho para lá passa por medidas conhecidas, mas politicamente difíceis. Aumento de receitas, revisão de programas de assistência social que não atingem os mais pobres, corte de subsídios e contenção de despesas com pessoal. Giambiagi também defende contenção nos reajustes do salário mínimo — um ponto particularmente sensível. Seus dados mostram que 69% dos aposentados e pensionistas que recebem um salário mínimo estão entre os 50% mais ricos da população, enquanto apenas 32% estão entre os 50% mais pobres. A medida, que teve impacto social relevante no passado, não mais contribui para combater a extrema pobreza, segundo ele.

O economista não ignora a tensão política que envolve essas propostas. Criticar o gasto público em linhas gerais gera aplausos. Questionar qualquer despesa específica gera defesa feroz de cada item. Isso exigiria, em suas palavras, "uma capacidade de articulação que é um atributo em falta na política brasileira atual". O livro também trata de temas contemporâneos como a pandemia e o teto de gastos, incluindo uma proposta de revisão da regra fiscal que Giambiagi desenvolveu com o economista Guilherme Tinoco.

O que está em jogo é maior do que números em uma planilha. Sem derrotar o déficit público, afirma Giambiagi, será impossível administrar a dívida pública e gerar a confiança necessária para que o investimento retome e o crescimento econômico acelere. O livro funciona como um guia detalhado das despesas que compõem o orçamento federal — desde o INSS até gastos com juros — e desmonta mitos sobre como o Brasil financia seu desequilíbrio. Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, destaca no prefácio que o trabalho oferece uma explicação clara, item por item, das contas públicas. A pergunta que fica é se o país conseguirá fazer o que sabe que precisa fazer.

Nosso déficit público alcança níveis inaceitavelmente elevados. Combatê-lo deveria ser uma das prioridades do país
— Fabio Giambiagi
Será necessário tomar medidas que não são simpáticas, com um desgaste político inevitável e uma capacidade de articulação que é um atributo em falta na política brasileira atual
— Fabio Giambiagi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Giambiagi escolhe começar o livro com aquela pergunta de Vargas Llosa sobre o Peru?

Model

Porque a pergunta é universal. Todo país que enfrenta desequilíbrio fiscal crônico se faz essa mesma pergunta — em que momento as coisas saíram dos trilhos? Para o Brasil, a resposta é perturbadora: nunca saíram, ou saíram e voltaram ao mesmo lugar.

Inventor

Mas o Brasil não fez progressos econômicos significativos nos últimos 30 anos?

Model

Fez, sim. Mas o déficit público não acompanhou. É como se o país tivesse crescido em algumas dimensões enquanto permanecia preso em um ciclo fiscal que se repete desde os anos 1980.

Inventor

O ajuste de 5 pontos percentuais do PIB parece enorme. É realista?

Model

Giambiagi não diz que é fácil. Diz que é necessário. E que exigiria medidas que ninguém gosta de tomar — aumentar impostos, cortar subsídios, revisar benefícios. Tudo ao mesmo tempo, com desgaste político garantido.

Inventor

E quanto ao salário mínimo? Por que atacar uma política que historicamente ajudou os pobres?

Model

Porque os dados mostram que hoje 69% de quem recebe um salário mínimo está entre os 50% mais ricos. A política funcionou, mas seu público-alvo mudou. Continuar reajustando não resolve a extrema pobreza.

Inventor

Qual é o ponto final? Se o Brasil fizer tudo isso, o que muda?

Model

Confiança. Sem derrotar o déficit, não há confiança para investimento privado retomar. Sem investimento, não há crescimento robusto. É um ciclo que precisa ser quebrado de fora para dentro.

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