Um terço do peso perdido é músculo, não gordura
Em um momento em que medicações emagrecedoras conquistaram o imaginário popular como solução rápida para o peso, Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, levanta uma voz de cautela dirigida especificamente aos mais velhos: o corpo que envelhece obedece a leis próprias, e ignorá-las tem consequências que podem ser irreversíveis. O que para um jovem é um inconveniente — a perda de massa muscular durante o emagrecimento — para um idoso pode significar o fim da vida independente. A medicina avança, mas a sabedoria está em saber para quem, quando e como cada avanço se aplica.
- Canetas emagrecedoras viraram febre no Brasil, e idosos estão usando-as sem orientação médica para perder poucos quilos ou eliminar gordura localizada — sem qualquer indicação clínica legítima.
- A cada quilo perdido, um terço é massa muscular: em idosos, essa perda silenciosa pode comprometer para sempre a capacidade de subir escadas, levantar de uma cadeira ou tomar banho sozinho.
- Náuseas, vômitos e desidratação surgem rapidamente, e o risco se aprofunda com síndromes geriátricas como sarcopenia e fragilidade física, que podem não ter retorno mesmo após suspender a medicação.
- O mercado ilegal agrava o cenário: falsificações vendidas sem receita e sem controle de qualidade expõem os usuários a contaminações bacterianas, fúngicas e substâncias desconhecidas.
- Especialistas defendem que o uso só é válido para obesidade, diabetes tipo 2 e apneia do sono, sempre com acompanhamento médico, nutricional, fisioterapêutico e psicológico rigoroso.
Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, veio a público na terça-feira para soar um alarme que considera urgente: as canetas emagrecedoras representam um perigo particular e mal compreendido para pessoas com 60 anos ou mais.
Oliva não condena a medicação em si. Para obesidade, diabetes tipo 2 e apneia do sono, quando prescritas e acompanhadas adequadamente, ele as chama de uma inovação fantástica da medicina. O problema está no uso sem supervisão rigorosa — ou pior, no uso motivado apenas pelo desejo de perder três quilos ou eliminar gordura localizada, sem qualquer indicação clínica real.
Os riscos imediatos incluem náuseas, vômitos e dificuldade para engolir, que podem evoluir rapidamente para desidratação e distúrbios eletrolíticos graves. Mas há algo mais insidioso: cerca de um terço do peso perdido é massa muscular, não gordura. Em um jovem, isso é um incômodo. Em um idoso, é uma catástrofe silenciosa. Ivan Aprahamian, diretor científico da mesma sociedade, alerta que o efeito combinado pode precipitar sarcopenia e fragilidade física — e essa perda de funcionalidade pode ser irreversível, mesmo após suspender a medicação.
Oliva é enfático quanto ao que o uso responsável exige: emagrecimento lento, ingestão adequada de proteínas, exercício físico regular com ênfase em musculação, suplementação de vitaminas e minerais, e apoio psicológico. Sem esse conjunto de cuidados, o remédio que promete saúde pode roubar a independência.
Há ainda o risco do mercado ilegal. Falsificações vendidas fora de farmácias regulamentadas, sem receita e sem controle de qualidade, expõem os usuários a contaminações por bactérias, fungos e substâncias desconhecidas. A receita médica obrigatória, lembra Oliva, não é burocracia: é a garantia de que alguém avaliou se aquela medicação faz sentido para aquele corpo específico.
Por fim, Oliva toca em algo mais profundo: o corpo humano acumula gordura com a idade por memória genética, herança de tempos em que envelhecer significava dificuldade de acesso ao alimento. Essa tendência é desfavorável hoje, mas o caminho não é forçar o corpo a ser o que era aos 20 anos. A busca deve ser pela saúde — alimentação, movimento, equilíbrio emocional — e não pelo número na balança.
Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, sentou-se para uma conversa na terça-feira com a intenção de soar um alarme que vinha sendo ignorado: as canetas emagrecedoras, medicações que explodiram em popularidade nos últimos anos, representam um perigo particular e mal compreendido para pessoas com 60 anos ou mais.
O problema não é a medicação em si. Oliva é claro nisso. As canetas emagrecedoras funcionam. Elas reduzem o apetite, controlam a glicose no sangue, ajudam no tratamento da obesidade, do diabetes tipo 2 e da apneia do sono. Para essas condições, quando prescritas e acompanhadas adequadamente, são o que Oliva chama de uma inovação fantástica da medicina. O problema é o que acontece quando pessoas idosas as usam sem supervisão médica rigorosa, ou pior, quando as usam simplesmente porque querem perder três quilos ou eliminar a gordura localizada na barriga. Nessas situações, não há indicação médica legítima. Há apenas a busca por um corpo que não é mais biologicamente apropriado para a idade.
Os riscos imediatos são os mais óbvios. Náuseas, vômitos, dificuldade para engolir alimentos e água. Esses sintomas podem levar rapidamente a desidratação e distúrbios eletrolíticos, situações que em idosos podem ser potencialmente graves. A médio prazo vem a desnutrição. Mas há algo mais insidioso acontecendo, algo que Oliva enfatiza repetidamente porque sabe que muitas pessoas não entendem: quando o corpo emagrece, ele não perde apenas gordura. Cerca de um terço do peso perdido é massa muscular, tecido magro que o corpo precisa para funcionar. Não há como contornar isso. O corpo perde gordura, sim, mas perde também músculo.
Em uma pessoa jovem, essa perda muscular é um incômodo. Em um idoso, é uma catástrofe silenciosa. A perda de massa muscular significa perda de função, perda da capacidade de fazer as coisas que definem uma vida independente: subir escadas, levantar de uma cadeira, carregar compras, tomar banho sozinho. Ivan Aprahamian, diretor científico da mesma sociedade, acrescenta que o efeito combinado de apetite reduzido, náuseas e perda rápida de peso pode precipitar síndromes geriátricas como sarcopenia e fragilidade física. E aqui está o pior: essa perda de funcionalidade pode não ser recuperada. Um idoso que perde massa muscular demais pode nunca recuperá-la completamente, mesmo que pare de usar a medicação.
Oliva insiste que qualquer idoso que use essas medicações precisa de um acompanhamento médico e nutricional rigoroso, além de trabalho com fisioterapeuta ou educador físico. O emagrecimento não pode ser rápido. Quanto mais rápido, maior a perda muscular associada. A pessoa precisa continuar comendo bem, ingerindo proteína suficiente para manter o músculo. Precisa fazer exercício físico regularmente, especialmente musculação. Precisa de vitaminas e minerais. E precisa de apoio psicológico, porque fazer restrição calórica é desafiador emocionalmente.
Mas há ainda outra camada de risco que Oliva considera indispensável destacar: o mercado ilegal. Há falsificações de canetas emagrecedoras sendo vendidas fora de farmácias legalizadas, sem receita médica, de procedência duvidosa. Quando alguém compra nesses canais, não sabe o que está injetando no próprio corpo. Não há controle de qualidade. Não há regulação. Há risco de contaminação por bactérias, fungos, outras substâncias. Comprar medicação no mercado paralelo é colocar a saúde em risco de uma forma muito grande, avisa.
Oliva também fala sobre algo mais profundo: a relação que os idosos têm com seus próprios corpos. Ele explica que é tendência genética do corpo humano acumular gordura com a idade. Isso vem de longe na evolução da espécie, de um tempo em que quanto mais velho ficava um indivíduo, mais difícil era conseguir alimento. O corpo aprendeu a estocar gordura como proteção. Essa memória genética é desfavorável nos dias de hoje, quando sabemos que gordura demais é um marcador de saúde ruim. Mas o ponto de Oliva é que os idosos precisam se conscientizar de que seus corpos não são iguais aos que tinham aos 20 anos, e que está tudo bem. A busca não deve ser pela perda de peso em si, mas pela saúde. Não é uma questão de balança. É uma questão de buscar ter mais saúde, de se alimentar bem, de praticar atividade física, de cuidar da saúde psicológica e emocional.
E sobre as receitas médicas obrigatórias, Oliva é enfático: quando se impõe a necessidade de receita para adquirir um medicamento, o que se está dizendo é que a pessoa só deve usar essa medicação após uma avaliação médica apropriada. Não é para pedir a receita para o vizinho médico ou para um parente. É para se submeter a uma avaliação profissional, para que a indicação seja bem-feita e para que as consequências prejudiciais sejam acompanhadas e evitadas. A receita médica existe exatamente para isso.
Notable Quotes
As canetas emagrecedoras são um tratamento muito bom, uma inovação fantástica da medicina que deve ser usada de maneira apropriada, para o diabetes, a apneia do sono ou a obesidade— Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia
Não é só uma questão de balança, é uma questão de buscar ter mais saúde— Leonardo Oliva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o risco é tão diferente para idosos? Não é só uma questão de dosagem?
Não. Um idoso de 70 anos não é um adulto de 40 anos com mais anos de vida. O corpo envelhece. A capacidade de lidar com efeitos colaterais diminui. E há algo mais importante: quando um idoso perde peso, ele perde músculo de um jeito que um jovem não perde. Aquele músculo pode não voltar.
Você está dizendo que é irreversível?
Pode ser. Se um idoso perde muita massa muscular muito rápido, a capacidade de recuperação é limitada. Mesmo que ele pare de usar a medicação e comece a fazer exercício, pode nunca recuperar completamente aquela funcionalidade. É por isso que o acompanhamento tem que ser tão cuidadoso.
Mas a medicação funciona. As pessoas estão emagrecendo.
Funciona, sim. Para obesidade, diabetes, apneia do sono, é uma inovação real. O problema é quando as pessoas usam para perder três quilos ou para ficar com a barriga mais lisa. Aí não há indicação médica. É só vaidade. E a vaidade não justifica o risco.
E o mercado ilegal? Quanto disso está acontecendo?
Não há números exatos, mas está acontecendo o suficiente para que a SBGG esteja alertando. Pessoas compram em mercados paralelos, não sabem o que estão injetando, não há controle de qualidade. Pode haver contaminação, bactérias, fungos. É colocar a saúde em risco de forma muito grande.
Então qual é a mensagem para um idoso que quer usar essas canetas?
Que procure um médico. Que entenda que o corpo dele não é o corpo de 20 anos atrás, e que está tudo bem. Que a busca seja por saúde, não por peso. E que se decidir usar, saiba que vai precisar de acompanhamento nutricional, fisioterapêutico, psicológico. Não é simples. Não é só injetar e esperar emagrecer.