Geleira Viedma recua e revela fossa de 900 m: lago mais profundo da América

A fossa só ficou visível porque a geleira está desaparecendo
O recorde científico do lago mais profundo da América é inseparável do degelo acelerado associado ao aquecimento global.

No coração da Patagônia argentina, o recuo acelerado da geleira Viedma descerrou um abismo de quase 900 metros que permanecia oculto sob o gelo por eras geológicas. Medições de batimetria realizadas pelo CONICET em 2022 confirmaram que o lago Viedma é agora o mais profundo das Américas e o quinto do mundo — um recorde não criado, mas desvendado. A descoberta, porém, carrega uma ambiguidade profunda: o mesmo degelo que revelou a maravilha é sintoma do aquecimento que ameaça as geleiras patagônicas, tornando esse feito científico inseparável do alerta climático que o gerou.

  • A geleira Viedma triplicou seu ritmo de recuo — de 84 metros por ano entre 1984 e 2010 para 281 metros anuais entre 2010 e 2016 —, sinalizando uma aceleração que preocupa glaciologistas.
  • Com o gelo cedendo, uma fossa de quase 900 metros de profundidade emergiu do fundo do lago, grande o suficiente para engolir montanhas inteiras de porte médio com apenas os cumes à tona.
  • Equipes do CONICET, do Centro Internacional de Ciências da Terra e da Universidade do Chile varreram o fundo com sonar em 2022, transformando uma suspeita científica em número verificável e reconhecido mundialmente.
  • O lago Viedma ingressou na elite global ao lado do Baikal e do Tanganica, mas o recorde é também um marcador concreto do encolhimento das geleiras patagônicas associado ao aquecimento do planeta.
  • Dentro do Parque Nacional Los Glaciares, o achado adiciona profundidade científica a um destino já icônico, reforçando a Patagônia como laboratório a céu aberto para a ciência do clima e do gelo.

Sob o gelo da Patagônia estava guardado um segredo de dimensões colossais. Quando a geleira Viedma começou a recuar em ritmo acelerado, deixou à mostra uma depressão de quase 900 metros — um abismo que engoleria dois ou três edifícios altos empilhados. O que parecia ser apenas mais um lago de montanha revelou-se portador de um recorde continental.

Na província de Santa Cruz, na Argentina, o degelo escreveu essa história. Ao recuar mais de 3,5 quilômetros em anos recentes, a geleira expôs uma fossa no fundo do lago homônimo. Medições do CONICET confirmaram o que os cientistas suspeitavam: o lago Viedma é o mais profundo de toda a América e o quinto do planeta — uma posição que só veio à tona porque o recuo do gelo permitiu mapear zonas antes inacessíveis sob a massa congelada.

O recorde não foi criado — foi desvendado. A fossa provavelmente já existia há eras geológicas, esculpida lentamente pelo próprio gelo. Mas permanecia oculta. Os números do recuo revelam um processo em aceleração: entre 1984 e 2010, a frente da geleira recuava cerca de 84 metros por ano; entre 2010 e 2016, esse ritmo triplicou para 281 metros anuais. Desde 2014, a geleira perdeu cerca de 5,5 quilômetros quadrados de gelo.

A confirmação veio de estudos de batimetria com sonar realizados em 2022, reunindo especialistas do CONICET, do Centro Internacional de Ciências da Terra e da Universidade do Chile. Com quase um quilômetro na vertical, o lago Viedma superou todos os lagos do continente e entrou para a elite mundial, ao lado do Baikal e do Tanganica.

Mas por trás da empolgação com o recorde há um recado que não pode ser ignorado. A mesma retração que permitiu a descoberta é sintoma do encolhimento das geleiras patagônicas associado ao aquecimento do planeta. Uma descoberta fascinante e o avanço do degelo são dois lados da mesma moeda. O lago Viedma mais profundo da América é, simultaneamente, uma maravilha revelada e um lembrete de que nem toda novidade espetacular é, no fundo, uma boa notícia.

Sob o gelo da Patagônia estava guardado um segredo de dimensões colossais. Quando a geleira Viedma começou a recuar em ritmo acelerado, deixou à mostra uma depressão com quase 900 metros de profundidade — um abismo submerso tão fundo que engoleria dois ou três edifícios altos empilhados um sobre o outro. O que parecia ser apenas mais um lago de montanha revelou-se portador de um recorde continental.

Na província de Santa Cruz, na Argentina, o degelo escreveu essa história. Ao recuar mais de 3,5 quilômetros em anos recentes, a geleira Viedma expôs uma fossa no fundo do lago que leva seu nome. Medições realizadas pelo CONICET, o conselho nacional de pesquisa argentino, confirmaram o que os cientistas suspeitavam: o lago Viedma é agora o mais profundo de toda a América e o quinto mais profundo do planeta, uma posição que só veio à tona porque o recuo do gelo permitiu, pela primeira vez, mapear zonas que permaneceram inacessíveis sob a massa congelada por tempo indeterminado.

O que torna essa descoberta particularmente notável é que o recorde não foi criado — foi desvendado. A fossa de 900 metros provavelmente já existia há eras geológicas, esculpida lentamente pela ação do próprio gelo ao longo de milhares de anos. Mas permanecia oculta, conhecida apenas pela natureza. Quando a geleira recuou, transformou o lago Viedma no mais profundo da América quase de repente, pelo menos do ponto de vista do conhecimento humano sobre ele.

Os números do recuo glacial revelam um processo em aceleração. Entre 1984 e 2010, a frente da geleira Viedma recuava cerca de 84 metros por ano. Esse ritmo triplicou: entre 2010 e 2016, o recuo saltou para aproximadamente 281 metros anuais. Desde 2014, a geleira perdeu cerca de 5,5 quilômetros quadrados de gelo. Cada metro dessa perda descortinou novos segmentos do fundo lacustre, permitindo que os cientistas mapeassem profundidades antes seladas sob a geleira.

Para dimensionar o feito, 900 metros equivalem a quase um quilômetro na vertical — profundidade suficiente para submergir montanhas inteiras de porte médio, deixando apenas seus cumes acima da água. Com essa marca, o lago Viedma assumiu o posto de mais profundo da América, superando outros grandes lagos do continente, inclusive os da própria Patagônia. Mas o recorde transcende a escala regional. O lago entrou para a elite mundial, figurando ao lado de colossos como o Baikal, na Rússia, e o Tanganica, na África.

A confirmação veio de estudos de batimetria — a ciência que mede profundidades de corpos d'água — realizados com equipamentos de sonar que varreram o fundo do lago. Em 2022, essas medições determinaram a fossa com margem de erro mínima, transformando uma suspeita em um número sólido e verificável. O trabalho reuniu especialistas do CONICET, do Centro Internacional de Ciências da Terra da Argentina e da Universidade do Chile, sob coordenação de pesquisadores como María Gabriela Lenzano. Esse esforço conjunto conferiu ao anúncio o rigor necessário para ser levado a sério em todo o mundo.

Mas por trás da empolgação com o recorde há um recado que não pode ser ignorado. A mesma retração que permitiu a descoberta é também um sintoma do encolhimento das geleiras patagônicas, um fenômeno que cientistas associam ao aquecimento do planeta. A fossa do lago Viedma só ficou visível porque a geleira está perdendo gelo num ritmo cada vez mais rápido. Uma descoberta científica fascinante e o avanço do degelo são, nesse caso, dois lados da mesma moeda. O lago Viedma mais profundo da América é, simultaneamente, uma maravilha natural revelada e um marcador concreto da transformação que as geleiras vêm sofrendo — um lembrete de que nem toda novidade espetacular é, no fundo, uma boa notícia.

Além do impacto simbólico, o achado tem valor prático para quem estuda o planeta. Mapear a fossa ajuda os cientistas a entender como as geleiras esculpem o relevo, como se formam as bacias lacustres e como a água se comporta nesses ambientes extremos. O lago Viedma fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, área de proteção e destino turístico famoso pela sua beleza glacial. Saber que esse cartão-postal guarda o lago mais profundo da América agrega uma camada de fascínio científico a um lugar já icônico, reforçando por que a Patagônia segue sendo um laboratório a céu aberto para a ciência do clima e do gelo.

O lago Viedma é o mais profundo da América e o quinto mais profundo do planeta
— CONICET (Conselho Nacional de Pesquisa da Argentina)
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é possível que um recorde dessa magnitude tenha permanecido desconhecido até agora?

Model

A geleira cobria literalmente a maior parte do fundo do lago. Não era questão de ninguém não ter procurado — era simplesmente inacessível. Só quando o gelo recuou o suficiente os cientistas conseguiram levar seus equipamentos de sonar até ali.

Inventor

E esse recuo acelerado da geleira, é realmente tão rápido quanto parece?

Model

Triplicou em menos de uma década. De 84 metros por ano para 281 metros por ano. Não é uma mudança gradual — é uma transformação visível em tempo real.

Inventor

Qual é a importância científica real de saber que um lago tem 900 metros de profundidade?

Model

Revela como as geleiras esculpem o relevo ao longo de eras geológicas. Cada medição desse tipo alimenta modelos sobre como o gelo se comporta, como a água doce se distribui, como o degelo funciona em escala regional.

Inventor

Mas há algo perturbador nessa descoberta, não é?

Model

Exatamente. O recorde só existe porque a geleira está desaparecendo. É como ganhar um prêmio e receber um diagnóstico de doença no mesmo envelope.

Inventor

Como os cientistas confirmaram esses números com tanta certeza?

Model

Batimetria com sonar em 2022, realizada por uma colaboração entre instituições argentinas e chilenas. Margem de erro mínima. Não é especulação — é medição direta.

Inventor

E agora que sabemos disso, muda algo?

Model

Muda o mapa. Muda como entendemos a Patagônia. Mas o que realmente importa é o que muda nas geleiras nos próximos anos.

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