O calote, em vez de aparecer nas contas do banco, ficava registrado no fundo
Em algum momento entre 2020 e 2024, o Banco Master construiu uma arquitetura financeira silenciosa: empréstimos de qualidade duvidosa eram transferidos para fundos de investimento, limpando o balanço da instituição e ocultando riscos do olhar regulatório. O fundo SDG II, com R$ 3,6 bilhões em créditos suspeitos absorvidos, tornou-se um dos pilares dessa engenharia — transferindo para cotistas anônimos o peso de dívidas que empresas de fachada jamais pretendiam honrar. É a história antiga da socialização de perdas privadas, revestida de instrumentos financeiros modernos.
- R$ 3,6 bilhões em empréstimos fraudulentos foram transferidos do Banco Master para o fundo SDG II, retirando o risco do balanço do banco e colocando-o nas mãos de cotistas que desconheciam a natureza dos ativos.
- O esquema operava em ciclo fechado: CDBs captavam recursos de investidores, o dinheiro era emprestado a empresas de fachada, e essas empresas aplicavam os valores em fundos que recompravam os próprios empréstimos — tornando o calote invisível para o Banco Central.
- Nomes como Nelson Tanure, Mauricio Quadrado e empresas ligadas ao próprio Daniel Vorcaro aparecem entre os maiores beneficiários dos créditos repassados ao SDG II, somando centenas de milhões em dívidas que foram sistematicamente adiadas ou não cobradas.
- O SDG II permanece ativo com R$ 5,4 bilhões em ativos e integra uma rede de 82 FIDCs ligados ao Master, com R$ 65,5 bilhões no total — sugerindo que o caso não é uma anomalia isolada, mas parte de uma estrutura muito mais ampla ainda sob investigação.
O fundo SDG II adquiriu R$ 3,6 bilhões em empréstimos suspeitos do Banco Master numa operação que permitiu à instituição remover créditos problemáticos de seu balanço. Com os riscos transferidos ao fundo, o Master ganhava espaço para captar novos recursos via CDB e conceder mais empréstimos. Eventuais calotes recairiam sobre os cotistas do SDG II — não sobre o banco.
O mecanismo funcionava em circuito fechado: o Master captava via CDBs, emprestava para empresas de fachada, e essas empresas aplicavam os recursos em fundos que recompravam os próprios créditos originados pelo banco. Os inadimplentes não apareciam nas contas do Master — onde seriam detectados pelo Banco Central — mas sim nos registros dos FIDCs, Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios.
O SDG II tem hoje dois cotistas: o Hans 95, fundo central na teia de fraudes do Master, e a MKS Soluções Integradas, uma das 36 empresas apontadas nas investigações como participante de empréstimos simulados. Entre os maiores beneficiários dos créditos repassados ao fundo está a Lormont Participações, ligada ao empresário Nelson Tanure, com quase R$ 553 milhões. Em segundo lugar aparece o Banvox, ex-empresa de Mauricio Quadrado, com uma debênture de R$ 380 milhões hoje registrada em nome da DV Holding, de Daniel Vorcaro.
O padrão de adiamentos sucessivos de vencimentos ilustra como as dívidas eram perpetuamente postergadas. O fundo Lancia!, outro integrante da rede, carrega debêntures da NGV SPE cujos prazos foram prorrogados repetidamente desde 2018 — sem que haja informações sobre a quitação final. O SDG II é apenas o quarto maior de uma rede de 82 FIDCs ligados ao Master, que somam R$ 65,5 bilhões em ativos, indicando que a investigação ainda tem muito terreno a percorrer.
O fundo SDG II comprou R$ 3,6 bilhões em empréstimos suspeitos ligados à fraude investigada no Banco Master, numa operação que permitiu à instituição financeira limpar seu balanço e se livrar de créditos de má qualidade. A manobra funcionava assim: o Master vendia esses empréstimos problemáticos para o fundo, removendo o risco de suas contas e criando espaço financeiro para captar mais recursos via CDB e fazer novos empréstimos. Se algum desses créditos virasse calote, o impacto recairia sobre os cotistas do SDG II, não sobre o banco. A cobrança dos empréstimos também passou a ser responsabilidade do fundo.
O esquema revelado pelas investigações funcionava em ciclo fechado. O Master captava dinheiro com Certificados de Depósito Bancário. Esse dinheiro era emprestado para empresas de fachada, que depois aplicavam os valores em fundos. Esses fundos, por sua vez, usavam parte do capital para comprar os próprios empréstimos que o Master havia feito para essas mesmas companhias de fachada. Os empréstimos não eram cobrados, beneficiando empresas que simplesmente não pagavam o que deviam. O calote, em vez de aparecer nas contas do Master — onde seria detectado pelos controles do Banco Central — ficava registrado no fundo, tecnicamente denominado FIDC, ou Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios.
O SDG II continua ativo hoje com R$ 5,4 bilhões em ativos e possui dois cotistas. Um deles é o Hans 95, fundo central na teia de fraudes do Master, que participa através do fundo Anna, um dos seis fundos fraudulentos identificados pelo Banco Central nas investigações iniciais. O outro cotista é a MKS Soluções Integradas, uma das 36 companhias que, segundo as investigações, realizou empréstimos simulados no Master. As operações analisadas ocorreram entre 2020 e 2024. O Banco Master, procurado para comentar, não respondeu aos questionamentos.
Do total de R$ 3,6 bilhões em ativos ligados à fraude, pelo menos R$ 1,1 bilhão corresponde a direitos creditórios vendidos diretamente pelo Master ao fundo. A empresa que mais recebeu empréstimos depois repassados ao fundo foi a Lormont Participações, com quase R$ 553 milhões, sendo R$ 102 milhões vendidos diretamente pelo Master. A Lormont é ligada ao empresário Nelson Tanure, que informou via assessoria que foi cliente do Master nas mesmas condições que outras instituições financeiras, em operações financeiras corriqueiras. Tanure acrescentou que não tem conhecimento sobre possíveis cessões de crédito entre instituições financeiras.
Em segundo lugar vem o Banvox, que pertencia a Mauricio Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master. O SDG II possui uma debênture do Banvox no valor de R$ 380 milhões. Essas debêntures estão hoje em nome da DV Holding, empresa de Vorcaro, após Quadrado sair do banco e entregar suas ações. A Banvox informou que operações de compra e venda das debêntures foram realizadas exclusivamente no mercado secundário, sem sua participação, e que não vendeu nenhum ativo para qualquer FIDC ligado ao Master. Outra empresa que aparece no balanço é a Super Empreendimentos e Participações, com R$ 22 milhões em créditos a receber. A Super funcionava como braço financeiro de Vorcaro e era proprietária da casa que o ex-banqueiro utilizava em Brasília.
O SDG II integra uma rede muito maior: 82 FIDCs ligados ao Master identificados pela reportagem, que juntos possuem R$ 65,5 bilhões em ativos. O SDG II é o quarto maior dessa lista. O fundo Lancia!, outro integrante da rede, ilustra como as empresas cujos empréstimos eram repassados aos fundos conseguiam se livrar de pagar suas dívidas. No balanço de 30 de junho de 2024, o Lancia! possui duas debêntures diferentes da NGV SPE, totalizando R$ 30 milhões. A empresa é ligada a Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro no Master. As primeiras debêntures foram emitidas em 2018 com vencimento previsto para 10 de abril de 2022, mas os pagamentos foram adiados repetidamente. Um aditivo em 5 de abril de 2022 moveu o vencimento para 10 de abril de 2026. A segunda debênture tinha vencimento original em 16 de abril de 2020, que foi adiado para 16 de abril de 2022, e depois novamente para 16 de abril de 2024, onze dias antes do prazo original ser atingido. Não há informações posteriores sobre essa debênture.
Citas Notables
Foi cliente do Master nas mesmas condições que outras instituições financeiras, em operações financeiras corriqueiras— Nelson Tanure, empresário ligado à Lormont Participações
As operações de compra e venda das debêntures foram realizadas exclusivamente no mercado secundário, sem participação da Banvox— Assessoria de imprensa da Banvox
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como exatamente um fundo consegue ajudar um banco a esconder créditos ruins?
Comprando esses créditos. Quando o Master vende um empréstimo problemático para o SDG II, aquele risco sai do balanço do banco e passa para o fundo. O Banco Central vê um banco mais limpo do que realmente é.
E o fundo não se importa em receber créditos que não vão ser pagos?
O fundo é controlado por pessoas ligadas ao próprio esquema. O Hans 95, um dos cotistas, é central na fraude. Não é um investidor independente protegendo seu dinheiro.
Então quem perde quando esses empréstimos viram calote?
Os cotistas do fundo. Se você investiu no SDG II pensando que era seguro, você absorve a perda. O risco foi transferido para você.
Por que o banco não foi impedido de fazer isso?
Porque funcionou em ciclo fechado. O dinheiro captado via CDB voltava para o próprio esquema através dos fundos. Parecia operações normais de mercado.
E esses prazos adiados nas debêntures, o que significam?
Significam que a dívida nunca vence. Toda vez que o prazo se aproxima, mudam o contrato. É como um calote permanente disfarçado de renegociação.
Quantas pessoas foram prejudicadas?
Milhões de reais em ativos estão em 82 fundos diferentes. Cada um desses fundos tem investidores. O dano é sistêmico.