R$ 14,3 bilhões desaparecem quando a fraude vem à tona
Fundo Jade reconheceu perda integral do investimento na Golden Green baseado em laudo técnico de provedor independente, ainda não identificado publicamente. Ativos ambientais da Golden Green originaram-se de propriedade com possível grilagem sobre área pública, comprometendo legitimidade de créditos de carbono privatizados.
- Fundo Jade remarcou de R$ 14,3 bilhões para zero o valor da Golden Green em fato relevante divulgado em 10 de fevereiro
- Ativos ambientais originaram-se de propriedade em Apuí (AM) com possível grilagem sobre área pública do Projeto de Assentamento Extrativista Aripuanã-Guariba
- Cadeia de fundos conectados (Jaya, Zacar, Hans 2, Sven, Hans 95) ainda não comunicou baixa contábil à CVM
Fundo Jade remarcou de R$ 14,3 bilhões para zero o valor da Golden Green após denúncia de ativos ambientais fraudados, expondo efeito em cascata em cadeia de fundos conectada ao Banco Master.
Na terça-feira 10 de fevereiro, um fundo de investimento ligado à família Vorcaro — proprietária do Banco Master — formalizou uma decisão que apagou R$ 14,3 bilhões de seus registros contábeis. O Jade Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia remarcou para zero o valor de mercado que havia atribuído à Golden Green, uma empresa acusada de ter adquirido ativos ambientais obtidos de forma fraudulenta. A mudança foi comunicada em um fato relevante divulgado publicamente, revelando que o fundo reconhecia a perda integral de seu investimento naquela empresa.
A decisão, segundo o comunicado do Jade, baseou-se em uma análise técnica conduzida por um provedor independente. O documento, porém, não identificava quem era esse provedor ou fornecia detalhes sobre o laudo que fundamentava a reprecificação. A administração do Jade é exercida pela CBSF Trust, antiga Reag, uma entidade que se encontra em liquidação extrajudicial. O impacto foi direto e total: a remarcação representava uma redução de 100% no patrimônio líquido do próprio fundo.
O que torna esse episódio particularmente significativo é que o Jade não opera isoladamente. Ele é investido por outro fundo chamado Jaya, que tem entre seus cotistas Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Com a queda abrupta do valor do Jade, o efeito contábil tende a se propagar por toda uma rede de estruturas de investimento conectadas — o Zacar, associado a Henrique Vorcaro, além dos fundos Hans 2, Sven e Hans 95. Este último foi mencionado como alvo da Operação Carbono Oculto. Até o momento em que a informação foi divulgada, nenhum desses fundos havia comunicado formalmente à Comissão de Valores Mobiliários a baixa contábil relativa às suas participações no Jaya.
A origem dos ativos que agora foram zerados remonta a uma propriedade chamada Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí, no Amazonas. O empresário José Antônio Ramos Bittencourt havia criado ali o que chamava de Unidades de Estoques de Carbono, ou UECs — não créditos de carbono tradicionais, mas unidades relacionadas à quantidade de carbono alocada no solo. A Golden Green declarava um patrimônio de aproximadamente R$ 14 bilhões nesses ativos. O problema central, conforme investigações publicadas em 2024, era que a propriedade teria origem em grilagem de terras e ocupava parcialmente uma área pública: o Projeto de Assentamento Extrativista Aripuanã-Guariba. Se essa caracterização se confirmar, a propriedade não poderia legitimamente gerar ativos ambientais privatizados, pois uma área que se sobrepõe a território público e a um projeto de assentamento não tem autoridade legal para criar créditos privados.
Em 2025, Bittencourt — que também é cotista do Jaya — tentou substituir os ativos antigos por novas UECs que seriam geradas dentro do próprio projeto de assentamento, com apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. As negociações avançaram até o ponto de haver discussões sobre um Termo de Ajustamento de Conduta com a autarquia. A iniciativa desmoronou, porém, quando ficou público que a geração dos novos ativos teria participação da Alliance Participações, uma empresa ligada a Henrique Vorcaro, além de fundos geridos pela Reag — a mesma entidade que já era alvo das operações Carbono Oculto e Compliance Zero.
Em nota, Bittencourt afirmou que o imóvel lhe havia sido apresentado como propriedade privada e que já gerava ativos ambientais antes de ele tomar conhecimento da inconsistência fundiária. Declarou ter denunciado espontaneamente os fatos às autoridades ao descobrir o problema. Sua declaração, porém, não alterou o fato de que R$ 14,3 bilhões em valor contábil desapareceram dos registros do Jade.
A remarcação marca uma mudança fundamental no episódio. Deixa de ser uma controvérsia abstrata sobre a qualidade de um ativo e passa a produzir efeitos concretos e imediatos nos números dos fundos. O reconhecimento público de perda integral indica que o valor declarado anteriormente não se sustentava diante do material técnico utilizado para a reprecificação — ainda que esse laudo permaneça não identificado no comunicado público. A ausência de atualização formal em outras estruturas que carregam o mesmo ativo amplifica dúvidas sobre transparência e tempestividade de informações ao mercado. Ao mesmo tempo, o episódio sinaliza que o risco associado a ativos ambientais fora de padrões consolidados pode se materializar de forma abrupta, com impactos severos para cotistas e para toda a cadeia de investimento conectada.
Citas Notables
Ao descobrir a inconsistência fundiária, denunciei espontaneamente os fatos às autoridades— José Antônio Ramos Bittencourt, empresário da Golden Green
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um fundo simplesmente zera o valor de um investimento de R$ 14,3 bilhões? Isso não deveria ter sido detectado antes?
Deveria, sim. Mas esses ativos ambientais não são como ações ou títulos tradicionais. Não há um mercado líquido que estabeleça preço diariamente. O valor depende de laudos técnicos e avaliações internas. Quando a fraude na origem da propriedade veio à tona, o laudo independente provavelmente mostrou que não havia nada ali para sustentar aquele preço.
E quem é esse provedor independente que fez o laudo? O comunicado não diz.
Exatamente. Não diz. Isso é parte do problema. Se você está zerando R$ 14,3 bilhões, o mercado merecia saber quem fez essa análise, qual foi a metodologia, o que exatamente foi encontrado. A falta de transparência alimenta desconfiança.
Mas o impacto não para no Jade, certo?
Não. O Jade é investido pelo Jaya, que é investido por vários outros fundos. Todos eles carregavam aquele valor inflado nos seus registros. Quando o Jade cai, toda a cadeia sente. E até agora, esses outros fundos não comunicaram à CVM que seus investimentos também perderam valor.
Isso é ilegal?
Depende. Se eles têm obrigação de comunicar e não comunicaram, sim, é um problema regulatório. Mas o ponto maior é que o mercado não sabe o tamanho real do estrago. Cotistas desses fundos podem estar olhando para números que não refletem a realidade.
Como uma propriedade grilada acaba gerando R$ 14 bilhões em créditos de carbono?
Porque ninguém verificou a origem. O empresário criou essas unidades de carbono em uma fazenda que, segundo investigações, não era dele legitimamente. Parte dela era terra pública, parte era um projeto de assentamento. Você não pode gerar créditos privados sobre terra pública. Mas durante anos, ninguém questionou isso formalmente.
E agora? O que acontece com esses fundos?
Agora eles precisam reconhecer as perdas, comunicar aos cotistas, e provavelmente enfrentar investigações. O episódio também sinaliza um risco maior: ativos ambientais fora de padrões consolidados podem desaparecer da noite para o dia. Isso muda como o mercado vai avaliar esses investimentos daqui para frente.