Fundo ligado a ex-sócio do Master tem R$ 122 mi em despesas com advogados sem comprovação

Sem comprovação documental, esse capital pode acabar sendo utilizado para outro fim
Especialista em governança aponta o risco de desvio de recursos quando faltam documentos que justifiquem despesas.

No coração do mercado financeiro brasileiro, um fundo de R$ 3 bilhões revela uma lacuna que vai além dos números: R$ 122 milhões em despesas com advogados sem qualquer rastro documental. O GSR, administrado por um ex-sócio do Banco Master já liquidado pelo Banco Central, espelha uma crise mais ampla de governança e confiança institucional. Quando o dinheiro circula sem comprovação, a pergunta que persiste não é apenas contábil — é sobre para onde, e para quem, ele realmente foi.

  • Auditores da RSM declararam formalmente que não conseguiram obter evidências suficientes para atestar a veracidade das finanças do fundo GSR — uma confissão rara e grave no mundo da auditoria.
  • R$ 122 milhões em honorários advocatícios e R$ 10,7 milhões em consultoria foram registrados sem identificar escritórios, serviços prestados ou processos envolvidos, violando padrões regulatórios básicos de proteção aos cotistas.
  • O GSR e seu único cotista, o fundo Astralo, estão sob investigação da Polícia Federal por suspeita de fraude e ligações com organizações criminosas, enquanto o Banco Master — receptor de mais de R$ 1,2 bilhão desses fundos — foi liquidado pelo Banco Central.
  • A Trustee afirma estar em tratativas para reemitir as demonstrações financeiras, mas não explica por que a documentação nunca existiu ou foi mantida — deixando a resposta institucional tão vaga quanto as despesas que tenta justificar.

Um fundo de investimento com R$ 3 bilhões em patrimônio registrou R$ 122 milhões em despesas com advogados e R$ 10,7 milhões em consultoria sem apresentar qualquer documento que comprovasse esses gastos. O fundo GSR é administrado pela corretora Trustee, pertencente a Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, e a lacuna documental acendeu alertas entre auditores e especialistas em governança.

O GSR tem uma estrutura incomum: seu único cotista é o fundo Astralo 95, administrado pela Reag Trust. Todo o dinheiro que circula pelo GSR vem do Astralo. Ambos estão sob investigação da Polícia Federal por suspeita de integrar uma cadeia de operações fraudulentas. A Trustee também foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investigava o uso de fundos por organizações criminosas.

A ligação com o Banco Master não é coincidência. O Astralo e outros três fundos transferiram mais de R$ 1,2 bilhão ao banco quando ele enfrentava grave crise de liquidez. Em novembro do ano passado, o Banco Central liquidou o Master. Daniel Vorcaro, ex-sócio de Quadrado na instituição, passou a ser investigado por gestão fraudulenta e pela venda de carteiras de crédito supostamente falsas ao Banco de Brasília.

O problema veio à tona nas demonstrações financeiras de 2024. Os auditores da RSM simplesmente não tiveram acesso aos documentos necessários para verificar a origem e o destino dos gastos. Em seu relatório, afirmaram não ter conseguido obter evidências de auditoria suficientes para concluir sobre a adequação dessas despesas — o que significa que não puderam atestar a veracidade das informações financeiras do fundo.

André Camara, sócio do Benício Advogados, é direto: a ausência de documentação é, por si só, um sinal grave. Sem comprovação, o capital pode ser desviado para outros fins. A forma genérica como as despesas foram classificadas — sem detalhar escritórios, serviços ou processos — não atende aos padrões regulatórios que protegem cotistas. Os ativos do GSR somam R$ 792 milhões, compostos principalmente por direitos creditórios ligados a ações judiciais e precatórios.

A Trustee respondeu que atua de forma diligente e está em tratativas para obter as informações necessárias para reemitir as demonstrações financeiras. Mas não explicou por que essa documentação nunca foi mantida desde o início.

Um fundo de investimento com patrimônio de R$ 3 bilhões registrou despesas de R$ 122 milhões com advogados e R$ 10,7 milhões com consultoria sem apresentar qualquer documentação que comprovasse esses gastos. O fundo se chama GSR, é administrado pela corretora Trustee — que pertence a Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master — e essa lacuna documental acendeu um sinal de alerta entre auditores e especialistas em governança corporativa.

O GSR funciona de forma incomum: possui apenas um cotista, outro fundo chamado Astralo 95, administrado pela Reag Trust. Na prática, todo o dinheiro que circula pelo GSR vem do Astralo. Ambos os fundos estão sob investigação da Polícia Federal por suspeita de integrar uma cadeia de operações fraudulentas. A Trustee também foi alvo da Operação Carbono Oculto, que apurava o uso de fundos por organizações criminosas. Quando procurados, nem a Reag nem o Banco Master se manifestaram sobre o assunto.

A conexão entre esses fundos e o Master não é casual. O Astralo, junto com outros três fundos, transferiu mais de R$ 1,2 bilhão para o banco quando este enfrentava problemas graves de liquidez. Os aportes foram feitos através de Certificados de Depósitos Bancários. Em novembro do ano passado, o Banco Central liquidou o Master em meio ao que descreveu como uma "grave crise de liquidez". Daniel Vorcaro, banqueiro que era sócio de Quadrado no Master, passou a ser investigado por gestão fraudulenta e pela venda de carteiras de crédito supostamente falsas ao Banco de Brasília.

Quadrado tem um trajeto longo no mercado financeiro. Foi sócio da corretora Planner entre 2007 e 2020, quando saiu para fundar a Trustee — inicialmente batizada como "Planner Trustee". Pouco depois se associou a Vorcaro no Master, onde permaneceu até meados de 2024.

O problema das despesas não documentadas veio à tona nas demonstrações financeiras de 2024, as mais recentes disponíveis. Os auditores da RSM Auditores simplesmente não conseguiram acesso aos documentos necessários para verificar a origem e o destino dos gastos com advogados e consultores. Em seu relatório, afirmaram: "Não nos foram fornecidas as documentações sobre as referidas despesas, não sendo possível obter evidências de auditoria apropriadas e suficientes para concluirmos sobre a adequação dessas despesas". Isso significa que os auditores não puderam atestar a veracidade das informações financeiras do fundo.

André Camara, sócio da área societária do Benício Advogados, explica que a ausência de documentação é, por si só, um sinal grave de alerta. Sem comprovação documental, o capital pode ser desviado para outros fins. "A inexistência ou indisponibilidade de documentos que justifiquem despesas de um fundo configura falha grave de governança", afirma. Ele aponta ainda que a forma genérica como as despesas foram classificadas — sem detalhar quais escritórios foram contratados, que tipo de serviço foi prestado ou quais processos estavam envolvidos — não atende aos padrões regulatórios que protegem os cotistas.

Os ativos do GSR estão avaliados em R$ 792 milhões, compostos principalmente por direitos creditórios ligados a ações judiciais e precatórios. Quando procurada, a Trustee respondeu que segue atuando "de forma diligente" no acompanhamento das obrigações regulatórias e operacionais do fundo, e que está em tratativas para obter as informações necessárias para reemitir as demonstrações financeiras, caso necessário. A resposta, porém, não esclarece por que essas documentações não existem ou não foram mantidas desde o início.

Não nos foram fornecidas as documentações sobre as referidas despesas, não sendo possível obter evidências de auditoria apropriadas e suficientes para concluirmos sobre a adequação dessas despesas
— RSM Auditores, em relatório sobre o GSR
A inexistência ou indisponibilidade de documentos que justifiquem despesas de um fundo configura falha grave de governança
— André Camara, sócio do Benício Advogados
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um fundo com R$ 3 bilhões em patrimônio não teria documentação básica de despesas?

Model

Essa é a pergunta central. Sem documentação, não há como saber se o dinheiro foi realmente gasto com advogados ou se saiu do fundo por outro caminho qualquer.

Inventor

E o fato de o GSR ter apenas um cotista — o Astralo — muda alguma coisa?

Model

Muda tudo. Significa que não há diversidade de investidores fiscalizando. É um fundo alimentado exclusivamente por outro fundo que está sendo investigado por fraude. É uma estrutura muito fechada.

Inventor

Maurício Quadrado saiu do Master em meados de 2024. Isso foi antes ou depois da liquidação?

Model

Antes. Ele saiu alguns meses antes do Banco Central liquidar o banco em novembro. Não sabemos se sabia que o colapso estava vindo, mas o timing é suspeito.

Inventor

Os auditores disseram que não conseguiram atestar a veracidade das informações. Isso significa que o fundo pode estar mentindo?

Model

Significa que não há como saber. Os auditores não conseguiram verificar nada. É como um relatório que diz "não sabemos se está certo ou errado porque ninguém nos mostrou os papéis".

Inventor

E se o dinheiro foi realmente gasto com advogados?

Model

Mesmo assim, a falta de documentação é uma falha grave de governança. Os cotistas têm direito de saber exatamente com quem foi gasto o dinheiro deles. Sem isso, não há transparência, não há controle.

Inventor

O que vem agora?

Model

A Trustee diz que está buscando a documentação. Mas a pergunta é: por que ela não estava lá desde o começo? E enquanto isso, a PF continua investigando a Reag e o Astralo por fraude.

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