O aumento do gasto energético costuma ser menor que o aumento da ingestão
A cada inverno, o corpo humano enfrenta o frio com uma resposta antiga: buscar calor e alimento. Mas o endocrinologista Fernando Gerchman, da UFRGS, lembra que essa resposta biológica é muito mais modesta do que o imaginário popular supõe — e que o ganho de peso sazonal revela menos sobre fisiologia e mais sobre cultura, hábito e a fragilidade do equilíbrio entre movimento e mesa. O inverno, como toda estação, é também um espelho dos nossos ritmos e escolhas.
- O frio chega e com ele a crença de que comer mais é uma necessidade do corpo — mas a ciência mostra que o gasto energético extra é de apenas 5% a 15%, quase imperceptível para quem vive em ambientes aquecidos.
- O verdadeiro culpado pelo ganho de peso invernal é a combinação entre alimentos mais calóricos e a redução da atividade física, não uma demanda biológica real por mais calorias.
- Um mito persistente — o de que comer em excesso protege contra gripes e pneumonias — é desmentido pelo especialista: o que fortalece o sistema imunológico é a qualidade da dieta, não a quantidade.
- Sopas com legumes e proteínas magras, vegetais da estação, frutas cítricas e bebidas quentes sem açúcar formam o caminho prático recomendado para atravessar o inverno com saúde.
- Pinhão e chimarrão surgem não apenas como alimentos, mas como rituais de conexão social que protegem contra a depressão sazonal — o inverno é também uma questão de pertencimento.
Neste domingo começa o inverno, e com ele volta a sensação familiar de querer comer mais. Fernando Gerchman, endocrinologista e professor de Medicina da UFRGS, oferece uma resposta mais nuançada do que a maioria espera: o frio não causa necessariamente mais fome, mas leva o organismo a trabalhar para manter a temperatura interna, exigindo um leve aumento no gasto energético.
Esse esforço pode impulsionar a busca por mais calorias — mas o efeito é pequeno. Estudos em ambientes controlados identificaram aumentos no gasto energético de repouso entre 5% e 15%. Na vida urbana moderna, com agasalhos e ambientes aquecidos, esse número costuma ser ainda menor.
O ganho de peso no inverno, portanto, não vem do frio em si. Vem do aumento na ingestão de alimentos calóricos e da redução na atividade física. Gerchman também desmonta o mito de que comer mais protege contra gripes e pneumonias: o que realmente fortalece o sistema imunológico é uma dieta saudável e rica em nutrientes, não o excesso de calorias.
Alimentos e bebidas quentes têm seu valor real no conforto térmico, especialmente para idosos e crianças, mais vulneráveis à hipotermia. Para atravessar o inverno com saúde, o especialista recomenda sopas com legumes e proteínas magras, vegetais da estação como abóbora e couve, frutas cítricas e chás sem açúcar.
No Rio Grande do Sul, pinhão e chimarrão ganham destaque especial — não apenas pelo valor nutricional, mas pelo que representam socialmente. Gerchman aponta que essas práticas culturais ajudam a combater a depressão sazonal, lembrando que o inverno é também sobre como nos conectamos enquanto o frio bate à porta.
Neste domingo chega o inverno, e com ele volta aquela sensação familiar: a vontade de comer mais. As sopas ganham espaço na mesa, os chocolates desaparecem das prateleiras, e muita gente se pergunta se o frio realmente aumenta a fome ou se é apenas hábito. Fernando Gerchman, endocrinologista e professor de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tem uma resposta mais nuançada do que a maioria espera.
O frio não causa necessariamente mais fome, explica Gerchman. O que acontece é uma adaptação do corpo às temperaturas baixas. Quando o termômetro cai, o organismo trabalha para manter sua temperatura interna entre 35°C e 36°C, e isso exige um leve aumento no gasto energético. Esse esforço pode impulsionar a busca por mais calorias — mas aqui está o ponto crucial: a magnitude desse efeito é pequena. Estudos realizados em ambientes controlados, com temperaturas entre 15°C e 19°C mantidas por várias horas ao dia, identificaram aumentos no gasto energético de repouso entre 5% e 15%. Na vida urbana moderna, porém, onde as pessoas usam agasalhos, frequentam ambientes protegidos e passam a maior parte do tempo em espaços aquecidos, esse aumento costuma ser apenas alguns pontos percentuais.
Mas então por que tanta gente ganha peso no inverno? A resposta não está no frio em si. O problema é que o aumento do gasto energético — mesmo quando existe — é muito menor do que o aumento na ingestão de alimentos mais calóricos e a redução na atividade física que caracteriza a estação. Há também um fator cultural poderoso: a crença popular de que é preciso comer mais para se proteger de gripes e pneumonias. Gerchman desmente esse mito com clareza. O que realmente protege contra essas inflamações e infecções é um sistema imunológico forte, alimentado por uma dieta saudável e rica em nutrientes — não pelo excesso de calorias.
Alimentos e bebidas quentes, porém, têm seu valor. Eles oferecem conforto térmico e contribuem para manter a temperatura corporal, especialmente para grupos mais vulneráveis como idosos e crianças pequenas, que correm maior risco de desregulação corporal e hipotermia quando expostos ao frio sem proteção adequada. Roupas apropriadas e ambientes protegidos são igualmente importantes nessa equação.
Para quem quer se manter saudável durante o inverno, Gerchman oferece orientações práticas. Sopas e caldos são excelentes escolhas, desde que feitos com legumes, verduras e proteínas magras como frango, peixe, lentilha ou feijão. É importante moderar os acompanhamentos gordurosos — creme de leite e queijos amarelos devem ser consumidos com parcimônia. Os vegetais da estação, como abóbora, batata-doce, couve, brócolis, couve-flor e espinafre, estão no seu auge nutricional e merecem espaço no prato. Bebidas quentes como chás de ervas, chá verde e café sem açúcar ajudam a manter o corpo aquecido sem adicionar calorias extras. Frutas como maçã, pera, laranja, bergamota e kiwi são fontes fundamentais de vitamina C e fibras.
No Rio Grande do Sul, o pinhão e o chimarrão ganham destaque especial. O pinhão é proteico, e o mate oferece conforto térmico — mas seu valor vai além da nutrição. Ambos promovem socialização e bem-estar, elementos que Gerchman identifica como cruciais durante o inverno. A estação aumenta o risco de depressão sazonal, e essas práticas culturais podem ajudar pessoas suscetíveis a não caírem nessa armadilha. O inverno, portanto, não é apenas uma questão de calorias e termômetros. É também sobre como nos alimentamos, como nos movemos, e como nos conectamos com outras pessoas enquanto o frio bate à porta.
Citas Notables
Há dados que sugerem que há aumento da ingestão calórica durante o inverno e preferência por alimentos densos, com predominância de carboidratos e gordura versus proteínas— Fernando Gerchman, endocrinologista
O que realmente protege contra inflamações e infecções é um sistema imunológico forte, a partir de uma alimentação saudável, rica em nutrientes, e não o excesso de calorias— Fernando Gerchman
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Se o corpo gasta só 5% a 15% mais energia no frio, por que tanta gente fala que fica com mais fome?
Porque a fome é mais psicológica e cultural do que biológica. A gente vê comida quente, sente o conforto, e associa frio com a necessidade de comer mais. Mas o corpo não está pedindo isso.
Então o ganho de peso no inverno é culpa da gente, não do frio?
Não é bem culpa. É mais uma questão de hábitos que mudam. A gente come mais calórico, se mexe menos, e esses dois fatores juntos superam qualquer gasto extra que o corpo tenha.
E aquela história de que precisa comer mais para não ficar doente?
É um mito completo. O que protege contra gripe e pneumonia é um sistema imunológico forte, que vem de uma alimentação saudável e equilibrada — não de excesso de calorias.
Então alimentos quentes não ajudam em nada?
Ajudam sim, mas não da forma que a maioria pensa. Eles oferecem conforto térmico e contribuem para manter a temperatura corporal. Para idosos e crianças, isso é especialmente importante.
E o chimarrão e o pinhão que você mencionou?
Vão além da nutrição. Eles promovem socialização e bem-estar, e isso é crucial no inverno. A estação aumenta o risco de depressão sazonal, então essas práticas culturais têm um valor que não dá para medir só em calorias.
Qual é o segredo então para não ganhar peso no inverno?
Não é segredo. É manter os mesmos hábitos que você teria em qualquer outra estação: comer bem, se mexer, e aproveitar os alimentos da estação que são nutritivos. O frio não muda as regras do jogo.