Nunca é tarde: terapia beneficia idosos apesar de preconceitos históricos

Aproximadamente 17% de todos os suicídios ocorrem na população com mais de 70 anos, refletindo o impacto da saúde mental não tratada em idosos.
Nunca achei que pudesse ser demasiado tarde para alguma coisa
Maurizio, aos 70 anos, reflete sobre como a terapia o ajudou em três momentos cruciais da sua vida.

Apenas 4% dos adultos americanos com 65+ anos recebem psicoterapia, comparado com 12% dos jovens entre 18-24 anos. Pesquisas demonstram que terapias funcionam igualmente bem em idosos, com taxas de conclusão chegando a 54%, frequentemente superiores às de adultos mais jovens.

  • 14% das pessoas com mais de 70 anos vivem com perturbação de saúde mental
  • Apenas 4% dos adultos americanos com 65+ anos recebem psicoterapia, versus 12% dos jovens entre 18-24 anos
  • Taxas de conclusão de terapia em idosos chegam aos 54%, frequentemente superiores às de adultos mais jovens
  • 17% de todos os suicídios ocorrem na população com mais de 70 anos

Cerca de 14% dos idosos com mais de 70 anos sofrem perturbações de saúde mental, mas recebem menos encaminhamentos para terapia. Estudos mostram que a psicoterapia é eficaz em todas as idades, desafiando mitos históricos sobre tratamento em idade avançada.

Maurizio tem 70 anos e carrega enxaquecas desde a infância. Há pouco tempo, decidiu procurar terapia — não com a esperança de encontrar uma cura definitiva, mas para compreender melhor o que poderia estar por trás daquele sofrimento que o acompanhava há mais de seis décadas. Consultou vários médicos ao longo dos anos, buscou diferentes perspectivas, e a terapia foi apenas mais uma tentativa. Mas algo mudou. Mesmo quando percebeu que talvez nunca descobrisse uma causa única para as dores, manteve-se no tratamento. "O próprio processo tornou-se algo significativo, um espaço de introspeção que me ajudou a compreender a minha vida com mais clareza", diz ele.

Maurizio não está sozinho. Antonio, com 73 anos, e a sua mulher Gigliola, de 68, procuraram terapia para salvar um casamento marcado por deceções e tensões que nunca tinham conseguido nomear. "Ao fim de algum tempo, percebi que me sentia mais leve, mais aberto", conta Antonio. Gigliola acrescenta que trazer à superfície aquilo que nunca tinham dito talvez tenha sido o que os ajudou. As suas histórias desafiam uma crença profundamente enraizada: a de que a terapia é coisa de jovens.

Os números, porém, contam uma história diferente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 14% das pessoas com mais de 70 anos vivem com alguma perturbação de saúde mental — principalmente ansiedade e depressão. Dezassete por cento de todos os suicídios ocorrem nesta faixa etária. E ainda assim, os idosos são encaminhados para tratamentos psicológicos com muito menos frequência do que deveriam. Um estudo de 2024 revelou que apenas 4% dos adultos americanos com 65 anos ou mais recebem acompanhamento psicoterapêutico, comparado com 12% dos jovens entre 18 e 24 anos e 8% dos adultos entre 35 e 64 anos.

A ironia é que não existe qualquer evidência de que a terapia seja menos eficaz com a idade. Pim Cuijpers, professor de psicologia clínica na Universidade Vrije de Amesterdão, publicou recentemente uma revisão sobre psicoterapia para a depressão em diferentes faixas etárias. "As terapias funcionam ao longo de toda a idade adulta", afirma. "O que me surpreendeu foi haver uma quantidade considerável de investigação com pessoas acima dos 75 anos e não termos encontrado qualquer indicação de que as psicoterapias funcionem de forma diferente neste grupo etário." Na verdade, os idosos que entram em terapia tendem a manter-se no tratamento com notável dedicação — as taxas de conclusão podem chegar aos 54%, frequentemente acima das observadas entre adultos mais jovens. Isto sugere que quando os idosos decidem procurar ajuda, estão particularmente motivados para se envolver no processo.

Mas por que razão tão poucos chegam a essa decisão? Parte da resposta está nas barreiras financeiras. Muitos seguros de saúde não cobrem tratamento psicológico, e muitos idosos não têm recursos para pagar por conta própria. Outra barreira, porém, está dentro do próprio sistema de saúde. Os médicos de cuidados primários encaminham os idosos para terapia com menos frequência, mesmo quando apresentam sintomas claros de ansiedade ou depressão. O sofrimento é frequentemente interpretado como uma consequência natural do envelhecimento, não como uma condição que merece tratamento.

Este preconceito tem raízes profundas. Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, defendia que a terapia deixava de funcionar depois dos 40 ou 50 anos. Em 1905, escreveu que acima de certa idade, "a elasticidade dos processos mentais, da qual o tratamento depende, em geral está ausente". Rossana De Beni, professora e investigadora sénior de psicologia experimental na Universidade de Pádua, é clara: Freud estava "absolutamente errado". "Os estudos mostram exatamente o contrário", diz ela. O problema é que estes preconceitos relacionados com a idade estão "profundamente enraizados" — e muitas vezes são interiorizados pelos próprios pacientes idosos, que acreditam que os problemas de saúde mental são simplesmente parte do envelhecimento.

De Beni defende que os profissionais de saúde precisam de ver a pessoa idosa como ela realmente é: não como "um idoso", mas como um indivíduo complexo, com múltiplas dimensões. A terapia, particularmente em formato de grupo, oferece benefícios significativos — ajuda os idosos a lidar com preocupações específicas como isolamento social e doenças crónicas, e muitos relatam uma renovação da motivação e uma maior participação na vida. "Envelhecer, até ao último momento, é um processo de mudança", diz De Beni. "As pessoas vão-se tornando mais plenamente quem são, num movimento contínuo de transformação, aprendizagem e flexibilidade que nunca chega realmente ao fim."

Maurizio identifica-se com esta visão. A terapia ajudou-o em três momentos distintos: durante a separação do seu casamento, quando precisou de lidar com conflitos com os filhos, e durante a transição para a reforma, quando teve de encontrar novas formas de se relacionar. "Nunca achei que pudesse ser demasiado tarde para alguma coisa", diz. E espera ter plantado uma semente em outras pessoas — talvez não hoje, mas quem sabe depois de amanhã alguém a faça germinar.

As terapias funcionam ao longo de toda a idade adulta, e não encontrámos qualquer indicação de que funcionem de forma diferente em pessoas acima dos 75 anos
— Pim Cuijpers, professor de psicologia clínica na Vrije Universiteit Amsterdam
Envelhecer, até ao último momento, é um processo de mudança. As pessoas vão-se tornando mais plenamente quem são, num movimento contínuo de transformação, aprendizagem e flexibilidade que nunca chega realmente ao fim
— Rossana De Beni, professora e investigadora sénior de psicologia experimental na Universidade de Pádua
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que razão é que os idosos recebem tão poucos encaminhamentos para terapia, se os estudos mostram que funciona?

Model

Parte é financeira, mas há algo mais profundo — os médicos e até os próprios idosos acreditam que a tristeza e a ansiedade são apenas parte normal do envelhecimento. É idadismo, e está tão enraizado que ninguém questiona.

Inventor

Mas Freud disse que a terapia não funcionava depois dos 40 anos. Isso não foi provado?

Model

Não. Freud estava errado, e sabemos isso há décadas. Mas as suas palavras ainda ecoam. É como se tivéssemos herdado uma sentença que ninguém se deu ao trabalho de revogar.

Inventor

O que é diferente quando um idoso entra em terapia?

Model

Muitas vezes, nada — a terapia funciona da mesma forma. Mas quando um idoso decide procurar ajuda, está frequentemente mais motivado. As taxas de conclusão são mais altas. Talvez porque já viveram o suficiente para saber que precisam de mudança.

Inventor

E as histórias de Maurizio e Antonio — o que têm em comum?

Model

Ambos entraram esperando uma coisa — uma solução rápida — e descobriram outra: um espaço para se compreenderem a si próprios. Maurizio não encontrou a causa das enxaquecas, mas encontrou clareza. Antonio e Gigliola não salvaram o casamento de forma mágica, mas tornaram-se mais leves um com o outro.

Inventor

Então a terapia em grupo funciona melhor para idosos?

Model

Parece que sim. Oferece estrutura, convívio, a sensação de que não estão sozinhos. Quando se envelhece, o isolamento é um problema real. A terapia em grupo resolve dois problemas ao mesmo tempo.

Inventor

O que muda quando alguém internaliza o idadismo — quando acredita que é demasiado velho para mudar?

Model

Muda tudo. Essa crença torna-se uma profecia auto-realizável. Aumenta a predisposição para ansiedade e depressão. É como se a pessoa se rendesse antes de tentar.

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