Uma fraude dessa escala raramente funciona sozinha
No coração de uma das maiores crises corporativas do Brasil, a Polícia Federal avança para além dos executivos já acusados, voltando seu olhar para acionistas bilionários e representantes de bancos que orbitavam a Americanas. A segunda fase da Operação Disclosure levanta uma questão que transcende o caso em si: até onde vai a cumplicidade quando o silêncio diante da fraude também pode ser uma forma de participação? Com bloqueios que podem alcançar R$ 54 bilhões, o país confronta a extensão moral e jurídica de um esquema que durou anos à vista de muitos.
- A investigação deu um salto qualitativo ao incluir acionistas de referência e executivos de bancos, sinalizando que a fraude pode ter tido cúmplices além das paredes da Americanas.
- O bloqueio de bens que pode atingir R$ 54 bilhões coloca em risco patrimônios de figuras poderosas do mercado financeiro brasileiro, elevando a tensão política e econômica do caso.
- Investigadores identificaram operações de risco sacado e contratos de verba publicitária sem lastro real como instrumentos centrais do esquema, revelando uma arquitetura sofisticada de enganação.
- A força-tarefa tenta contato com as defesas dos novos investigados enquanto mapeia uma teia de responsabilidades que se mostra mais extensa do que qualquer estimativa inicial sugeria.
A Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Disclosure, ampliando o alcance da investigação sobre a maior fraude contábil brasileira recente para incluir acionistas bilionários e executivos de instituições financeiras ligadas à Americanas. O objetivo é determinar se essas figuras tiveram participação ou conhecimento prévio de um esquema que pode ter causado prejuízos de até R$ 54 bilhões.
O colapso começou a se revelar em janeiro de 2023, quando a varejista admitiu inconsistências contábeis inicialmente estimadas em R$ 20 bilhões. Com o tempo, investigadores federais concluíram que ex-executivos construíram uma estrutura deliberada para inflar resultados, ocultar dívidas e manipular balanços ao longo de anos — tudo para sustentar uma imagem de saúde financeira que não existia. Operações de risco sacado e contratos de verba cooperada sem lastro econômico real foram identificados como peças centrais do esquema.
A primeira fase da operação, em junho de 2024, focou nos executivos da empresa. Miguel Gutierrez, ex-CEO, chegou a ser preso na Espanha via Interpol, embora a prisão tenha sido revogada. Em março de 2025, o Ministério Público Federal denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários por enganar investidores e ocultar a real situação patrimonial da companhia.
Agora, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o bloqueio de bens que pode atingir R$ 54 bilhões, enquanto os investigadores tentam contato com as defesas dos novos alvos. O que emerge é uma teia mais complexa do que se imaginava — uma fraude que, para ter durado tanto, pode ter contado com o silêncio ou a conivência de atores muito além da própria empresa.
A Polícia Federal deu um passo significativo na investigação da maior fraude contábil brasileira dos últimos anos. A segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada agora, amplia o escopo das investigações para além dos executivos já denunciados, mirando acionistas bilionários e executivos de instituições financeiras que mantinham relacionamento com a Americanas. O objetivo é determinar se essas figuras tiveram algum grau de participação ou conhecimento do esquema que pode ter gerado prejuízos de até R$ 54 bilhões.
O caso começou a desmoronar em janeiro de 2023, quando a varejista revelou inconsistências contábeis inicialmente estimadas em R$ 20 bilhões. Investigadores e promotores federais apontam que ex-executivos da companhia construíram uma estrutura sofisticada para inflar artificialmente os resultados financeiros, ocultando dívidas e manipulando balanços ao longo de vários anos. A estratégia tinha um objetivo claro: melhorar a percepção do mercado sobre a saúde financeira da empresa.
Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, há indícios de que parte dos envolvidos tinha conhecimento prévio das irregularidades. Os investigadores apontam operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada que teriam sido contabilizados sem qualquer lastro econômico real. A fraude não foi um episódio isolado, mas um padrão que se estendeu por anos dentro da organização.
Em junho de 2024, a primeira fase da operação focou exclusivamente em ex-executivos da companhia. Miguel Gutierrez, ex-CEO, chegou a ser preso na Espanha após ser incluído na lista vermelha da Interpol, embora a prisão tenha sido revogada meses depois. Em março de 2025, o Ministério Público Federal denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários acusados de integrar uma estrutura organizada para enganar investidores e ocultar a verdadeira situação patrimonial da empresa.
Agora, com essa segunda fase, a investigação busca mapear conexões mais amplas. Os investigadores querem esclarecer se acionistas de referência e representantes do sistema financeiro tiveram algum envolvimento ou conhecimento do esquema. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o bloqueio de bens e valores que podem atingir R$ 54 bilhões, uma cifra que reflete a magnitude do dano causado.
A força-tarefa está tentando contato com as defesas dos investigados para obter posicionamentos. O que está em jogo agora é a compreensão completa de como uma fraude dessa escala pôde ser mantida por tanto tempo, e quem mais além dos executivos já denunciados pode ter tido responsabilidade no esquema. A investigação aponta para uma teia mais complexa do que inicialmente imaginado, envolvendo não apenas a companhia, mas também atores do mercado financeiro que a cercavam.
Notable Quotes
Os suspeitos teriam conhecimento de supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada supostamente contabilizados sem lastro econômico— Polícia Federal
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a Polícia Federal está ampliando a investigação agora, meses depois de denunciar os primeiros executivos?
Porque a fraude dessa magnitude raramente funciona sozinha. Os investigadores descobriram que havia operações contábeis sofisticadas — risco sacado, contratos de propaganda — que não saem do nada. Alguém tinha que estar financiando isso, alguém tinha que estar vendo os números estranhos.
E esses acionistas bilionários, eles teriam necessariamente sabido o que estava acontecendo?
Não necessariamente. O que a investigação quer saber é se tiveram conhecimento ou participação. Pode ser que alguns soubessem e fechassem os olhos. Pode ser que outros tivessem sido enganados também. Mas a estrutura era sofisticada demais para passar despercebida completamente.
Os bancos estão sendo investigados por quê?
Porque mantinham relacionamento com a Americanas. Operações de risco sacado, linhas de crédito, financiamentos — tudo isso passa por instituições financeiras. Se havia fraude contábil, os bancos estavam vendo balanços manipulados quando decidiam emprestar dinheiro. A pergunta é: eles sabiam?
R$ 54 bilhões é uma cifra enorme. Quem sofre com isso?
Investidores que compraram ações acreditando nos números falsos. Credores que emprestaram dinheiro. Fornecedores que não receberam. O prejuízo se espalha por toda a cadeia. É por isso que a investigação está tão ampla.
Qual é o próximo passo?
Determinar se havia conhecimento prévio entre acionistas e bancos. Se houver, as responsabilidades se multiplicam. Se não houver, a fraude fica confinada aos executivos já denunciados. Mas os investigadores parecem acreditar que havia mais gente envolvida ou ciente.