Fóssil de cone de conífera com 133 milhões de anos resolve mistério de uma década

Quando se faz ciência, as coisas mais simples são também as mais extraordinárias
Mário Miguel Mendes explica por que um fóssil de cone fossilizado resolve uma década de mistério paleobotânico.

Há 133 milhões de anos, numa paisagem árida que viria a ser Portugal, uma conífera extinta libertou o seu pólen para o vento — e esse gesto efémero ficou gravado na pedra até ser encontrado em Torres Vedras. Investigadores da Universidade de Coimbra identificaram um cone masculino fóssil único no mundo, ligando definitivamente o pólen Classopollis martinottii à planta Frenelopsis teixeirae e fechando um enigma que persistia há mais de uma década na paleobotânica europeia. A descoberta lembra-nos que a ciência é, muitas vezes, a arte de reunir fragmentos dispersos do tempo até que o silêncio do passado finalmente fale.

  • Durante mais de dez anos, grãos de pólen Classopollis martinottii apareciam em sedimentos europeus sem que ninguém soubesse qual planta os havia produzido — uma lacuna que frustrava toda uma geração de paleobotânicos.
  • O cone fóssil encontrado em Vale Cortiço, Torres Vedras, é o único exemplar conhecido no mundo, tornando-o uma peça científica de valor excecional e irrepetível.
  • Uma equipa internacional com colaboradores da Rússia, República Checa e Países Baixos analisou microscopia eletrónica e padrões de estomas para construir a ponte entre o cone e a planta Frenelopsis teixeirae.
  • O investigador Mário Miguel Mendes, que trabalha nesta flora desde 2010, considera agora 'praticamente certo' que o mistério está resolvido — falta apenas encontrar o cone ainda ligado a um ramo para confirmação definitiva.
  • A descoberta transforma a forma como paleobotânicos em toda a Europa interpretarão pólenes dispersos em sedimentos do Cretácico Inferior, dando-lhes finalmente uma origem conhecida.

Numa jazida fossilífera junto a Ameal, no concelho de Torres Vedras, investigadores liderados por Mário Miguel Mendes do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra desenterraram um cone masculino de conífera com 133 milhões de anos — o único do seu género alguma vez identificado no mundo. A descoberta resolve um enigma que perseguia os paleobotânicos há mais de uma década.

Durante o Cretácico Inferior, o território português era dominado por coníferas da família Cheirolepidiaceae, plantas adaptadas a climas quentes e secos. Em Vale Cortiço abundavam os frenelopsídeos, como a Frenelopsis teixeirae, e os seus pólenes do género Classopollis. O problema era que o pólen Classopollis martinottii aparecia disperso nos sedimentos sem que se soubesse qual planta o havia produzido — órfão de origem, sem rosto.

O cone recém-descoberto, batizado Classostrobus amealensis em referência ao pólen que contém e ao local onde foi encontrado, ofereceu finalmente a resposta. Composto por microsporofilos em hélice, os seus grãos de pólen foram identificados por microscopia eletrónica de transmissão como Classopollis martinottii. A paleobotânica raramente encontra plantas completas — trabalha com fragmentos espalhados, cada um com o seu próprio nome científico — e este cone era a peça que faltava.

Para ligar o cone a uma planta específica, a equipa internacional examinou os estomas do fóssil e comparou-os com os das espécies presentes no mesmo nível fossilífero. A organização era semelhante à de Frenelopsis teixeirae, que dominava claramente o local. Com todas as evidências a convergir, Mendes considera 'praticamente certo' que foi essa espécie a produzir o cone. Só falta encontrar um exemplar ainda ligado a um ramo para dissipar as últimas dúvidas — mas, como o próprio observa, 'quanto ao resto, está lá tudo'.

A descoberta tem implicações práticas imediatas: paleobotânicos em Espanha, França ou Inglaterra que encontrem pólenes de Classopollis martinottii em sedimentos saberão agora a sua origem. Mais do que isso, contribui para reconstruir o puzzle da evolução botânica e compreender como os ecossistemas se transformaram ao longo de centenas de milhões de anos.

Numa pequena jazida fossilífera junto a Ameal, no concelho de Torres Vedras, um grupo de investigadores finalmente resolveu um enigma que perseguia os paleobotânicos há mais de uma década. O fóssil em questão é um cone masculino de conífera, preservado em excelente estado, que nunca havia sido identificado em qualquer outro lugar do mundo. A descoberta, liderada por Mário Miguel Mendes do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra, oferece uma janela rara para a vida vegetal de Portugal há 133 milhões de anos.

Durante o Período Cretácico, o território português era dominado por coníferas da família Cheirolepidiaceae, plantas notavelmente adaptáveis que prosperavam em ambientes áridos e semiáridos. Dentro dessa família encontravam-se os frenelopsídeos, géneros como Frenelopsis e Pseudofrenelopsis, que deixaram registos abundantes em Vale Cortiço. A presença de fósseis dessas plantas, bem como dos seus pólenes do género Classopollis, revelava que o local apresentava um clima quente e seco durante o Cretácico Inferior, entre 145 e 100 milhões de anos atrás.

O cone descoberto é mais do que uma simples peça de rocha. Composto por microsporofilos dispostos em forma de hélice, contém grãos de pólen que, quando analisados através de microscopia eletrónica de transmissão, foram identificados como Classopollis martinottii. Até então, esses grãos de pólen só eram encontrados dispersos nos sedimentos, órfãos de origem, sem que os cientistas soubessem qual planta os havia produzido. Este cone oferecia finalmente a resposta que faltava.

A paleobotânica enfrenta um desafio único: raramente se encontram plantas completas no registo fóssil. Em vez disso, os investigadores lidam com fragmentos espalhados — ramos num local, pólenes noutro, cones acolá. Para contornar esta realidade, a disciplina desenvolveu um sistema de classificação taxonómica próprio, onde cada parte preservada recebe um nome científico independente, mesmo que pertença ao mesmo organismo. O cone recém-descoberto foi batizado Classostrobus amealensis, em referência ao pólen que contém e ao local onde foi encontrado.

Mas qual planta produziu este cone único? Aqui começa o trabalho de detetive que Mendes descreve. Em Vale Cortiço, os níveis fossilíferos onde o cone foi desenterrado continham abundantes fragmentos de Frenelopsis teixeirae, muito mais numerosos do que os de Pseudofrenelopsis dinisii. Os investigadores, que incluem colaboradores da Rússia, República Checa e Países Baixos, examinaram os estomas — pequenos orifícios que permitem trocas gasosas — e descobriram que a sua organização era semelhante tanto no cone como na F. teixeirae. Com todas estas evidências convergindo, Mendes considera "praticamente certo" que o cone foi produzido por essa espécie de frenelopsídeo.

A conclusão resolve uma cadeia de incerteza que se estendia há anos. Agora, quando paleobotânicos em Espanha, França ou Inglaterra identificarem pólenes de Classopollis martinottii dispersos em sedimentos, saberão a sua origem. Mendes trabalha nesta flora desde 2010, e esta descoberta representa o culminar de mais de uma década de investigação paciente. Para dissipar completamente as dúvidas remanescentes, seria necessário encontrar um desses cones ainda ligado a um ramo de F. teixeirae, mas, como o investigador observa, "quanto ao resto, está lá tudo".

Compreender a vida de milhões de anos atrás é essencial para entender como a flora moderna chegou até aos dias de hoje. A família Cheirolepidiaceae há muito se extinguiu, mas o seu estudo oferece pistas cruciais sobre a diversidade vegetal do passado. Estas descobertas aparentemente simples — um cone, alguns grãos de pólen — são as peças que permitem aos cientistas reconstruir o puzzle da evolução botânica e aprofundar a compreensão de como os ecossistemas se transformaram ao longo de centenas de milhões de anos.

Quando se faz ciência, por vezes as coisas mais simples são também as mais extraordinárias
— Mário Miguel Mendes, investigador do CITEUC
Este trabalho de CSI permitiu montar o puzzle. Com todas essas provas científicas percebeu-se que o pólen Classopollis martinottii é produzido pelos cones Classostrobus amealensis, que, por sua vez, serão muito provavelmente produzidos pela planta Frenelopsis teixeirae
— Mário Miguel Mendes
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Porque é que um cone fossilizado, aparentemente tão pequeno e simples, merecia uma década de investigação?

Model

Porque esse cone era a chave que faltava. Tínhamos pólenes espalhados por toda a parte, mas não sabíamos de onde vinham. Era como ter uma assinatura sem saber quem a assinou.

Inventor

E como é que conseguiram ligar o cone a uma planta específica sem o encontrarem ainda ligado a um ramo?

Model

Juntámos todas as pistas. O cone estava num nível onde uma planta em particular era abundante. Os estomas — aqueles pequenos poros — tinham o mesmo padrão. Tudo apontava para a mesma direção.

Inventor

Parece um trabalho de investigação criminal.

Model

Exatamente. Por isso é que Mário Miguel Mendes chama a isto "CSI: Paleobotânica". Não temos a confissão, mas temos as provas circunstanciais todas a convergir.

Inventor

E agora que sabem a origem deste pólen, o que muda?

Model

Muda tudo para quem estuda a flora do Cretácico. Quando encontrarem este pólen noutros sítios — em Espanha, França, Inglaterra — saberão exatamente o que é e de onde veio. Deixa de ser um mistério.

Inventor

Mas ainda falta encontrar o cone ligado ao ramo, certo?

Model

Sim. Isso seria a prova definitiva. Mas honestamente, com tudo o que temos agora, estamos praticamente lá. O resto é confirmação.

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