Ex-sócio de Lemann denuncia maquiagem bilionária nas Americanas para inflar dividendos

Funcionários perderam empregos, dezenas de milhares de investidores tiveram recursos perdidos e mais de mil fundos de investimento foram negativamente afetados pela fraude.
É impossível que o Rial em uma semana descubra um troço que nenhum analista tenha pegado nesses 50 anos
Ex-sócio de Lemann questiona a descoberta do rombo bilionário pela auditoria externa PwC.

Luiz Cezar Fernandes denuncia que a fraude começou "há muito tempo" e visava pagar bônus desproporcional aos executivos com lucros forjados. Lemann, Telles e Sicupira teriam se preparado para divulgação do rombo, saindo do conselho administrativo antes do escândalo estourar.

  • Rombo de R$ 20 bilhões escondido nos balanços da Americanas
  • Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio de Lemann, denuncia fraude planejada
  • Lemann, Telles e Sicupira saíram do conselho antes do escândalo estourar
  • Dezenas de milhares de investidores perderam recursos; mais de mil fundos afetados
  • Bancos preparam ações criminais e reduzem crédito para outras empresas do grupo

Ex-sócio de Jorge Paulo Lemann afirma que maquiagem contábil de R$ 20 bilhões nas Americanas foi planejada para criar lucros artificiais e aumentar dividendos, com possível envolvimento coordenado na divulgação do rombo.

Luiz Cezar Fernandes, que um dia foi sócio de Jorge Paulo Lemann, está falando agora sobre o que ele viu acontecer dentro da Americanas — e o que ele diz é que a fraude contábil de R$ 20 bilhões não foi um acidente descoberto por acaso. Foi, segundo ele, um esquema deliberado que começou "há muito tempo" e foi construído especificamente para inflar os lucros e justificar o pagamento de dividendos aos acionistas e bônus enormes aos executivos.

O mecanismo era simples no começo. Os fornecedores vendiam à Americanas com prazo de 90 dias para pagamento. A empresa atrasava sistematicamente, estendendo o prazo para 120 dias ou mais. Isso liberava caixa artificialmente, criando a ilusão de liquidez. Mas quando isso deixou de ser suficiente — quando o caixa não conseguia mais ser esticado — a empresa recorreu a algo mais grave: escondeu passivos dos bancos. Fernandes acredita que em algum ponto, os controladores perceberam que o jogo tinha chegado ao fim, que não era mais possível maquiar os números por conta própria. Foi quando, na sua leitura, chamaram Sergio Rial, o auditor externo, e combinaram com ele o que fazer. "É impossível que o Rial em uma semana descubra um troço que nenhum analista tenha pegado nesses 50 anos", disse Fernandes. "Aquilo foi combinado."

O que Fernandes está descrevendo é um sistema onde os lucros eram fabricados sob medida. Os bônus dos executivos eram pagos com base nesses lucros fictícios — bônus que ele descreve como "desproporcionais ao lucro real que a empresa estava tendo". Os dividendos distribuídos aos acionistas também vinham desses números falsos. Enquanto isso, quem realmente mandava na empresa? Fernandes aponta para Carlos Alberto Sicupira, que controlava as operações do varejo, mas que, estrategicamente, saiu do conselho de administração há um ano — deixando a posição de controlador formal para se tornar apenas "acionista de referência". Lemann e Marcel Telles já tinham saído do conselho anos antes.

Essa saída não foi casual. Fernandes vê nela um planejamento cuidadoso. Os três sabiam que o problema explodiria em algum momento. Sabiam que o preço das ações não se manteria onde estava. Então venderam suas posições enquanto o preço ainda era alto, esvaziaram suas responsabilidades formais no conselho, e deixaram a estrutura pronta para que, quando o rombo fosse revelado, eles estivessem juridicamente protegidos. "Por isso, acho que já estava no planejamento do Rial fazer a denúncia", disse Fernandes.

O resultado foi o maior escândalo contábil da história brasileira. Dezenas de milhares de investidores perderam seus recursos. Mais de mil fundos de investimento — alguns deles fundos de renda fixa, supostamente seguros — foram atingidos. Funcionários da Americanas perderam seus empregos. Os bancos credores enfrentam um calote bilionário e estão preparando ações criminais contra Lemann, Telles e Sicupira, enquanto reduzem drasticamente o crédito disponível para outras empresas do grupo. O mercado de crédito privado inteiro sente o impacto, com consequências negativas para o crescimento econômico.

E os três homens que construíram esse esquema? Eles são celebrados pela imprensa econômica como heróis do capitalismo brasileiro. Controlam a Ambev. Participaram da privatização da Eletrobrás. Ostentam um estilo de vida de luxo extremo — iates, helicópteros, jatos particulares. E são também os principais propagadores da tese da meritocracia, da ideia de que o sucesso vem do trabalho e da integridade. Tudo isso enquanto, segundo Fernandes, estavam orquestrando uma fraude que destruiu a riqueza de centenas de milhares de pessoas.

Foram ao extremo deixando um atraso no pagamento dos fornecedores... resolveu esconder o passivo dos bancos
— Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio de Lemann
Você paga o bônus de acordo com o lucro. Mas eles criaram o lucro para pagar dividendo e o monstro de bônus para os executivos
— Luiz Cezar Fernandes
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Quando você diz que a fraude "começou há muito tempo", o que você quer dizer com isso? Semanas? Meses? Anos?

Model

Anos. Muitos anos. O atraso de pagamento aos fornecedores não é algo que começou ontem. Isso era uma prática contínua, sistemática. Quando isso deixou de funcionar, eles foram para o próximo nível — esconder passivos dos bancos. Não foi uma decisão de um dia para o outro.

Inventor

Você está sugerindo que Sergio Rial, o auditor, foi conivente? Que ele sabia o que estava fazendo?

Model

Estou dizendo que é impossível um auditor descobrir em uma semana algo que ninguém pegou em 50 anos. Não sou ingênuo. A coincidência é muito grande. Ele chega, faz uma auditoria rápida, e de repente encontra um rombo de R$ 20 bilhões? Isso não acontece por acaso.

Inventor

E os bônus dos executivos — você está dizendo que eles foram pagos com lucros que não existiam?

Model

Exatamente. Você cria um lucro artificial no papel, e então usa esse lucro para justificar bônus enormes. Os executivos ganham uma fortuna, os acionistas recebem dividendos, e ninguém questiona porque os números parecem estar ali, pretos no branco.

Inventor

Por que você acha que Sicupira saiu do conselho?

Model

Proteção legal. Se você é controlador formal, você tem responsabilidade. Se você é apenas um acionista de referência que "influencia" as decisões, sua posição jurídica é muito mais confortável. Ele sabia que o problema ia estourar. Todos sabiam.

Inventor

E agora? O que você acha que vai acontecer?

Model

Os bancos vão processar. A CVM vai investigar. Mas juridicamente, eles estão bem posicionados. Isso é o que mais me irrita — não é só a fraude, é a inteligência com que foi planejada para deixá-los protegidos.

Quer a matéria completa? Leia o original em Brasil 247 ↗
Fale Conosco FAQ