Rússia recrutou ucranianos para atacar casa de Starmer e semear ódio no Reino Unido

Múltiplas mesquitas e uma escola islâmica foram vandalizadas em Londres; comunidades muçulmanas foram alvo de campanhas de incitamento ao ódio e violência.
Pagava muçulmanos para vandalizar mesquitas, depois culpava os muçulmanos pelos ataques.
Como a Rússia usou a "Takbir Foundation" para manipular ambos os lados da divisão comunitária.

Na sombra da guerra entre nações, a Rússia estendeu os seus tentáculos até ao coração de Londres, recrutando trabalhadores ucranianos vulneráveis para atacar a residência do primeiro-ministro britânico Keir Starmer e semear ódio entre comunidades. O arquiteto desta operação era um jovem diplomata russo de 23 anos, formado numa escola de desinformação de Putin, que criou organizações fictícias para fazer parecer que a violência emanava da extrema-direita e de grupos islâmicos britânicos. O episódio revela como a guerra narrativa russa não combate apenas adversários políticos, mas procura corroer o tecido social das democracias ocidentais por dentro.

  • Um trabalhador ucraniano desempregado em Londres foi manipulado a incendiar propriedades do primeiro-ministro britânico sem sequer saber quem era a vítima — a ignorância era parte do plano.
  • O diplomata russo Evgeny Lyukshin, filho de um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, coordenava a rede através de grupos de Telegram, escalando as missões de cartazes a incêndios criminosos.
  • Organizações fantasma como a 'Direct Action UK' e a 'Takbir Foundation' foram criadas para atribuir a violência a grupos muçulmanos e inflamar a extrema-direita britânica, com figuras como Tommy Robinson a amplificar as mentiras.
  • Seis mesquitas e uma escola islâmica foram vandalizadas em Londres, comunidades inteiras tornaram-se alvos colaterais de uma operação desenhada em Moscovo.
  • O julgamento condenou dois dos três acusados, mas a identidade pública de Lyukshin nunca foi revelada, e a Rússia negou qualquer envolvimento — o manual habitual de uma guerra que se recusa a ter nome.

Roman Lavrynovych era um trabalhador ucraniano da construção civil em Londres quando recebeu uma mensagem anónima a dizer-lhe que tinha atacado a casa de alguém muito importante. Só depois de ser preso percebeu que tinha incendiado propriedades do primeiro-ministro britânico Keir Starmer. Ele era apenas uma peça num esquema orquestrado por Moscovo.

O recrutador era Evgeny Lyukshin, um diplomata russo de 23 anos e filho de um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo. Formado no Ryabar — a escola de desinformação de Putin —, Lyukshin contactava ucranianos desempregados em grupos de Telegram, oferecendo dinheiro em troca de tarefas progressivamente mais perigosas: primeiro cartazes, depois vandalismo, depois incêndios. Tinha autorização para oferecer cidadania russa e pagamentos variáveis conforme o risco.

Os ataques incluíram o incêndio de um Toyota que pertencera a Starmer e dois ataques à entrada de imóveis ligados ao primeiro-ministro. Lavrynovych foi condenado por incêndio criminoso; Stanislav Carpiuc, de 27 anos, por conspiração. Um terceiro acusado foi ilibado.

Mas os incêndios eram apenas a camada visível de uma operação mais vasta. Lyukshin criou grupos fictícios — a 'Direct Action UK' e a 'Takbir Foundation' — para simular atividade de extrema-direita e de radicais islâmicos, incitando ao ódio contra muçulmanos e provocando reação nas redes de extrema-direita que ele próprio controlava. Figuras como Tommy Robinson amplificaram as publicações falsas. Em Londres, seis mesquitas e uma escola islâmica foram vandalizadas pouco depois de a 'Direct Action UK' ter oferecido dinheiro por graffiti islamofóbicos.

Nos seus canais de Telegram, Lyukshin glorificava Putin como 'salvador da raça branca', atacava os ucranianos e afirmava ter acesso a documentos da NATO e da CIA através do pai. O julgamento foi atípico: a identidade de Lyukshin nunca foi tornada pública, e a dimensão política da operação recebeu pouca atenção formal. A Rússia negou qualquer envolvimento. O esquema ficou como retrato de como a guerra narrativa russa não visa apenas políticos — visa as sociedades inteiras que os elegem.

Roman Lavrynovych é um trabalhador da construção civil ucraniano que recebeu uma mensagem anónima no Reino Unido informando-o de que tinha atacado a casa de alguém muito importante. Só depois de ser preso é que compreendeu a verdade: tinha incendiado propriedades do primeiro-ministro britânico Keir Starmer. Mas Lavrynovych era apenas uma peça num esquema muito maior, orquestrado por Moscovo, que recrutava homens jovens e desesperados para semear caos e divisão na sociedade britânica.

O contacto de Lavrynovych, identificado em tribunal pelas iniciais "EL", era Evgeny Lyukshin, um diplomata russo de 23 anos e filho de um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo. Segundo investigações da BBC, Lyukshin tinha autorização para oferecer cidadania russa e quantias em dinheiro variáveis conforme o perigo da missão. Lyukshin tinha frequentado o Ryabar, a escola de desinformação de Putin onde jovens são treinados para se tornarem agentes da guerra cultural e narrativa russa na Europa. Ele contactava Lavrynovych e outros homens através de grupos de Telegram de ucranianos desempregados em Londres, oferecendo trabalho e dinheiro em troca de atos cada vez mais graves: começava com afixação de cartazes, passava para vandalismo e pichagens, e terminava em incêndios criminosos.

O primeiro ataque ocorreu quando um Toyota que tinha pertencido a Starmer foi incendiado no norte de Londres. Seguiram-se dois outros ataques incendiários: um na entrada dos apartamentos onde o primeiro-ministro costumava viver e outro na entrada da sua casa, que tinha sido alugada à sua cunhada após a sua eleição. Lavrynovych foi condenado por incêndio de origem criminosa. Um cidadão romeno-ucraniano, Stanislav Carpiuc, de 27 anos, foi condenado por conspiração para atacar bens ligados a Starmer. Um terceiro homem, Petro Pochynok, de 35 anos, foi considerado inocente.

Mas os ataques incendiários eram apenas parte de uma operação muito mais ampla de desinformação. Lyukshin criou grupos falsos de extrema-direita e islâmicos chamados "Direct Action UK" e "Takbir Foundation", com o objetivo de semear divisão, incitar ódio contra muçulmanos e provocar revolta contra locais conotados com comunidades islâmicas. Estas contas falsas difundiam publicações também falsas sobre os motivos dos ataques a Starmer, que foram depois amplificadas por figuras como Tommy Robinson, líder da extrema-direita britânica. Em Londres, seis mesquitas e uma escola islâmica foram vandalizadas no ano passado, pouco depois de o grupo "Direct Action UK" ter oferecido dinheiro a quem aceitasse escrever graffiti islamofóbicos.

A "Takbir Foundation" funcionava de forma particularmente sofisticada. Lyukshin publicava anúncios em grupos de Telegram de islâmicos devotos, explicando que a fundação tinha nascido para "apoiar financeiramente a jihad em toda a Inglaterra", incentivando à guerra santa. O verdadeiro objetivo era inflamar a extrema-direita com atos pagos de vandalismo que depois seriam amplificados nas redes de extrema-direita que ele controlava. Um dos cartazes que Lavrynovych tinha para afixar dizia "Cada mesquita fechada = menos 100 crimes". A conta de Facebook da "Takbir Foundation" publicou uma foto do mesmo cartaz num grupo da comunidade muçulmana, alegando falsamente que tinha sido afixado em Southall, perto da Southall Central Masjid.

Em canais de Telegram, Lyukshin glorificava Putin como "salvador da raça branca" e atacava frequentemente o povo ucraniano. Incitava a ataques a centros de recrutamento na Ucrânia e pedia aos seus seguidores que se juntassem à luta pela "raça eslava branca" e "Terceira Roma", uma referência à crença de que a Rússia é a sucessora do Império Romano. Demonstrou ter acesso a documentos da NATO e da CIA, afirmando que o seu pai lhe passava parte desses documentos. "Não foi por acaso que ele foi para a Europa", disse Lyukshin em grupos de acesso aberto.

O julgamento foi atípico em vários aspetos. A identidade de Lyukshin nunca foi revelada publicamente. A argumentação focou-se principalmente no dinheiro que os homens iriam receber, com poucas referências à índole política dos cartazes e material de propaganda claramente ligado à promoção de grupos de extrema-direita. A Rússia negou qualquer envolvimento, afirmando através da sua embaixada que rejeita "qualquer tentativa de associar a Rússia ou o seu ministério dos Negócios Estrangeiros a atividades ilegais". O esquema revela como operações coordenadas de desinformação russa funcionam na Europa, com agentes treinados em escolas de propaganda de Putin a executar guerra narrativa que visa não apenas políticos específicos, mas comunidades inteiras.

Olha, atacaste a casa de uma pessoa de muito alto nível na Grã-Bretanha. Vou enviar-te dinheiro, precisas de sair da cidade.
— Evgeny Lyukshin, em mensagem anónima a Roman Lavrynovych após o ataque incendiário
Rejeitamos qualquer tentativa de associar a Rússia ou o seu ministério dos Negócios Estrangeiros a atividades ilegais. O país não representa qualquer ameaça para o Reino Unido ou para o seu povo.
— Embaixada russa, em resposta à BBC
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que a Rússia se importaria em atacar a casa de Keir Starmer especificamente? Qual era o objetivo real?

Model

O ataque em si era quase secundário. O objetivo era criar caos narrativo — fazer parecer que grupos muçulmanos radicais estavam a atacar o primeiro-ministro, quando na verdade eram agentes russos a orquestrar tudo. Isto divide a sociedade britânica, enfraquece a confiança nas instituições e distrai de outras questões.

Inventor

E como é que um diplomata russo de 23 anos consegue ter acesso a documentos da NATO e da CIA?

Model

Porque o seu pai é um funcionário de alto nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo. Lyukshin estava a usar a sua posição diplomática como cobertura, oferecendo até cidadania russa em troca de atos criminosos. É uma operação completamente integrada no aparelho estatal.

Inventor

A "Takbir Foundation" parece particularmente cruel — recrutar muçulmanos para vandalizar mesquitas, depois culpar os muçulmanos pelos ataques.

Model

Exatamente. Lyukshin criou uma armadilha dupla. Pagava muçulmanos para pintar graffiti "pró-jihad", depois usava essas mesmas imagens para inflamar a extrema-direita, que depois atacava mesquitas de verdade. Ambos os lados eram manipulados.

Inventor

Porque é que Lavrynovych continuou? Sabia que estava a fazer algo errado.

Model

Porque estava desesperado. Era um trabalhador ucraniano em Londres à procura de emprego. Lyukshin contactou-o em grupos de desempregados, ofereceu dinheiro, e depois escalou gradualmente — cartazes, depois pichagens, depois incêndios. Quando percebeu o que tinha feito, já era demasiado tarde.

Inventor

E o julgamento não mencionou nada disto?

Model

Quase nada. Focou-se no dinheiro, não na política. A identidade de Lyukshin nunca foi revelada. É como se o sistema judiciário britânico tivesse tratado isto como um crime comum de incêndio, não como uma operação de guerra híbrida contra o Reino Unido.

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