Precisamos ser firmes e às vezes até radicais, porque tem que ser disruptivo
A menos de cem dias das eleições presidenciais brasileiras, o senador Flávio Bolsonaro busca consolidar sua candidatura pelo PL aprofundando um programa de governo marcadamente conservador — da privatização dos Correios ao endurecimento penal. A ofensiva surge como resposta a uma crise de imagem provocada por áudios comprometedores, e revela a tensão permanente entre radicalizar o discurso para fidelizar a base e ampliar o alcance eleitoral necessário para vencer. As pesquisas, por ora, registram empate técnico com Lula, deixando em aberto se a estratégia é suficiente para romper o teto atual.
- Após áudios que o mostravam pedindo dinheiro a um banqueiro, Flávio Bolsonaro acelerou viagens e anúncios para conter o desgaste e sinalizar vitalidade à sua base.
- O plano 'Brasil Sem Medo', com doze propostas que incluem castração química e duplicação de presídios federais, concentrou a narrativa de junho em segurança pública como terreno eleitoral prioritário.
- Uma disputa interna com Michelle Bolsonaro — que denunciou publicamente ter sido 'apunhalada' pelo senador — expôs rachaduras no PL e forçou o presidente do partido a antecipar seu retorno ao Brasil para mediar o conflito.
- As pesquisas mostram empate técnico persistente: Lula com 46% e Flávio com 43% no segundo turno simulado, sem variação significativa mesmo após a ofensiva de propostas.
- A campanha reforçou sua equipe com marqueteiro e ex-presidente da Caixa, sinalizando urgência para transformar mobilização discursiva em avanço real nas intenções de voto.
A menos de cem dias das eleições, Flávio Bolsonaro mudou o ritmo de sua pré-campanha pelo PL. Junho marcou uma aceleração deliberada: após semanas de recuo provocado pela divulgação de áudios em que pedia dinheiro ao fundador do Banco Master, a campanha multiplicou viagens e anúncios de políticas públicas. O objetivo é consolidar o apoio da ala mais fiel do bolsonarismo e impedir que outras candidaturas de direita ganhem espaço.
No campo econômico, Flávio defendeu a privatização dos Correios e propôs uma nova reforma tributária com uso de inteligência artificial para controlar gastos públicos. Mas o verdadeiro foco do mês foi a segurança pública. No dia 18 de junho, lançou o plano 'Brasil Sem Medo', com doze propostas que incluem castração química de estupradores, duplicação de presídios federais e redução da maioridade penal para 16 anos. 'Na segurança pública, não adianta pedir moderação. Precisamos ser firmes e às vezes até radicais', declarou no Rio de Janeiro.
A ofensiva, porém, ainda não se converteu em avanço nas pesquisas. Levantamento PoderData de 25 de junho mostra Lula com 46% e Flávio com 43% em simulação de segundo turno — empate técnico praticamente idêntico ao registrado no fim de maio. Aliados do senador argumentam que as propostas tiveram ao menos um efeito: impediram que a queda continuasse após os áudios comprometedores.
Junho também trouxe turbulência interna. Michelle Bolsonaro publicou vídeos reclamando de segregação nas decisões do partido e disse ter sido 'apunhalada' por Flávio. O senador se desculpou publicamente em duas ocasiões, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, antecipou seu retorno dos Estados Unidos para mediar o conflito. 'Se não nos entendermos, vamos perder a eleição', alertou. Para reforçar a estrutura da campanha, passaram a integrar as reuniões semanais o marqueteiro Eduardo Fischer e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques — sinais de urgência diante de um cenário que permanece tecnicamente empatado, mas sem avanço visível.
A menos de cem dias das eleições presidenciais, o senador Flávio Bolsonaro intensificou sua pré-campanha pelo PL com um cardápio expandido de promessas voltadas ao eleitorado mais conservador. Junho marcou uma mudança de ritmo: após semanas de recuo provocado pela divulgação de áudios nos quais pedia dinheiro ao fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, a campanha acelerou viagens e anúncios de políticas públicas. A estratégia é clara: consolidar o apoio da ala mais fiel do bolsonarismo e impedir que outras candidaturas de direita ganhem espaço.
No campo econômico, Flávio retomou uma bandeira tradicional da direita: a privatização. Em entrevista à rádio Itatiaia no dia 2 de junho, defendeu a venda dos Correios, empresa que integrou o programa de desestatizações do governo Bolsonaro mas foi retirada da lista quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Planalto. A estatal acumula os maiores deficits de sua história. O senador também propôs uma nova reforma tributária e o uso de inteligência artificial para controlar gastos públicos, apresentadas em evento da Confederação Nacional da Indústria.
Mas o verdadeiro foco de junho foi a segurança pública. No dia 18, Flávio lançou o plano "Brasil Sem Medo", um pacote com doze propostas para combater crime organizado, endurecer a legislação penal e ampliar investimentos federais na área. Entre elas estão a castração química de estupradores e a duplicação do número de presídios federais. O senador também encampou a redução da maioridade penal para 16 anos, uma pauta antiga que encontra resistência na esquerda. "Na segurança pública, não adianta pedir moderação. Precisamos ser firmes e às vezes até radicais, porque tem que ser disruptivo", afirmou em evento no Rio de Janeiro.
O problema é que essa ofensiva de propostas ainda não se traduziu em ganhos nas pesquisas. Um levantamento PoderData divulgado em 25 de junho mostra Lula com 46% das intenções de voto em simulação de segundo turno contra 43% de Flávio, tecnicamente empatados dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No fim de maio, o quadro era praticamente idêntico: Lula tinha 46% e Flávio 42%. A oscilação de um ponto percentual para cima do senador está dentro da margem de erro. As pesquisas sucessivas indicam estabilidade, com o presidente mantendo uma pequena vantagem numérica. Aliados de Flávio argumentam que as propostas tiveram ao menos um efeito: impediram que a queda nas intenções de voto continuasse após os áudios comprometedores.
Junho também trouxe tensão interna no PL. Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e presidente do PL Mulher, publicou vídeos no Instagram reclamando de segregação nas decisões do partido, tanto em nível nacional quanto regional. Disse ter sido "apunhalada" e "humilhada" por Flávio. O senador se desculpou publicamente em dois momentos, e o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, antecipou seu retorno dos Estados Unidos para mediar a situação. "Se não nos entendermos, vamos perder a eleição", alertou.
Para tentar recuperar terreno perdido, a pré-campanha também ampliou seu núcleo duro. Além do coordenador Rogério Marinho e da equipe jurídica, passaram a participar das reuniões semanais o marqueteiro Eduardo Fischer e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques. São reforços que refletem a urgência de retomar a dianteira após os áudios de maio. O que vem pela frente é um teste: se as propostas radicais conseguem mobilizar o eleitorado conservador o suficiente para mudar a trajetória das pesquisas, ou se Flávio permanece preso ao patamar atual, tecnicamente empatado com Lula mas sem conseguir avançar.
Citas Notables
Na segurança pública, não adianta pedir moderação. Precisamos ser firmes e às vezes até radicais, porque tem que ser disruptivo— Flávio Bolsonaro, em evento no Rio de Janeiro
Se não nos entendermos, vamos perder a eleição— Valdemar Costa Neto, presidente do PL
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Flávio decidiu ampliar justamente essas propostas agora, em junho, depois dos áudios?
Os áudios o machucaram nas pesquisas. Ele caiu alguns pontos. A estratégia foi voltar para o que funciona com o eleitorado que nunca o abandonou — a ala mais dura da direita. Se você já perdeu moderados, pelo menos consolida quem está com você.
E funcionou? As pesquisas melhoraram?
Não muito. Ele ganhou um ponto percentual, mas está dentro da margem de erro. O que seus aliados dizem é que pelo menos parou de cair. Impediu que a queda continuasse.
Essas propostas — castração química, redução da maioridade — são radicais mesmo. Como isso se encaixa na campanha presidencial?
Flávio está apostando que o eleitorado dele quer radicalismo. Ele diz que segurança pública não é lugar para moderação. É uma aposta clara de que a direita brasileira quer dureza, não consenso.
E a briga com Michelle? Isso não enfraquece?
Enfraquece, sim. Michelle sente que foi deixada de lado nas decisões do partido. Ela tem base própria, especialmente entre mulheres. Se ela se afastar, Flávio perde votos. Por isso Valdemar voltou correndo dos Estados Unidos.
Qual é o cenário daqui para frente?
Flávio precisa que essas propostas mobilizem o eleitorado conservador o suficiente para sair do empate técnico. Se não conseguir, fica preso nesse patamar. E aí qualquer coisa — uma nova polêmica, um novo candidato — pode mudar o jogo.