Tudo isso só está sendo possível por causa de vc
Por trás das câmeras de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, o Intercept Brasil revela uma teia financeira que conecta o senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro — preso dias depois de trocar mensagens de urgência com o parlamentar. A negociação de 24 milhões de dólares para a produção 'Dark Horse', com ao menos R$ 61 milhões já transferidos, levanta questões que transcendem o cinema: quando o poder político e o capital financeiro se entrelaçam em estruturas opacas, a fronteira entre cultura e esquema torna-se difícil de discernir.
- O Intercept Brasil obteve mensagens, áudios e comprovantes bancários que documentam uma negociação de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master para financiar um filme sobre seu pai.
- Pelo menos R$ 61 milhões já foram transferidos em seis operações para um fundo sediado no Texas, conectado a aliados de Eduardo Bolsonaro — enquanto Vorcaro era investigado por um rombo de R$ 47 bilhões no FGC.
- Dias antes da prisão de Vorcaro, Flávio enviou áudios alarmados alertando para o risco de 'calote' em atores internacionais como Jim Caviezel, revelando a fragilidade e a urgência da operação.
- Confrontado pessoalmente pelo Intercept, Flávio negou tudo com um sorriso e deixou o local — repetindo o padrão de negação já adotado diante de perguntas anteriores sobre vínculos com o Banco Master.
- A investigação ameaça ampliar o escopo das apurações sobre fraude no FGC, sugerindo que recursos de esquemas financeiros podem ter sido canalizados para projetos políticos e culturais de alta visibilidade.
Em novembro de 2025, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro operava um esquema que deixaria um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, o senador Flávio Bolsonaro lhe enviava mensagens carregadas de urgência. Dez dias depois, Vorcaro seria preso. O que o Intercept Brasil revelou é que por trás dessa troca havia uma negociação de 24 milhões de dólares — cerca de R$ 134 milhões — para a produção de 'Dark Horse', filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Os registros mostram que pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025 para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e conectado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A estrutura societária do fundo inclui Paulo Calixto, advogado de Eduardo, como agente legal. Além de Flávio e Vorcaro, participaram das tratativas Eduardo Bolsonaro, o deputado Mario Frias, o empresário Thiago Miranda e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro.
Em setembro de 2025, com a produção em risco, Flávio enviou um áudio ao banqueiro cobrando repasses pendentes e alertando para o perigo de paralisação. Mencionou o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. 'Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel... ia ser muito ruim', disse. Um dia antes da prisão de Vorcaro, o senador ainda escreveu: 'Irmão, estou e estarei contigo sempre'.
Quando confrontado pelo Intercept nas proximidades do STF, Flávio negou categoricamente qualquer vínculo. 'De onde você tirou essa informação? É mentira', disse, rindo e deixando o local. Não era a primeira vez: questionado anteriormente sobre doações de aliados de Vorcaro à campanha de seu pai, o senador garantiu que tudo ocorreu 'sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida'. A investigação, no entanto, sugere que a fronteira entre o projeto cultural e as operações financeiras investigadas pode ser muito mais tênue do que as negações permitem admitir.
No início de novembro de 2025, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro operava nos bastidores de um esquema que deixaria um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, o senador Flávio Bolsonaro lhe enviava mensagens carregadas de urgência. "Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc", escreveu em 7 de novembro, anexando um vídeo de visualização única. Dez dias depois, Vorcaro seria preso. O que o Intercept Brasil descobriu através de mensagens, áudios, documentos e comprovantes bancários é que por trás dessa troca de mensagens havia uma negociação de proporções significativas: Flávio havia acertado com Vorcaro um financiamento de 24 milhões de dólares — aproximadamente R$ 134 milhões à época — para a produção de Dark Horse, um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Os registros indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares, o equivalente a cerca de R$ 61 milhões conforme as cotações dos períodos, foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações distintas. O dinheiro seguiu para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e conectado a aliados de Eduardo Bolsonaro. Um comprovante de 14 de fevereiro documenta uma ordem de pagamento internacional de 2 milhões de dólares. As transferências teriam partido da Entre Investimentos e Participações, uma empresa ligada à operação. O fundo, segundo documentos societários, foi registrado no Texas com Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, como agente legal, e o corretor de imóveis Altieris Santana também aparece vinculado à estrutura.
As negociações envolveram mais do que apenas Flávio e Vorcaro. Eduardo Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias, o empresário Thiago Miranda e Fabiano Zettel — apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro — também participaram das tratativas. Em setembro de 2025, com a produção em risco, Flávio enviou um áudio ao banqueiro cobrando o saldo pendente e alertando para o perigo de paralisação. Mencionou especificamente o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim", disse. Em outro trecho do mesmo áudio, completou: "Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo".
A proximidade entre Flávio e Vorcaro fica evidente em uma mensagem enviada em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu o senador. No dia seguinte, Vorcaro foi detido acusado de operar o esquema de fraude. Em 18 de novembro, o Banco Central liquidou o Banco Master.
Quando confrontado presencialmente pelo Intercept na quarta-feira, 13 de maio, sobre o financiamento de Vorcaro ao filme, Flávio respondeu com negação categórica. "De onde você tirou essa informação? É mentira", disse, rindo em seguida e deixando o local onde concedia entrevista à imprensa nas proximidades do Supremo Tribunal Federal. Não era a primeira vez que o senador negava vínculos da família com o Banco Master. Quando questionado anteriormente pela CNN sobre uma doação de R$ 3 milhões feita pelo cunhado de Vorcaro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio afirmou que a contribuição ocorreu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive". Também declarou: "Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita".
O Intercept procurou Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Fabiano Zettel, Paulo Calixto, Altieris Santana, Jim Caviezel, Cyrus Nowrasteh e Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil. Até a publicação da reportagem, a maioria dos citados não respondeu. A investigação levanta questões sobre possíveis vínculos entre a família Bolsonaro e operações financeiras irregulares, com potencial impacto em investigações mais amplas sobre fraude no Fundo Garantidor de Crédito e sobre como recursos de esquemas financeiros podem ter sido canalizados para projetos políticos e culturais de grande visibilidade.
Notable Quotes
Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!— Flávio Bolsonaro em mensagem a Vorcaro em 16 de novembro de 2025
Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim— Flávio Bolsonaro em áudio a Vorcaro em setembro de 2025
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um banqueiro envolvido em fraude estaria financiando um filme sobre Bolsonaro?
Porque o filme não era apenas um filme. Era um ativo político — uma narrativa internacional sobre Jair Bolsonaro, com atores de Hollywood, que circularia globalmente. Para alguém como Vorcaro, conectado à família, era uma forma de investir em influência e legitimidade.
Mas Flávio nega tudo. Como você responde a isso?
As mensagens falam por si. "Tudo isso só está sendo possível por causa de vc" — não é algo que você escreve para alguém com quem não tem acordo. E o áudio sobre o risco de "calote" em atores renomados mostra que Flávio estava gerenciando a produção, cobrando repasses, preocupado com o cronograma.
O que muda o fato de o dinheiro ter vindo de um esquema de fraude?
Muda tudo. Se os R$ 61 milhões que já foram transferidos vieram de operações fraudulentas, então você tem recursos desviados de um fundo de garantia sendo canalizados para um projeto político. Não é apenas um financiamento privado — é possível desvio de recursos públicos.
E por que Flávio não simplesmente admite que conhece Vorcaro?
Porque admitir isso o conecta diretamente a um esquema que deixou um rombo de R$ 47 bilhões. É mais fácil negar do que explicar por que o senador pré-candidato à Presidência estava recebendo dinheiro de um banqueiro fraudador.
O filme saiu? Alguém viu?
Não sabemos ainda. O que sabemos é que em setembro de 2025, Flávio estava cobrando repasses porque a produção corria risco de parar. Vorcaro foi preso em novembro. O filme pode estar congelado, ou pode ter sido concluído com o dinheiro que já havia sido transferido.