Vacinação é a única ferramenta real que temos contra esses vírus
Seis estados (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Roraima) apresentam sinal de crescimento a longo prazo em casos de SRAG. VSR, Influenza A e B são os principais vírus causadores de hospitalizações, com tendência de crescimento mantido entre idosos e diminuição em crianças e adultos menores de 50 anos.
- Seis estados (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Roraima) apresentam crescimento sustentado em casos de SRAG
- Vírus sincicial respiratório, Influenza A e B são os principais causadores de hospitalizações graves
- Vacina contra VSR foi incorporada ao PNI em 2025 para gestantes a partir da 28ª semana de gravidez
- Tendência de crescimento mantido entre idosos; diminuição em crianças menores de dois anos e adultos de 2 a 49 anos
Boletim InfoGripe da Fiocruz aponta que internações por infecções respiratórias seguem em nível de alerta na maioria dos estados brasileiros, com tendência de estabilização nacional, mas crescimento em seis estados do Sudeste, Sul e Norte.
A Fundação Oswaldo Cruz divulgou neste sábado um alerta que reverbera pelos hospitais do país: internações por infecções respiratórias graves mantêm-se em nível crítico em quase todos os estados brasileiros. O novo boletim InfoGripe, que rastreia casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave desde junho, mostra um cenário nacional de estabilização relativa — mas essa calma mascara focos de preocupação real em seis estados que continuam registrando crescimento sustentado.
Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, no Sudeste, somam-se a Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Sul, além de Roraima, no Norte, como regiões onde o número de hospitalizações segue em trajetória ascendente. Apenas quatro estados — Piauí, Rondônia, Pernambuco e Tocantins — escapam do nível de alerta ou risco. O InfoGripe, desenvolvido pelo Programa de Computação Científica da Fiocruz, monitora sistematicamente esses casos graves que evoluem para internação, oferecendo um termômetro preciso da pressão sobre o sistema de saúde.
Três vírus dominam o cenário: o vírus sincicial respiratório, que causa bronquiolite infantil, e os vírus Influenza A e B, responsáveis pela gripe. Esses patógenos não afetam a população de forma uniforme. Entre os idosos, a tendência é de crescimento mantido — um sinal de alerta para uma população biologicamente mais vulnerável. Nas crianças menores de dois anos, a alta de casos interrompeu-se, sugerindo alguma contenção. Já nas faixas etárias de 2 a 49 anos, o número de hospitalizações diminui, indicando que o impacto mais severo concentra-se nos extremos da vida.
O sistema de saúde dispõe de ferramentas para frear essa progressão. A vacina contra o vírus sincicial respiratório foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações no ano passado e é oferecida a gestantes a partir da 28ª semana de gravidez — a estratégia funciona transferindo anticorpos maternos ao recém-nascido, criando uma barreira de proteção nos primeiros meses de vida. A vacina da gripe segue disponível em postos de saúde para crianças de 6 meses até 5 anos, idosos acima de 60 anos e gestantes, com expansão em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, onde foi liberada para toda a população com 6 meses ou mais.
Para a Covid-19, o Ministério da Saúde recomenda vacinação inicial em crianças entre 6 meses e 5 anos, reforços semestrais para gestantes e idosos acima de 60 anos, e esquemas específicos para imunocomprometidos e trabalhadores da saúde. O desafio agora é converter essa disponibilidade em cobertura real. A estabilização nacional observada no período de 6 a 27 de junho oferece uma janela, mas os seis estados em crescimento sugerem que o vírus continua encontrando espaço onde a vacinação não alcança. O próximo boletim dirá se essa contenção se sustenta ou se o país enfrenta uma nova onda.
Notable Quotes
As internações por infecções respiratórias seguem em nível de alerta, risco ou alto risco na maioria dos estados brasileiros— Boletim InfoGripe da Fiocruz
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que apenas seis estados mostram crescimento se a tendência nacional é de estabilização?
Porque estabilização nacional é uma média. Quando você agrupa 27 estados, alguns crescendo e outros caindo, o resultado pode parecer plano. Mas esses seis estados — especialmente no Sudeste e Sul — são como focos de infecção que não foram contidos. É onde o vírus ainda encontra população vulnerável.
E por que os idosos continuam em crescimento enquanto as crianças pequenas melhoraram?
Os idosos têm imunidade mais frágil naturalmente. Mas também há uma questão de cobertura vacinal. A bronquiolite infantil, causada pelo VSR, agora tem uma vacina específica para gestantes que protege o bebê. Isso funciona. Para idosos, a proteção depende de eles irem se vacinar contra gripe e Covid-19 — e nem sempre isso acontece com a velocidade que deveria.
A vacina do VSR para gestantes é recente. Quanto tempo leva para ver o impacto real?
Alguns meses. A mãe recebe a vacina, produz anticorpos, passa para o bebê. Você vê a queda em hospitalizações de recém-nascidos semanas depois. Mas isso só funciona se as gestantes forem vacinadas. Nem todas sabem que existe, nem todas têm acesso fácil.
Rio de Janeiro e São Paulo liberaram a vacina da gripe para toda a população. Isso deveria resolver o problema?
Deveria ajudar, mas não resolve sozinho. Liberar não é garantir que as pessoas vão. Você precisa de campanhas, de confiança, de acesso real. E mesmo assim, há pessoas que não se vacinam por escolha. O vírus não espera por consenso.
Esses seis estados em crescimento — há algo em comum entre eles?
Geograficamente, concentram-se no Sudeste e Sul, que têm invernos mais rigorosos. Clima frio favorece a transmissão de vírus respiratórios. Mas também pode haver diferenças em cobertura vacinal, densidade populacional, acesso ao SUS. O boletim não diz isso explicitamente, mas é provável.
O que você está observando que o boletim não diz diretamente?
Que a vacinação é a única ferramenta real que temos. Não há tratamento específico para VSR ou gripe que mude o curso da doença uma vez que você está hospitalizado. Tudo depende de prevenção. E prevenção depende de pessoas. É por isso que o alerta é tão importante — não é só um número, é um chamado.